Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

A mulher do quadro

Apaixonei-me pela primeira vez por Gene Tierney aos 12 anos. Apaixonar-me-ia outras vezes. Mas aquela vez, reflectida num quadro imponente que deixa Dana Andrews estatelado pelo amor a uma mulher morta será sempre algo inesquecível. Não teve uma grande carreira, nem mesmo uma grande vida. Mas o olhar misterioso de uma das actrizes mais misteriosas dos anos 40 continua a ecoar em cada retrato gigante com que me cruzo...

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que vi Laura. Como Dana Andrews, o inspector McPherson, vi-a num quadro. Morta. Para todos, menos para ela.

Nesse maravilhoso filme noir assinado por Otto Preminger o fácil é apaixonar-se pela frágil Tierney. O dificil é entender a expressão ténue que a acompanha, qual vulto inevitável de um fim macabro e sem retorno. Descobri mais tarde que outros se tinham apaixonado por Gene Tierney antes. Mas aquele momento era o meu. E sê-lo-ia sempre. Também eu me tinha apaixonado por uma mulher morta. Há cinco anos na vida real. 71 depois de ter nascido. 45 depois do inesquecível filme que a catapultou como uma das máximas estrelas da Hollywood do pós-guerra. A sua beleza etérea colocava-a ao lado de Ingrid Bergman, Barbara Stanwyck e Jennifer Jones no topo da preferência do público masculino. Até as mulheres tinham uma natural inveja da jovem do Bronx de 24 anos. Tierney representava - ainda representa - os traços da mulher fatal com ar inocente da década por excelência do cinema noir. Dez anos antes teria sido dispensada por ser demasiado intensa. Dez anos depois perderia importância porque lhe faltavam as curvas e sexualidade exigida à nova vaga. O seu tempo era aquele. Sem tirar nem por.

A obsessão de Dana Andrews era inevitável da mesma forma que Anatole Litvak, o cineasta checo que a descobriu como apenas 17 anos, foi incapaz de resistir ao olhar da rapariguinha nova-iorquina de férias na costa dourada. Foi o primeiro flirt com Hollywood. A tentação foi superada e a jovem ingressou no mundo da Broadway com o inusitado apoio familiar.

 

A revista Variety classificou-a como a mais bela actriz do teatro norte-americano na sua primeira performance.

O seu pai, um banqueiro endinheirado, aceitou as súplicas da filha e decidiu financiar a sua carreira. Menina do papá, como sempre fora, Tierney resistiu à sedução de Howard Hughes, que ficou obcecado pela sua beleza, e perdeu o peso exigido pela Fox (estavamos numa época de actrizes com poucas curvas) para contracenar com uma jovem estrela em ascensão, Henry Fonda. O filme foi The Return of Frank James, um western de Fritz Lang que passou relativamente desapercebido, mais até do que Tobacco Road e Belle Star, as suas duas seguintes incursões. Só em 1943, já com o espirito da guerra a desvanecer-se, que surgiu o lado mais explosivo e apaixonante da jovem actriz. O mundo apaixonou-se por ela - eu não - com Heaven Can Wait. Ao lado de Don Ameche sofreu as agruras de ser dirigida por Ernst Lubitsch, outro que se apaixonou por ela perdidamente - como o Van Peebles da história - e que acabou por se tornar num dos seus mais fieis amigos e seguidores. O sucesso comercial do filme do célebre cineasta germânico abriu-lhe as portas de Laura e com ele chegou a eternidade da mulher no quadro.

O seu ar de femme fatale hipnotizou alguns mas convenceu poucos. Tierney parecia demasiado débil para ter a capacidade de matar como evidenciava Barbara Stanwyck no electrizante Double Indemnity. Para esses chegou a resposta no tenso melodrama Leave Her to Heaven onde a actriz se metamorfoseava totalmente para encarnar numa mulher ciumenta e obsessiva capaz de matar para conseguir o amor incondicional do homem com quem casava. O filme foi um sucesso (o maior da sua carreira e da Fox em toda a década de 40) e valeu-lhe a primeira nomeação ao Óscar. Perdeu, mas ganhou o respeito de todos. Era mais do que uma cara bonita.

O resto da década passou-a entre pastilhas para dormir, relações tormentosas (teve um caso com Spencer Tracy quando este era casado e por sua vez vivia com a sua amante de facto, Kate Hepburn e outro com JF Kennedy que a abandonou por Jacqueline Onassis por exigência do pai) e desempenhos excelentes como o de Razor´s Edge (como não apaixonar-se aí), The Ghost and Mrs Muir (até um fantasma como Rex Harrison é incapaz de lhe resistir) e Night and Day. No entanto estava, sem o saber, mais perto do fim do que do principio. A erupção da escola Actor´s Studio em Hollywood trouxe outro modelo de actores à ribalta e os productores preferiam as mais carnentas e sexualmente tensas actrizes da escola do método do que a fria e serena Tierney e a sua geração.

Os problemas mentais que irromperam com o nascimento da filha, surda, cega e com problemas mentais devido ao facto de Tierney ter contraído rubeola durante a gravidez pelo contacto com uma fã doente, começaram a deixar mossa. Foi substituida por Grace Kelly em Mogambo. Foi o passar de um testemunho para uma actriz que lhe chegou a parecer em muitos aspectos. Tierney esteve perto de casar com um principe, Aly Khan, mas não superou as provas de protocolo. Kelly não teria esse problema para ser princesa do Mónaco. Ao lado de Bogart em The Left Hand of Good viveu o seu último esplendor. Por essa altura já sofria choques eléctricos com regularidade e o corpo, que durante a guerra tinha servido de modelo pin-up para os G.I., começava a degradar-se rapidamente. Era outra Gene. Não aquela que tinha feito Darryl Zanuck proclamar aos sete ventos que era a mais bela mulher da história do cinema. Nem aquela do quadro, a da minha primeira paixão. Uma paixão de juventude, uma paixão macábra, uma paixão inevitável. Assim era a mulher do quadro.


Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:21
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