Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

The Duke

Durante anos foi o icone perfeito do cinema clássico norte-americano. E também o actor mais desprezado pela critica e mais adorado pelo público. Um contra-senso tipicamente hollywoodesco que ajudou a criar uma aura de mito à volta do homem que confessou que arrastava a voz em cada deixa para garantir que não lhe cortavam a cena demasiado cedo. Afinal, Marion Morrison precisou de 80 filmes até se tornar em John Wayne.

Cavalgava com a mesma destreza com que se desviava dos adversários nos relvados onde se converteu uma estrela do futebol americano do final dos anos 20. Nunca gostou de usar duplos porque os seus dias de futebolista tinham-lhe ensinado a aguentar as quedas. Nessa altura Marion Mitchell já gostava que lhe chamassem Duke em vez de Marion. A razão? Era o nome do seu cão de estimação, um enorme terrier que o seguia para todos os lados. Especialmente para as sessões que ia ver regularmente ao cinema mais perto da casa dos seus pais, onde seguia apaixonado as aventuras de Tom Mix. O cowboy por excelência do cinema mudo tornou-se no idolo do jovem universitário. Quando uma lesão o afastou da equipa, a Universidade livrou-se dele. Não havia dinheiro para tudo e o cinema surgiu, por necessidade, como a mais óbvia das escolhas. Aí conheceu Mix que simpatizou com o jovem de 20 anos e deu-lhe um trabalho a carregar adereços. Um dia tropeçou com uma caixa e provocou a ira do realizador do estúdio. Depois da explosão do momento, os dois falaram e tornaram-se bons amigos. O realizador chamava-se John Ford. A dupla tornar-se-ia parte de uma longa lenda que moldou o formato do western, o género americano que Ford desenhou e produziu com exactidão e que Wayne, com os seus gestos claros e voz segura, deu uma dimensão bigger than life. Wayne sabia que a vida em Hollywood era dificil. Sempre foi um trabalhador nato. Fazia sete filmes ao ano, muitos deles com um salário miserável. Mas gostava de trabalhar. Foi Raoul Walsh, outro dos gigantes com quem pontualmente trabalhou (tal como com Howard Hawks, que fez dele o paradigma perfeito do "camarada" nas suas longas gestas humanas que arrancaram em Red River e finalizaram em Rio Lobo), quem decidiu mudar-lhe o nome. Duke parecia-lhe de rafeiro, Wayne de estrela. Decidiu-se entre John e Anthony para nome. Ganhou o primeiro, ganhou o cinema. Marion nem teve voto na matéria. Já não pertencia a si mesmo.
 
Quando na noite de 7 de Abril de 1970 subiu ao palco do Dorothy Chandler Pavillion para recolher o seu Óscar, muito tinha passado daqueles dias de frenéticas filmagens de duas semanas. Velho, cansado e com um cancro que o minava, lentamente por dentro, John Wayne era outro. Já não pertencia a si mesmo. Fazia parte de uma herança mitologica que definia a época dourada do cinema de um país que levava nas entranhas homens como ele. Wayne surgiu como o arquétipo americano, o do sonho, o da ilusão, o dos mitos. Qual Ulisses viajou até poder chegar a casa em The Searchers. Bateram-lhe com a porta, a odisseia americana não tinha lugar para ele. Foi Aquiles, Teseu, Perseu e Hércules. Tudo para um Homero de pala no olho e espirito atento, capaz de captar o uivar de um país ainda em tenra idade. O John Wayne que subiu ao palco para recolher o seu Óscar era a instituição. O prémio, entregue por um papel menor em True Grit, homenageava o homem que então despertava a ira dos criticos e do público, que viam nele a pesadez de uma instituição prestes a ser abolida. No ano em que Hollywood se rendia à Nova Escola, a Midnight Cowboy, o eterno pistoleiro do oeste, o eterno capitão do regimento, tinha o seu prémio. Era o final de uma era. Wayne foi, em si, toda uma era.


Duke precisou de 80 filmes para ser quem foi naquela noite.

Quando John Ford, finalmente, depois de dez anos de amizade, decidiu escalar Wayne como protagonista de um dos seus filmes, parecia fazê-lo menos por convicção e mais por necessidade. E no entanto, Ringo Kid, o forajido que salva a caravana perdida em Stagecoach, era o mais perfeito dos anti-heróis americanos. Oitenta filmes depois de arrancar, o icone começava a moldar-se. O duro de bom coração, de voz arrastada e timbre rouco, rápido com a pistola e com o chapéu, ganhava outra dimensão. Ao contrário de Mix, Autry, Cooper, Fonda ou outros heróis do velho oeste, o sucesso de Wayne nos westerns define-se pela sua própria capacidade em metamorfosear-se e moldar-se a cada etapa da viagem. Foi jovem quando velho em The Man Who Shot Liberty Valance e velho enquanto novo, sentado ao lado da campa da sua eterna amada, no inesquecível She Whore A Yellow Ribbon. Deu outro sentido à mitologia da cavalaria yankee com Forte Apache, The Horse Soldiers e Rio Grande desprezou-a como sulista renegado no épico americano por excelência, The Searchers. Com Ford fez mais de 20 filmes, onde se incluem os seus únicos riscos para lá do Velho Oeste e dos palcos de guerra. Foi o irlandês apaixonado em The Quiet Man e o militar perfeito em The Wings of Eagles, ambos com a deslumbrante ruiva Maureen O´Hara, talvez a sua mais perfeita co-star (e teve muitas) e definitivamente a sua melhor amiga. Homem de valores raros, rejeitou projectos milionários por convições politicas e por despeito, lembrando-se de como era tratado por alguns estúdios quando Marion ainda não era John. Por isso tinha o respeito de todos e o amor de poucos. Algo com que viveu até ao fim. Tentado a candidatar-se a presidente, respondeu que os americanos nunca votariam num actor para um cargo tão respeitável por muito popular que fosse. Não viveu para ver o seu amigo Ronald Reagan, um dos elementos que ajudou a promover dentro da estrutura republicana, onde tinha uma imensa influência, contrariar a sua previsão.

Naquela noite dourada Wayne pensou que seria o fim. Não o foi. A vida deu-lhe tempo para arriscar algo mais e em lugar de parar, Wayne tornou-se mais activo ainda. A sua eterna despedida foi duplamente simbólica. Em The Shootist, arriscadamente um dos seus mais belos papeis, contracenou com os velhos amigos James Stewart e Lauren Bacall. E com a própria vida. Despediu-se do cinema como do Mundo, de cabeça alta, esporas nos pés e um leve sorriso no canto direito da boca. Sabia que nunca morreria, que a vida já o tinha tornado eterno. Marion Mitchell faleceu a 11 de Junho de 1979. John Wayne viverá para sempre. Morrerá com o Cinema, e "That'll be the day!"..."


Autor Miguel Lourenço Pereira às 11:14
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2 comentários:
De Dezito a 8 de Outubro de 2010 às 18:04
Um homem amado e odiado. Mas ninguém ficava indiferente. Uma lenda da golden age.

http://febre7arte.blogspot.com/

abç


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Outubro de 2010 às 09:04
Viva Dezito,

Uma verdadeira lenda que começa a ser paulatinamente descoberta por aqueles que ligam menos à ideologia do homem e mais à qualidade do actor.

um abraço


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