Terça-feira, 9 de Março de 2010

Bullock, os extremos hollywodianos

Em 24 horas Sandra Bullock soube o que era sentir-se a pior e a melhor entre os pares. Um fenómeno pouco habitual mas que não é nada estranho para quem sabe que Los Angeles é uma vibora adormecida para tudo e todos. Ao vencer o Razzie foi irónica. Ao ganhar o Óscar foi elegante. Sempre entendendo que a glória efémera de um Óscar faz mais sentido quando o prémio é por gratidão.

Os que se queixam do triunfo de Sandra Bullock na passada noite dos Óscares têm memória curta. Habitualmente é assim com todos os criticos, aqueles que ainda acreditam que os prémios da Academia ainda são para os melhores. Não são. Nunca o foram. Há vários vectores que se buscam para encontrar o vencedor idóneo. Muitas vezes um grande desempenho, um grande trabalho técnico são suficientes. A maioria das vezes não. É preciso algo mais. Uns chamam-lhe marketing, tráfico de influências. Outros, uma questão de amizade e gratidão. É fácil perceber a diferença. Quando alguém é genuinamente apreciado, a plateia aplaude de pé. Quando não, limita-se a aplaudir. Ou nem isso. Bullock recebeu uma das grandes ovações da década. A mesma que Reese Whiterspoon, Charlize Theron, Nicole Kidman, Julia Roberts, Gwyneth Paltrow ou Helen Hunt. Nenhuma delas deu a melhor performance do seu ano. Nenhuma delas é uma grande actriz. Algumas até sabem que são limitadas no seu género especifico. Mas sabem ser graciosas ao erguer a estatueta dourada. E perceber o porquê de estarem ali. E que não tem nada a ver com a qualidade do seu trabalho.

 

Ao contrário da secção masculina, onde a concorrência é sempre gigantesca (também há muitos mais papeis para homens do que para mulheres), é fácil ver o historial feminino e descobrir multiplas ganhadoras e nomes que muitos nunca suspeitavam aparecer em listas onde é suposto serem os "melhores". Hilary Swank, Glenda Jackson ou Jodie Foster têm dois. Marlene Matlin, Kathy Bates, Jessica Tandy, Barbra Streisend ou Halle Berry têm um. E no meio disto "gigantes" da interpretação como Meryl Streep contam com um, ou valores já consagrados do nível de Julianne Moore e Cate Blanchet andam de mãos vazias. E eis que surge Sandra Bullock como uma "Academy Award Winner".

Bullock é uma autêntica crowd pleaser. Desde sempre. Desde os dias de Speed. Especializou-se em comédias e aí se manteve, cómoda, durante duas décadas. É uma das actrizes mais rentáveis e das mais populares junto dos colegas de profissão. Não desperta queixas ou anti-corpos. E isso é fulcral quando surge um papel como The Blind Side. O filme toca na América profunda (questões raciais, defesa do cristianismo conservador, futebol americano, white trash families, ...) e será sempre incompreendido fora dela. Circunstâncias impossiveis de entender mas que explicam que os Óscares são, acima de tudo, um prémio da indústria norte-americana para os norte-americanos. Não é Cannes a tentar agradar ao Mundo. É Hollywood a olhar-se para o espelho sorrindo.

 

No mesmo dia os Razzie tiveram a crueza de dar a Bullock o prémio à pior actriz de 2009 por All About Steve. Uma decisão oportunistas porque sabiam que o mediatismo da escolha seria altissimo, visto que a actriz era a favorita para a noite dos Óscares. Ao contrário de muitos, Bullock foi receber o prémio. E foi correcta porque sabe que a indústria é assim, de altos e baixos. Mas também foi cinica. Como merecem prémios tristes como aqueles que procuram os piores. Porque definir o melhor é algo impossível, mas a busca da excelência é sempre meritória. Melhor. Um conceito abstracto e pessoal como poucos. Foi Bullock a melhor? Para os seus admiradores, claro. Para os que não gostam dela, nunca. Para os fãs de Sidibe, Streep, Mirren e Mulligan, não. Mas ganhou. Porque nunca ganha a melhor. É impossível que ganhe a melhor. Pode ganhar a "nossa" melhor. E ficamos felizes. Pode ganhar a "melhor" para a maioria. Mas isso não faz dela a melhor. É assim a vida. É assim o cinema. É assim Hollywood. É assim a história que se repete.

O cachet de Sandra Bullock subirá. Os seus filmes futuros poderão apresentá-las nos trailers como uma "Academy Award Winner". E ao longo da história o seu nome lá estará, onde nunca estiveram os de Garbo e Grant, O´Toole e Burton. And that´s show bizz

 


Autor Miguel Lourenço Pereira às 12:15
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3 comentários:
De Luís V a 11 de Março de 2010 às 21:56
Muito bom este artigo de opinião.
Infelizmente Hollywood sempre foi assim e sempre o será. Mas se assim não fosse será que o amávamos tanto?


De jonasnuts a 11 de Março de 2010 às 22:18
Este post está em destaque na Homepage do SAPO, tab "Cinema".


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Março de 2010 às 08:23
Jonasnuts,

Obrigado pela referência.

Luis,

Efectivamente, as pessoas idealizam e pessoalizam Hollywood. Esquecem-se sempre que é uma indústria bastante fechada e que tem regras próprias que o resto do Mundo não entende. Mulheres como Bullock serão sempre premiáveis porque significam muito para a indústria. Os criticos e os mais acérrimos defensores do "cinema de qualidade" pura e simplesmente nunca o entenderão. Mas essa também é a magia dos Óscares.

um abraço


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