Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Os 2000 mil euros de Moore e os heróis de Stone

O Mundo atravessa uma grande encruzilhada, escondida entre crises gripais e problemas financeiros. Um problema de valores - ou melhor, da ausência deles - e de ideias e ideais para o futuro. Um futuro marcado pelo desemprego, perda de direitos consagrados ao longo do século XX. Um futuro cada vez mais negro.

 

O cinema sempre funcionou como um elemento do meio. Do meio social, politico e economico. É invarivavelmente um dos sectores do meio artistico que melhor sabe captar - ou tapar - a crua realidade. Se o cinema dos anos 30 pouco falou sobre a Grande Depressão, a verdade é que captou bem o espirito dos rebeldes sem causa à procura de uma oportunidade para romper com o establishment na figura dos gangsters. Ao mesmo tempo tapou a tristeza do dia a dia com comédia e musicais ao gosto comum. Sempre se criticou no cinema essa bi-polaridade, especialmente a escola de documentaristas e de cineastas ditos alternativos que procuravam a outra visão do Mundo. Durante décadas o conflito foi aumentando e as diferenças estigmatizaram mais a ideia de que ou se está a favor, ou se está contra.

 

Hoje em dia Hollywood é um circo nas mãos de meia dúzia de multinacionais que gastam bilhões em oferecer ao mundo filmes de super-herois, filmes para o grande público adolescente e que chegam ao final do ano e se juntam para dar o prémio de melhor a algo mais "sério", para não ficar mal na fotografia. Paralelamente os criticos defendem um cinema activista e denunciador, um cinema que contraste com o azedo Hollywood. Mas também, hoje em dia, esse cinema é sujo e túrbio e os seus arautos, tão negros como os fantasmas do passado.

 

Em Veneza passeiam-se por estas alturas cineastas dos quatro cantos do Mundo. As crises empresariais são tratadas de forma ligeira (como a comédia negra The Informant com Soderbergh e Matt Damon em low-profile) e os males do Mundo parecem reduzir-se ao eterno 3 Mundo, esquecendo-se que no primeiro mundo ainda há muita miséria e pobreza para que tudo viva sob o fantasma de África e arrabaldes. E há também os arautos da revolução. Arautos como Oliver Stone e Michael Moore, homens ditos da esquerda revolucionária norte-americana que, não deixam de espelhar, a falta de rumo porque atravessa o mundo hoje em dia.

 

Recebidos sob aplausos por dizerem que não ao ogre, por trás fica a triste adoração de Oliver Stone - homem obcecado pelas figuras presidenciais - por Hugo Chavez, hoje em dia uma das personagens mais lamentáveis da cena politica mundial. Depois de Castro, Arafat e companhia, o realizador de JFK, Nixon ou W. o cineasta explora a realidade daquele que trata como o salvador da América Latina, esse outro lado do 3 Mundo que vive em condições tão ou mais miseráveis que muitos países africanos. Claro que South of the Borders é um documentário falso. Falso no ideal, falso na forma e falso no conteudo. É uma pura obra de propaganda, legitima se é isso que se procura, mas desonesta quando se fala na "Verdade". Stone filma o homem que desafiou os States e que deu de comer ao seu povo e esquece-se do nivel de vida que a Venezuela (e outros países com governos chavistas ou castristas) ainda tem. E terá quando o petróleo - a unica arma politica do presidente - acabar.

 

Por outro lado também se passeia com o seu largo sorriso o campeão dos anti-americanos, ou melhor, dos anti-republicanos, porque agora Moore já não está só. Diz ter um país inteiro atrás de si, ao contrário do que se passava quando lançou Farheneith 9/11 em vésperas da reeleição de Bush. O cineasta de Roger and Me volta ao panfletário discurso do Bem e Mal com Capitalism: A Love Story. Aqui não escapamos ao maniqueismo em que o capitalismo surge como o mal absoluto e o bem é o caminho rumo ao socialismo (palavra proibida naquelas terras) que neste caso é rapidamente associado a Barack Obama, o mesmo homem que ainda não conseguiu unir o país à volta de um assunto tão sério como a saúde. Curiosamente Moore, esse anti-capitalista, cobra, segundo noticiou hoje o Público, 2000 euros por cada entrevista que concede, qual estrela da imprensa cor-de-rosa. Um valor insignificante, comparado com tantos outros, mas que entra em total desacordo com a imagem apresentada.

 

Com aquela figura e ar trocista, ao saber destes pequenos detalhes, ficamos com a sensação que nos dá Stone. Que tudo isto é falso, outro lado do show business, outro lado da podridão. Continua sem haver um cineasta ou um autor sério que se dedique a falar a verdade, seja por onde for. E no final pelo menos ficamos com a consolação de que ainda temos Clint Eastwood, que pode ter todos os defeitos do Mundo, mas é o cineasta mais honesto de que há memória... 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 11:30
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4 comentários:
De Tiago Vitória a 9 de Setembro de 2009 às 00:10
Visto que não encontrei outro lugar para expôr a minha opinião, irá ser mesmo neste primeiro post.

Na blogosfera, tudo é muito simples! Publica-se, divulga-se e critica-se o que ser quer, aprovando e desaprovando o que se quiser - legítimo. Podendo depois - as críticas - serem alvo de outras críticas.

Estou aturdido com factos narráveis que se publicam neste blog, assim como críticas e opiniões diferentes de todas aquelas que se fazem ver e ouvir por todo o Mundo.

Já aqui me tinha referido ao facto do 'Into the Wild' ser 'a maior desilusão do ano' - opinião dada, que nem aqui a vou ranger um sentimento - ou até do ingressamento do 'Vicky Christina Barcelona' no lote com [filmes] com 'uma' estrela.

Agora faço-me remeter ao conjunto de situações e desgovernos que levaram o 'caro' crítico a premiar o 'Inglorious Basterds' de ACEITÁVEL - termo completamente prejurativo quando estamos a tocar em tarantino' stuff - e a premiar como BOM - o adágio do realizador - "The boat that rocked".

Sinto muito o facto de ser um crítico de cinema formado em 'Jornalismo e Ciências da Comunicação' curso que almejo 'tirar', pois um crítico de cadeira - como eu - por vezes não precisa de estudar filmes, basta vê-los.

Continuação de bons filmes.





De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Setembro de 2009 às 08:29
Caro Tiago,

Vai por um péssimo caminho como jornalista, futuro critico e até como pessoa se não sabe respeitar opiniões distintas à sua. Uma questão de educação que convinha aclarar com quem de direito.

Quanto a dar estrelinhas a filmes com base em preconceitos, isso é o tipico problema da critica facciosa que não sabe pensar por si. Quem dá 5 estrelas a Pulp Fiction pode dar 2 estrelas a Inglorious Basterds, apesar do cineasta ser o mesmo. Ou cada filme que um realizador de culto faz tem de ser genial? Pobres de nós.

Um filme é uma obra. Tem um autor, tem um contexto, tem um conjunto de interpretes e meios técnicos. É um acto isolado que a nivel de história do cinema pode ser integrado numa carreira. Mas essa carreira não faz um filme melhor ou pior. Há realizadores brilhantes com filmes detestáveis que se seguem ou antecedem puras obras-primas. Se o Tiago quer ser como os pobres criticos com palas nos olhos que correm a cinco estrelas qualquer coisa que faça um autor de culto, boa-sorte. Se for valorar os filmes como valoram os outros, porque os valora realmente?

Aqui no Cinema tratamos os filmes e os seus autores com o respeito que nos merecem. E se não gosta da opinião está no seu direito. Como também eu estou no direito de o achar muito verde para estas coisas.

Cumprimentos


De Tiago Vitória a 9 de Setembro de 2009 às 12:27
A situação do Tarantino foi usada como exemplo para outras sitações, concordando quando diz que toda a conjuntura foi mais favorável ao 'Pulp Fiction' do que ao 'Inglorious basterds'.

Gostei da sua resposta. Foi argumentada e eu gosto de argumentos.

Agradeço o tempo que perdeu, pois mostrou carácter como pessoa e bloguer, e desculpe a minha parcial falta de compreensão, afinal de contas cada pessoa tem a sua opinião.

Vou acompanhar o blog, pois não quero pensar que critiquei sem saber de tudo a 100%.

Cumprimentos.


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Setembro de 2009 às 14:03
Caro Tiago,

Como qualquer leitor é sempre bem vindo ao Cinema da mesma forma que aqui há sempre espaço para qualquer critica e opinião por muito que se afaste da linha editorial seguida.

Afinal as respostas nascem muitas vezes dos confrontos de ideias.

cumprimentos


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