Sábado, 3 de Julho de 2010

O erotismo francês do rosto filmado

Num continente lacrado pelo excesso de puritanismo de um lado e o conservadorismo religioso do outro, França sempre exerceu o fenomeno de farol laicista e contra-corrente nos costumes e na mentalidade. Transportado para o cinema, essa realidade de superioridade moral face aos espartilhos dos demais transformou o cinema francês num constante exercicio de provocação. E nenhuma chegou tão longe como a endémica erotização do olhar feminino na imensa e infinita filmografia gaulesa.

 

Hoje, como ontem, importa pouco ou filme ou até mesmo a actriz. Em França há uma cultura moral que se rasgou das paredes dos bas-fonds parisinos e que atravessou a provincia sem receios ou mutações. O olhar picaro das meninas da deserta Cote D´Azur, quando ainda não era o centro preferido da elite para viajar (por essa época era Biarritz e o Atlânico o ponto de encontro da aute societé parisen) é o mesmo das mademoiselles que descem, despreocupadas, os Champs Elysés num dia cinzento. O cinema gaulês é erótico por natureza, em forma e conteudo. É um cinema despojado de adereços, de noites americanas falsas. É um cinema verdadeiro, profundamente introspectivo, necessariamente contemplativo. Encarna todas as caracteristica de um povo que existe para lá de si mesmo, numa desmultiplicação inevitável. O francês existe como lingua falada e pensada, como acto e consequência. O seu cinema, como contemplação da eterna dúvida. O olhar, a porta para essa realidade.

Desde os imemoriais dias de Gance que as actrizes franceses desafiam o mundo com o seu olhar. Dizem tudo e recusam-se a dizer o que quer que seja. Calam com as palavras o que exprimem com o rosto. O que desenham sem papel com o olhar. Hoje, oitenta anos depois, é o mesmo. É um exercicio de existencialismo sexual que exprime o máximo de cada rendez-vous, como se o Mundo se precipitasse para o seu final.

 

De Sophie Marceau, sublime como nunca em Anthony Zimmer ou La Fidelité, à impertinência de Emmanuelle Béart de La Belle Noiuseuse ou Nathalie, é forçoso entrar num mundo de erotismo consentido. Não há, na actriz francesa, a politica do sexo estampado no rosto como sucede no universo anglo-saxónico.

Se nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanhã o sexo, que não o erótico, é vendido em pré-cozinhado, com actrizes falsificadas desde a sua genese, no corpo, na voz, no cabelo, na pose, no que está a mais e no que sempre fica de menos, com o pudor eterno de mostrar sem revelar, de sugerir com um decote o que nunca se pode ver a olho nu, o cinema francês responde com a crueldade da realidade. Dos excessos, do peso da idade, da necessidade de demonstrar o quão humano é o olhar e o corpo de uma mulher, de alguém que podia estar a cruzar a rua com um sobretudo enganador, incapaz de se vender à beira de um casino de Las Vegas com um grito de desespero. A escola da beleza de rua remonta-se aos próprios dias do glamour gaulês do pré-guerra. Com os anos 50 criou-se o mito femino etéreo chamado BB mas rapidamente o cinema gaulês respondeu com o olhar de Jeanne Moreau ou Anna Karina, senhores de uma conversa de café do Quartier Latin incapazes de esconder que são mulheres sem terem de o exibir com o ritmo quente do jazz que rasga Et Dieu Crea la Femme. Com a geração da Nouvelle Vague reforça-se essa necessidade de erotizar o rosto tal como o corpo, de exibir o que todos escondiam. O despudor ganha forma à medida que a actriz ganha impacto. Não há nenhuma filmografia no Mundo tão feminina como a gaulesa. A lista de actrizes de primeiro nivel supera a dos parceiros masculinos nas últimas décadas. O cinema francês é uma mulher. Preparado para ser seduzido, mas sem ser a qualquer custo. É o cinema dedicado à contemplação, à descoberta. A acção é interior. Introspectivo. Por detrás de um corpo nu, despudorado, há todo um pudor em existir. Não há show off. Apenas a natureza humana. Se Deus existisse, provavelmente seria mulher...

 

Bardot, Deneuve, Moreau, Karina, Ardant, Adjani, Sanda, Birkin, Huppert, Binoche, Marceau, Beart, Casta, Delpy, De France, Darrieux, Tatou, Ledoyen, Green, Saigner, Gainsbourg, Cottilard, são o olhar. São o rosto. São o corpo. São a magia e sedução de um cinema diferente. O erotismo da sua essência ressalta na sua naturalidade. Não são o producto para consumo de massas norte-americano. O particular requinte de cada plano do seu rosto eterniza-as na memória. Se o sexo fosse cinema, seria francês. Se o francês fosse erotismo, seria qualquer uma delas. A lista não tem. Mais do que estar-lhes no sangue, está-lhes no rosto... 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 16:00
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3 comentários:
De ghd straightener a 8 de Julho de 2010 às 09:28
articular requinte de cada plano do seu rosto eterniza-as na memória. Se o sexo fosse cinema, seria francês. Se o francês fosse erotismo, ser


De links of london a 8 de Julho de 2010 às 09:29
ente. O erotismo da sua essência ressalta na sua naturalidade. Não são o producto para consumo de massas norte-americano. O partic


De pandora a 8 de Julho de 2010 às 09:30
Se o sexo fosse cinema, seria francês. Se o francês fosse erotismo, seria qualq


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