Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

Inception - A eterna angústia do sonho

A perda da memória, o poder da ilusão e as entranhas do medo. Christopher Nolan consagrou-se há muito como o realizador mais introspectivo do cinema contemporâneo, um verdadeiro estudioso das maleitas internas que perturbam a tranquilidade do irrequieto Ser Humano. Inception assume-se como um passo mais além, na vertiginosa dimensão onírica, para um realizador que não conhece limites...

A dúvida assalta cada frame de cada filme de Nolan. É o grande mérito do realizador britânico, mais próximo do cinema psicológico de Fritz Lang e do suspense de Alfred Hitchcock que qualquer outro. Uma dúvida que o segundo final eternizará na mente do espectador. Em Inception só há perguntas. Nunca temos as respostas. Pelo menos, as previsiveis.

O filme deambula genialmente entre o delirio e o hiper-realismo, num mundo onde os sonhos são os protagonistas, a verdadeira realidade dentro da realidade. A ponto de se instalar a dúvida. É melhor viver sonhando ou fazer do sonho uma vida? Num mundo oprimido até à medula, não é o sonho a última liberdade que nos resta para romper todas as barreiras possiveis e imaginárias?

Nolan não quer ser moralista, crime em que a maioria dos cineastas recai com alguma regularidade. A sua resposta não é, forçosamente, a do público. É demasiado pessoal para isso. Mas as portas estão lá, convidativas, a uma invasão de um sentimento profundo que cai nos abismos da incerteza. Onde encontramos pela primeira vez Cobb. E onde talvez, só talvez, nos despedimos igualmente dele. Um abismo onde é preciso algo que nos oriente, uma bussula interna, para não cair no delirio interno. No limbo final.

 

Com efeitos especiais espantosos - algo que a saga Batman já tinha anunciado e que detecta no autor inglês um gosto particular pelo grandiloquente, com um toque súbtil de classe exímio - e um ritmo frenético, Inception é um filme de outra dimensão. Corre paralelamente ao ano cinematográfico em que vive. Como Hitchcock no passado, Nolan não vive o cinema da sua época. Está num mundo à parte, um mundo em que ele molda as regras. Foi assim no seu arranque, com o perturbador Memento e prolongou-se até hoje. Essa realidade alternativa que é a de Inception é também a prova de que o cineasta joga com outras regras. Uma realidade perturbadora para o establishment (que já por isso fez ouvidos moucos ao sucesso do genial The Dark Knight) e que o define por completo. Um verdadeiro arquitecto.

Como Cobb, o ladrão de sonhos incapaz de sonhar que antes tinha sido o brilhante arquitecto de uma realidade tão sua. Agora, afastado de tudo o que realmente necessita, Cobb vive nesse limbo eterno. A proposta irrecusável de um feito jamais logrado é a única coisa que o prende ainda ao pouco que lhe resta da realidade. A sua equipa, ajudada por uma irreverente nova arquitecta, prepara-se para segui-lo até ao fim do mundo, até ao fim da própria realidade. Mas à medida que os sonhos se formam e desmembram, cada um vai percebendo o quão perigosa pode ser uma aventura nos confins da mente humana. Desmembrar a narrativa de um filme tão inexperado é um fraco favor a quem ainda se pode deixar surpreender pelo ritmo avassalador que nos leva, de etapa em etapa, de realidade em realidade. De vida em vida. Mas essa descida aos infernos (não será o limbo a pior das mortes?) é também uma viagem de redenção que nos aumenta o ritmo cardíaco a cada revés que se cruza pelo caminho destes invulgares assaltantes.

 

Dentro da genialidade pura e inimitável que é Inception, está todo o processo criativo de Nolan que arranca no guião (que demorou dez anos a concluir) até à escolha da banda sonora (inimitável) e do magnifico elenco que dá forma à aventura de Cobb. 

Leonardo Di Caprio, pela enésima vez na sua carreira, demonstra ser uma vez mais, um actor superlativo. Inimitável. Provavelmente, o maior actor da actualidade. Em Inception vemos James Stewart em cada frame, naquele rosto de angustia e desespero, um reflexo de Vertigo e Naked Spurs, um homem acossado pela dúvida, pelo lado negro da sua alma, pela culpa. Um tour de force que entra directamente para a galeria dos grandes desempenhos da década (a par do seu notável arranque de ano em Shutter Island) e que transforma o idolo adolescente de Titanic (já não tinha brilhado antes em Who´s Eating Gilbert Grape?) num verdadeiro monstro em cena, capaz de levar às costas o peso de um filme com a complexidade de um cubo de Rubik.

Mas, apanágio de Nolan, o maestro de cerimónias não está só. O elenco secundário que pauta o ritmo do filme não falha, em nenhuma instância, e garante um espectáculo de primeiro nível do arranque ao final. Da frieza de Ken Watanabe (outro que, tal como o sempre sereno Michael Caine, repete com o realizador) à maturidade artistica definitiva da dupla Cilian Murhphy e Joseph Gordon-Levitt, dois dos actores com maior margem de progressão da actual geração, é impensável não analisar igualmente Inception como um verdadeiro filme de actores. E, principalmente, de actrizes. Se a galeria dos nomes masculinos é ilustre e imaculada, Nolan ganha a partida ao contar com as duas melhores actrizes da actual geração na máxima expressão da sua imensidão. Do olhar sério e imaculadamente juvenil de Ellen Page, cada vez mais completa, cada vez mais incandescente, à explosão sexual que emana do olhar de Marion Cottillard, (a francesa é um caso raro de união entre o génio interpretativo e um arrebatador perfume sexual) Inception é também um filme de mulheres. Que pairam sobre todo o filme, que descobrem a solução, o veneno e o antidoto de um mundo que se desdobra, de uma realidade que se transmuta. Como tudo na vida, também aqui (inevitavelmente aqui) elas pautam o ritmo, assombram e despertam do feitiço, o sempre frágil Homem.

Inception não entra apenas na galeria das obras máximas da década. É um filme com vida própria, que não encontra qualquer ponto de comparação com a filmografia contemporânea. O génio de The Dark Knight insere-se no universo comic pós-apocalitpico, enquanto que Memento é uma dissertação sobre a fragilidade do ser. The Prestige, talvez o mais irreverente de todos, é uma tour de force seca e surpreendente. Mas em Inception há sempre algo mais. Há sempre um rastilho de eternidade que mergulha no sono e desperta no sonho, no recôndito perdido da mente humana onde a liberdade une os eternamente separados, onde a vida e a morte deixam de fazer sentido. Onde todos, no fundo, queriamos poder viver em paz.

 

Classificação -

 

Realizador - Christopher Nolan

Elenco - Leonardo Di Caprio, Marion Cottillard, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt

Productora - Warner Bros.

Classificação - m/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 10:38
Link do texto | Comentar | favorito
2 comentários:
De Cristina Pereira a 26 de Agosto de 2010 às 15:03
Onde todos, no fundo, queriamos poder sonhar em paz e decidir se seguir o "empurrao" ou nao...
Excelente... as always


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Agosto de 2010 às 15:11
Melhor que isso só mesmo a eterna homenagem à gigante Marion. Afinal, quem de nós não lhe apetece dizer "non, je ne regret de riens" quando mergulhamos no mundo dos sonhos...


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