Terça-feira, 5 de Outubro de 2010

Fato de banho branco paixão...

O Cinema sobrevive ao desgaste do tempo porque se baseia em sentimentos. Os criticos e especialistas podem debater a metafísica da misé en scene, a subjectividade do suposto e a objectividade do relativo. Mas sem a garra de um sentimento por detrás, um Filme é um ente vazio. E todos os que nele habitam. Amor, repulso, admiração, ódio, desprezo, indiferença, inspiração, paixão...

 

 

Poucos seres entenderam o poder da paixão no cinema como Tennesse Williams. Ele que não vivia para o cinema, mas que o entendia totalmente. As suas obras teatrais marcaram a cena cinematográfico durante quase vinte anos com um vigor indecoroso para a época. E Williams percebia de paixão. Em forma de fato de banho branco...cor paixão. Um fato de banho nu, pelo menos tão nu quanto o código Hayes à época permitia. A transparência dos sentidos vale mais que a transparência do corpo e não é(era) preciso ver os pelos púbicos e os mamilos claros para ver toda a nudez ali reflectida. Subitamente, no Verão passado, Catherine Holly sentiu-se nua. Naquele fato de banho branco. E todo o Mundo o sentiu também. Viu-a despojada da inocência, por muito branca que estivesse ao sair daquelas águas. Catherine Holly já não era um ser virginal. Era um pedaço de carne, cobiçado a peso de ouro. E Williams sabia-o. Mais do que ninguém, Williams sabia a quanto se quotizava a carne. E nenhuma valia mais que a de Elizabeth Taylor. A mulher que apaixonou o cinema e fez os demais apaixonarem-se por aquele fato de banho. Branco claro, tudo aquilo que ela não era.

 

Se o cinema é paixão, para os homens as actrizes têm sempre um lugar especial. Taylor encontrou-o desde jovem em que já lhe via maneiras de estrela nas correrias que fazia ao lado de Lassie. Durante dez anos Elizabeth Taylor vendeu inocência. A mesma inocência juvenil que fez dela a noiva filha do pai Spencer Tracy e a perdição de Montgomery Clift em A Place in the Sun. Uma inocência virginal que perdeu sentido quando a sua vida se cruzou com o mercador Williams. Feito à sua medida, Maggie the Cat rasgou o passado da pequena Liz e moldou as formas da mulher Taylor. Os vestidos feitos à medida para evidenciar o busto moreno da recente mãe que competia com a horda de loiras que invadia Hollywood e a sexualidade transbordante de cada súplica ao homossexual Rick eram talvez demais para a época. Taylor era demais para a época onde o insinuar era o máximo que se podia fazer. Sem mostrar nada, sem dizer nada, os olhos violeta e a boca carnenta faziam muito mais do que insinuar. A virgem tornou-se a predadora. No ecrã e fora dele. Suddenly, Last Summer significou a terceira nomeação consecutiva ao Óscar. O establishment estava tão apaixonado por ela como o público em geral e os homens em particular. Tanto que a comoção pública que a amparou depois da morte do seu promissor marido, o productor Michael Todd, e da sua quase fatal pneumonia fizeram o que o seu talento não logrou. Em 1960 bateu a sua grande amiga Shirley McLaine pelo menor Butterfield 8. Estava consagrada a estrela, a mulher e a actriz. Não havia dúvidas, Liz Taylor era então “o” cinema.

 

Feito à sua medida Cleopatra quebrou os três anos de hiato em que Taylor se decidiu a converter numa estrela.

A auto-destruição (e morte) de Marilyn Monroe faziam dela o icone sexual de Hollywood por definitivo. Era o triunfo das morenas de curvas recheadas. Da viuva negra, capaz de dormir com qualquer actor para não se deitar só, mesmo que fosse o marido de uma das suas melhores amigas. Mas também a dor da amizade de uma actriz que era também um dos caracteres mais fortes do devasso mundo do cinema de então. Virgem até ao matrimónio (segundo ela), salvou-se de se envolver com os actores com quem contracenou porque ou eram homossexuais (Monty Clift, James Dean, Rock Hudson, todos amigos dedicados que encontraram nela o refúgio à sua condição) ou já tinham “dona” (lá se diz como Woodward tinha Newman sobre olho nas rodagens de Cat...). Até que chegou um galês conhecido pelos seus modos shakesperianos e a sua adicção ao alcool e ao amor próprio. Com Richard Burton misturou-se o cocktail fatal. Cleopatra tornou-se na misturadora da bebida que electrizou o Mundo. Odiaram-se e amaram-se automaticamente e desde o primeiro suspiro. Os gritos de êxtase de ambos eram ouvidos por toda a equipa de filmagem, noite após noite. Filmagens atrasadas, estreia megalómana, Liz perfeita. O seu banho, tão nu e transparante como o fato de banho branco, rompeu corações. O seu desfez-se pouco depois. Com a sua meteórica carreira. Durante três anos dedicou-se a destroçar a figura que fizera dela a moderna Afrodite. Alcool, drogas e paixão num longo suicídio que culminou no duplo homicidio matrimonial que é o imenso Who´s Affraid Virgina Wolf? Não se fazem hoje papéis assim para mulheres. Nunca mais se fez um papel assim para Liz. Mais do que os Óscares, o filme significou o fim. Do casamento (que acabou e recomeçou aos soluços), da carreira, da figura.

Durante os dez anos seguintes a actriz perdeu significado. As curvas foram dando passo precoce à evolução do tempo e as rugas e operações plásticas remendadas destroçaram a outrara grande diva que no entanto nunca perdeu o apetite ninfómano que a celebrizou. Taylor abandonou e abandonou-se, perdida talvez hoje ainda em horas de solidão a olhar-se ao espelho à espera de se ver reflectida, nua, despojada de tudo, naquele fato de banho branco que a fez eterna...


Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:03
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2 comentários:
De Cristina Pereira a 6 de Outubro de 2010 às 15:47
Wonderful...


De Miguel Lourenço Pereira a 6 de Outubro de 2010 às 16:48
O quê? O artigo, a Liz ou o fato de banho branco... :-p


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