Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

A Câmara Parada

Quem já viu o último filme de Jonathan Demme, Rachel Is Getting Married, surpreendeu-se com a naturalidade como o cineasta entrega o seu filme a uma série de handy-cams, como acontece com qualquer casamento que se preze. O filme está em constante movimento, saltando de uma habitação à outra sem qualquer despudor, como se de um incómodo convidado se tratasse. Para uns é hiper-realismo. Para outros é uma inevitabilidade do futuro. Demme não inventou nada. Já a escola do Dogma 95 vinha anunciando que o futuro era a pequena câmara digital em perpétuo movimento. Hollywood adaptou a ideia para trazer mais realismo aos seus grandes épicos bélicos, fazendo sentir ao espectador que está no coração da refrega, e não confortavelmente sentado num sofá forrado e bem cómodo com a sua bebida pousada ao lado.

Fosse o espírito indie de Demme, a irreverência da escola dinamarquesa dos 90, o alucinante Blair Witch Project ou a obra-prima spielberguiana Saving Private Ryan, todos os filmes alinham por uma mesma ideia. Uma ideia nuclear para definir o cinema: o movimento.

 

Cinema é movimento. É dinamismo. Desde as primeiras experiências técnicas da época de Edison, Meliés ou dos Lumiere que sempre se tentou transferir à tela uma sensação de perpetuo movimento. As sucessivas inovações tecnológicas permitiram as cavalgadas dos westerns, a pintura dos revoltosos marinheiros russos de Eisenstein ou as balas fulminantes dos filmes de gansgters da Lei Seca. A câmara mudou de forma, adaptou. Maiores, mais pequenas. Com carris, com suporte…era indiferente, o propósito era que essa ponte entre a cena e o ecrã pudesse ganhar vida, e com isso, dar dimensão a uma situação plasmada num décor, fosse este natural ou artificial.

Foi assim que Godard atirou o seu Belmondo para os Champs-Elyses…que Hitchock jogou com a câmara na frenética sequencia de perseguição final de Vertigo ou que Fellini provocou os delírios de Mastroiani de 8 ½. Tudo baseado na simples ideia do movimento perpétuo da câmara e com ele do autor, da ideia…da obra.

 

Cinema em movimento. Não apenas físico. Cinema em dinamismo mental. Cinema em busca perpétua da novidade. Cinema capaz de rasgar etapas históricas e correntes estéticas. Assim foram os últimos 100 anos da história da sétima arte. Assim serão os próximos 100. É a inevitabilidade do crescimento, do amadurecimento…e do renascimento também.

 

Tudo isto a propósito de uma data, um dia em que um país e alguns salões de chá de Paris ou cidades afins, celebraram com pompa e circunstancia um aniversário. Os 100 anos de Manoel de Oliveira, que alguns quiseram transformar quase nos 100 anos de glória do cinema luso, são a completa antítese de todo o que foi descrito nas linhas anteriores.

Oliveira é a antítese do movimento…físico e intelectual. Oliveira é a representação do cinema-teatro levada ao seu maior extremo, seja numa sequencia de meia hora num convento vazio (de gente, de alma, de vida) seja num plano larguíssimo de um genérico que desafio o bom senso de qualquer santo consagrado no altar. Fazer um exercício de comparação de Oliveira a nomes como Bergman e Buñuel, é puro aproveitamento. Nenhum dos outros dois grandes cineastas filmou como filma Oliveira. Pensou a sua obra como o cineasta portuense. E por isso é que hoje, qualquer cinéfilo dos quatro cantos do Mundo se delicia com Morangos Silvestres e não suporta Benilde. Ou sente uma profunda referencia com Belle de Jour e uma notório repulsa por Belle Toutjours.

 

O cinema-teatro de Oliveira em nada tem a ver com a magia da transformação da grande arte teatral ao meio cinematográfico. Algumas das maiores obras-primas da 7ª Arte são resultado de obras de teatro espantosas (Streetcar Named Desire, Cat on a Hot Tin Roof, Julius Caeser, …) e no entanto plasmam em cena o dinamismo próprio de uma obra cinematográfica. A antítese estética que encontramos na obra de Oliveira em relação ao cinema e ao próprio teatro, faz com que os seus filmes sejam uma produção audiovisual, mas incaracterística de qualquer definição mais concreta. Por ter actores não faz dele teatro. Por estar rodada numa película, não faz dela cinema.

 

Os admiradores de Oliveira dizem que é um eterno jovem que arrisca onde os mais ousados são conservadores. Curioso, visto que desde os seus primeiros documentários (talvez a parte mais honesta e interessante de toda a sua obra) e de um longo período sem rodar, onde foi incapaz de conseguir financiar os seus projectos, Oliveira nada de novo trouxe ao cinema. Não é um iconoclasta como os neo-realistas italianos. Não tem frescura como conseguiu a Nouvelle Vague francesa. Não é um engenheiro de cena como foi Hitchocok ou Ford ou génio da sensibilidade humana como Renoir, Ozu ou Bergman. Oliveira não trouxe ao cinema nada que já aí não estivesse, e para a posteridade ficará uma obra marcada por altos e baixos que uma ínfima minoria valorará, como sempre, a seu belo prazer, com dedo acusatório a todos os que a sujem de infâmias. Um filme já visto e revisto aliás. Um filme bem português.

 

Por ultimo, fica o dedo acusatório. Oliveira não tem culpa de como vive o cinema português. Mas é cúmplice. O sistema de financiação estatal do cinema em Portugal é uma vergonha, mas que passa incólume, no meio de tanto lixo que abunda na estrutura administrativa nacional. A inexistência de uma politica de investidores sólidos (já nem falo em estúdios economicamente saudáveis, como se vão conseguindo fazer em países de iguais dimensões e poderio financeiro) obriga a que quase todo o cinema português passe pela política de subsídios. E aí, os nomes “consagrados” do meio, conseguem sempre levar avante os seus projectos. Pergunto-me quantos filmes terão ficado congelados, filmes capazes de trazer um ar novo ao cinema português e funcionar lá fora como um digno escaparate, para que se financiassem os projectos de autores como este centenário? É triste ver o panorama dos festivais europeus e descobrir que todos os anos chegam novos olhares e novos autores dos quatro cantos do Mundo, e que Portugal se limita a aplaudir se Manoel de Oliveira ganha mais uma menção honrosa, que é como quem diz, uma palmadinha nas costas para agradecer, que por aqui, esteja tudo na mesma.  

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 12:21
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De Rafael Fernandes a 12 de Dezembro de 2008 às 16:16
Bem, confesso que não conheço quase nada de António Oliveira, mas ontem, devido ao seu aniversário vi na rtp o filme Cristovão Colombo - O Enigma. E de facto foi dos piores filmes que vi nos últimos tempos. Concordo em grande parte com que foi dito neste post, no entanto tenho que defender que o plano longo e fixo também pode ser bem integrado no cinema, como acontece em muitos e bons filmes, é uma questão de ter bom senso na sua utilização. Os filmes de Takeshi Kitano são um bom exemplo disso..


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