Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Invictus - A Não-Vingança

Se Eastwood é o cineasta dos ajustes de contas, então Invictus é a antitese perfeita à sua longa e analítica cinematografia. A não-vingança emerge como tema central no que foi o motor da vida de um homem que não deixa de trazer como lastre os mesmos predicados dos habituais anti-heróis solitários da filmografia eastwoodiana. Com a pequena grande diferença de que este Homem, é bem real.

Solitário. Queremos imaginá-lo, como François Piennar, na solidão da sua diminuta cela. Mas não é necessário. Apesar da aura de grandeza que acompanha cada um dos seus gestos, a solidão acompanha-o através do olhar perdido no tempo que já o foi. É só um Homem mas a conjuntura força-o a tornar-se em algo bastante mais complexo: um lider. E como Eastwood sempre defendeu na sua longa obra, as circunstâncias fazem os homens. E os homens nunca são perfeitos. Este é-o, quase. Como dissemos, a antitese mágica de um percurso imaculado.

Há traços de Gran Torino, Letters from Iwo Jima, Million Dollar Baby, Unforgiven e, sobretudo, White Hunter, Black Heart em cada batida de Invictus. É um filme cumbre, uma súmula perfeita da evolução criativa do maior autor da cinematografica norte-americana. O homem tranquilo que filma o mundo com a calma com que deve ser encarado. Que nunca apressa um plano. Que nunca se rende à vertigem. Um cineasta de rostos - o de Mandela, arrebatador, o de Piennar, entusiasta - e de sentimentos. O cineasta do Homem por excelência. Se há algo em Invictus que acompanha o filme do principio ao fim, sob aquela pauta sonora tão tranquila como o movimento de camara, é a crença na não-vingança. Ao contrário da filmografia de Eastwood, onde todos os protagonistas são confrontados com o desejo de ajustar contas, aqui é precisamente a luta contra essa "justiça" que faz bombear o sangue de uma nação.

Invictus é, tecnicamente, um filme brilhante. Demonstra que o mágico autor dos quartos vazios e soturnos é também um cineasta de multidões. A forma como capta a emoção que tranvasa as bancadas dos estádios sul-africanos ou das gentes que enchem as ruas de Joanesburgo faz estremecer todo aquele que sabe, por experiência própria, o que é partilhar de um momento como aquele. Portugal viveu-o na pele, no último Europeu de Futebol. Com a diferença de que não havia um Herói para dar um final feliz a uma história de puro humanismo. Da mesma forma que Clint Eastwood consegue traduzir um dinamismo insuspeito aos jogos dos Springbooks, não perde o seu toque de génio quando somos forçados a confrontar-nos com a habitual solidão dos homens: a de Piennar no seu quarto de hotel, a tentar iludir os seus fantasmas. A de Mandela, nos seus passeios nocturnos, onde pode ser ele mesmo quando todos os outros dormem. É fácil resumir Invictus a um épico moral à volta de uma das figuras consensuais do último século. O papel histórico e moral de Mandela é fulcral para que a história que vai relatando o filme seja credivel. Todo o mundo que se move à sua volta tem o habitual traço clinteniano de justiça. Mandela não. Para ele a justiça tem de ser feita interiormente. E para ele a justiça tem dois lados. Sempre.

 

É verdade que o filme não é um projecto a la carte de Eastwood como foram as suas grandes-obras primas. Ideia de Morgan Freeman, que há largos anos sonhava dar forma a Nelson Mandela e à sua épica humana, Invictus é por isso um filme com traços de estúdio. Mas que se esbatem claramente à medida que os planos se vão sucedendo. Os grandes espaços e a pequenês do homem herdou-os Eastwood da sua fase-western. Desde então que tem vindo a maximizar o isolamente humano. Aqui aventurou-se na grandeza épica do Homem. E logrou-o. Morgan Freeman, como Mandela, é captivante como se esperaria que fosse. Uma personagem inimitável que se transforma em cada cena num verdadeiro pai espiritual. Num homem com dúvidas. Muitas. Mas com as certezas suficientes para dominar a sua própria alma. O rugby, as gentes, a equipa nacional, tudo isso são pretextos para ir-mos ficando cada vez mais atento à figura quase sobre-humana de um homem que muitos elegeram sem saber se seria capaz de governar. Não só governou. Guiou. E estabeleceu um novo padrão de moralidade num continente onde o ódio ainda grassa.

Invictus entra directamente na galeria das obras máximas do mais completo cineasta dos últimos 50 anos. Não é apenas um exercicio da solidão humana, mas também nela mergulha, à sua maneira. Vive no tempo e no espaço como a própria aura de Mandela, um homem que soube vencer porque antes de enfrentar os outros foi forçado a confrontar-se com ele mesmo. Como todos os fantasmas de Eastwood, o psicologo das almas perdidas.

 

Classificação -

 

Realizador - Clint Eastwood

Elenco - Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge

Productora - Warner Bros.

Classificação - m/12

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 08:48
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