Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Shutter Island - A mente é uma ilha traiçoeira

Nos primeiros segundos Martin Scorsese ganha o jogo. Não precisa de mais. Os primeiros vislumbres de Shutter Island deixam o espectador preso, irrequietamento tranquilo. Os ruidos de fundo são silenciados a cada gotejar de tensão. Sob uma banda sonora assustadoramente lugubre, embarcamos numa viagem que sabemos, já de antemão, que não tem regresso. Marty emula Hitch e apresenta aqui o seu particular Vertigo.

Lembrar Hitchcok é inevitavel a cada frame de Shutter Island. É verdade que o cineasta britânico é mais limpo. Não explora a violência com a selvagem naturalidade de Scorsese, maestro em sacar do interior da alma do Ser Humano o seu lado mais animalesco. Se os filmes do mestre do suspense eram isso mesmo, direccionados para o suspense, aqui é o temor que pauta o ritmo. O temor ao que nos podemos encontrar. A verdade, essa palavra tão forte, nunca paira sob o filme. Vivemos uma constante mentira, desde o primeiro olhar de Di Caprio, esse fabuloso actor que está para a geração contemporânea como esteve Brando para a geração de 50. Nos últimos 15 anos Leonardo Di Caprio transformou-se mil vezes e em todas elas soube prevalecer sob as suas próprias assombrações. Mas nunca foi tão fundo no seu desespero humano como nesta trepidante viagem à mente humana. Talvez Di Caprio seja o melhor reflexo desse olhar hitchcockiano de Shutter Island. Durante o filme arrasta-se como o "wrong man" que o inglês sempre explorou. Mas como o filme é de Martin Scorsese, a culpa ganha sempre uma particular dimensão. Uma trágica dimensão.

Lembrar obras do passado ao olhar para Shutter Island é entender que Scorsese não está a criar algo puramente genuino. Mas está a limar asperezas. Se o ritmo da narrativa e o suspense constante nos levam directamente a Vertigo, já o mundo sobrenatural que paira sobre a devastada ilha encaminha-nos para a porta de Shinning. O filme memorável de Stanley Kubrick é um hábil ensaio sobre a morte e a loucura. Os dois vectores desta narrativa. Assombrações ou alucinações? Mortes ou mentiras? Passado ou presente? Os pesadelos que vão emergindo Ted Daniels vão confrontando o espectador com várias verdades, vários sonhos, vários temores. E diluem-se sob essa partitura sonora arrepiante e essa montagem - mais um trabalho de mestre de Telma Schoomaker - absolutamente assombrosa. Daniels, esse US Marshall destacado para destapar uma conspiração, transforma-se na presa de um labirinto feito à sua medida. A verdade transforma-se em dúvida e todos aqueles que o deveriam ajudar tornam-se perigosos carrascos. No meio o instinto de sobrevivência muda o ritmo a cada alucinação em que entramos. A verdade? Palavra dificil.

Se Scorsese não assina com Shutter Island a sua obra máxima - como fizeram Hitchcock e Kubrick com Vertigo e Shinning - é porque a sua filmografia é de tal forma variada e notável que se torna dificil entrar por essa valoração. No entanto o ritmo que imprime à história abre passo a um fabuloso trabalho de direcção. E de interpretação. Di Caprio é assombro - como já o tinha sido em The Departed e Aviator, para só citar colaborações scorsesianoas - mas não está só. O seu fiel parceiro, Chuck, é um tenso mas seguríssimo Mark Ruffalo, enquanto que Ben KingsleyMax von Sydow, dois dos grandes maestros da interpretação à europeia, se transformam facilmente em nemésis fáceis de identificar. Num mundo de homens - como é sempre o universo de Scorsese - a pertrubação da mente é culpa das mulheres. É uma mulher a quem Teddy busca, é uma mulher quem o avisa dos perigos. E é uma que a assombra. Tanto Emily Mortimer, como Patricia Clarkson e, sobretudo, Michelle Williams tornam-se nesse trio de harpias letais que o encaminham para o fim.

Estreado em Fevereiro por uma polémica decisão da Paramount - que acreditava ter em The Lovely Bones um filme mais forte na corrida aos Óscares - Shutter Island já se tornou num fenomeno de bilhteira. É inequivocamente um filme brilhante, destinado a marcar o ano. E, mais do que isso, a pautar a própria carreira - em fase ascedente - de Di Caprio confirmando também que os quatro anos de pausa de Scorsese foram bem empregues. Shutter Island é uma obra-prima. Até ao último frame!

 

Classificação -

 

Realizador - Martin Scorsese

Elenco - Leonardo Di Caprio, Mark Ruffalo, Michelle Williams

Productora - Paramount

Classificação - m/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 12:28
Link do texto | Comentar | favorito
4 comentários:
De Roberto Simões a 23 de Fevereiro de 2010 às 17:14
Uff. Que crítica inspirada. Pelo que li, o filme é tudo aquilo aque tenho esperado :D De assombrado a mortinho para vê-lo, tenho que ir - decididamente e com urgência - para o cinema!
;D

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema (http://cineroad.blogspot.com/)


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Fevereiro de 2010 às 10:14
Viva Roberto,

O filme vale a pena, sem dúvida. Quando a qualidade supera a todos os níveis o esperado, podem sair criticas assim ;-) a culpa é do Scorsese, não minha.

um abraço


De manuel antonio a 12 de Junho de 2010 às 04:10
Acreditas que só o vi hoje? Acho que já nem durmo.
Ainda estou abismado. Não é facil, não é mesmo nada fácil fazer um filme destes. Aviator é história, Departed é americano. Mas a mente, o inigualável mundo da mente, é o mais próximo do desconhecido que qualquer um pode experienciar.

Lembro-me de ver o Memento e ficar a pensar que sim, que tinha ali qualquer coisa de bom, mas ao mesmo tempo de fácil, de clichet. Aqui não. Isto é soberbo. é científico, poético, escondido. Shutter Island, por muito que scorcese faça, vai ser pra mim o melhor dele.

Ouvir histórias de psiquiatria e pensar "isto dava um filme" é uma coisa. Agora, fazê-lo, torná-lo real e palpável, é de génio. O argumento é incrível, escrever isto é mindfucking, completamente. e vivê-lo, como o dicaprio fez, uau.

Enfim. Estou abismado. Shutter Island é mais que um filme. é uma liçao de vida, para que tenhamos sempre presente o poder que está "cá dentro". E como ainda estamos longe, muito longe de resolver o puzzle. Daqui a milénios, quando o fizermos, talvez saibamos realmente o que andamos a fazer aqui!

abraçao


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Junho de 2010 às 10:19
Manel,

Acho que é impossível a sair da sala sem sentir um soco no estomago e ter multiplas perguntas na mente de como não percebi isto ou como é que ele foi buscar aquilo. É um filme estruturado de forma perfeita com um Di Caprio monstruoso. Brutal!!!

abração


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

.Fundamental.

EnfoKada

.Janeiro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.Ultimas Reviews

Midnight in Paris -
The Ides of March -
A Dangerous Method -
Tinker Taylor Soldier Spy -
Drive -

.Classificação

Excelente-
Muito Bom-
Bom -
Aceitável-
Evitar-

.Pesquisa

 

.Ultimas Actualizações

. Por uma definição justa d...

. Oscarwatch - Melhor Filme...

. Oscarwatch - Melhor Argum...

. Oscarwatch - Melhor Actor...

. Oscarwatch - Melhor Actri...

.Do Autor

Em Jogo

.Categorias

. biografias

. cinema

. corpos...

. estreias

. festivais

. historia opinião

. mitos

. noticias

. obituario

. opinião

. oscares

. oscarwatch 2008

. oscarwatch 2009

. oscarwatch 2010

. oscarwatch 2011

. premios

. reviews

. rostos

. that´s the movies

. trailers

. todas as tags

.Blogs

35mm
7CineArt
A Gente Não Vê
A Última Sessão
Action Screen
Alternative Prision
Ante-Cinema
Antestreia
A Última Sessão
Avesso dos Ponteiros
Bela Lugosi is Dead
Blockbusters
Cantinho das Artes
Cine31
CineBlog
CineLover
CinemeuBlog
CineObservador
CineRoad
CineLotado
Cinema is My Life
Cinema Notebook
Cinema´s Challenge
Cinema Xunga
Cinematograficamente Falando
CinePT
Close Up
Cria o teu Avatar
Depois do Cinema
Dial P for Popcorn
Ecos Imprevistos
Estúpido Maestro
Febre 7 Arte
Final Cut
Grandes Planos
Gonn1000
Grand Temple
High Fidelity
In a Lonely Place
Jerry Hall Father
Keyser Soze´s Place
Maus da Fita
Movie Wagon
Mullolhand CineLog
My One Thousand Movies
My SenSeS
Noite Ameriana
Ordet
O Homem que Sabia Demasiado
O Sétimo Continente
Os Filmes da Gema
Pixel Hunt
Pocket Cinema
Portal do Cinema
Royale With Cheese
Split Screen
The Extraordinary Life of Steed
Um dia Fui ao Cinema
Voice Cinema



.Sites

c7nema
CineCartaz
Cine Estação
Cinema2000
Cinema-PT Gate
DVD Mania
DvD.pt
Em Cena
Lotação Esgotada
Cine História
Cinemateca Lisboa
Eu sou Cinéfilo
Portal Cinema

American Film Institute
British Film Institute
Cahiers du Cinema
Cinémathèque Francaise
Directors Guild of America
Internet Movie Database
Motion Picture Association
Screen Actors Guild
Screen Writers Guild
Sight and Sound
Telerama

Box Office Mojo
Coming Soon
Dark Horizons
Hollywood Reporter
JoBlo
Latino Review
Movie Poster

Premiere
Rope of Silicone
Rotten Tomatoes
Slash Film

Sun Times Chicago

Variety

.Premios e Festivais

Cesares
European Film Awards

Golden Globes
Goya

Oscares

Animation Film Fest
European Film Festival
Festival de Berlim
Festival de Cannes
Festival de S. Sebastian
Festival de Sundance
Festival de Veneza
Roma Film Festival
São Paulo Film Fest
Sitges Film Festival
Toronto Film Festival

Algarve Film Festival
Ao Norte!
Avanca
Black and White
Caminhos
Cinamina
Corta!
Curtas Vila do Conde
DOCLisboa
Fantasporto
FamaFest

Festroia

FIKE
Funchal Film Fest
Imago
Indie Lisboa
Ovar Video

.Oscarwatchers

And the Winner is...
Awards Daily
In Contention
Golden Derby
MCN Weeks
The Envelop
The Carpetbagger
Thompson on Hollywood

.Arquivos

. Janeiro 2013

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

.subscrever feeds