Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Oscarwatching 2010: O Ano das Mulheres

Habitualmente a corrida aos prémios de Melhor Actriz é algo bastante descafeínado. O ano arranca com uma favorita absoluta que mais não faz do que confirmar essa superioridade sem dar grandes alardes ou opções às rivais. Isso resulta directamente da falta de papeís de qualidade para as mulheres numa indústria ainda demasiado orientada para as produções com heróis (ou anti-heróis) masculinos até ao tutano. Basta ver quem são os favoritos do ano para descubrir que nenhum deles conta com uma mulher em posição de destaque no elenco. Hollywood continua igual a si própria.

Mesmo assim o ano promete ser de uma luta aguerrida e equilibrada entre três gerações de actrizes que resumem a qualidade interpretativa delas em Hollywood. Sem a omnipresente Meryl Streep, que nos últimos anos tem brilhado por cima de todas as outras apesar de ter de se contentar em ouvir as eternas piadas sob as suas sucessivas nomeações nas galas de prémios, a corrida arranca a três mas pode abrir-se ainda mais com o decorrer da temporada.

 

A candidata mais forte, à partida, é sem dúvida Natalie Portman. A protagonisa do aclamado Black Swan, menina bonita de Hollywood desde a precoce adolescência com o inesquecível Leon, the Profesional (e mais tarde a saga Star Wars ou sucessos como Closer), transforma-se da cabeça aos pés para encarnar uma bailarina obcecada com a fama e a sua carreira, ameaçada por uma jovem pretendente bem ao estilo do saudoso All About Eve de Joseph L. Mankiewicz. O filme de Darren Aronofsky é o culminar de uma evolução sustentada da actriz israelita, cara bonita e actriz de prestigio que pode conseguir a sua definitiva consagração internacional recolhendo os principais prémios de interpretação do ano. Mas com uma performance dificil e repleta de cenas a roçar o obsceno para a pudorosa Hollywood, o seu nome desperta algum cepticismo no meio que pode preferir um nome mais consensual e adequado. Um nome que deverá ser o de Annette Benning.

 

A mulher de Warren Beatty é, há 20 anos, uma das actrizes mais respeitadas e aclamadas de Hollywood. Por duas vezes esteve perto da estatueta, por duas vezes perdeu, ambas contra Hilary Swank. Agora em The Kids are Allright, a veterana actriz tem uma oportunidade de ouro para lograr o que o seu carismático esposo nunca conseguiu. O filme tem sido um sucesso, particularmente junto dos admiradores da nova vaga de cinema indie, e em Hollywood há sempre a sensação de que premiar um actor passa também por galadoar uma trajectória. E a de Benning é praticamente imaculada.

 

A terceira via nesta corrida sem vencedora anunciada significa um rejuvenescimento pouco habitual na mentalidade da Academia de Hollywood. A jovem Jennifer Lawrence foi a grande estrela da primeira metade do ano com o seu estelar desempenho em Winter´s Bone, um filme pequeno, sem ambições mas profundamente real. A actriz tornou-se na imediata favorita da critica mas vai necessitar, como é inevitável, de um forte apoio mediático para aguentar a competição das rivais, nomes já consagrados na praça.

 

Se estes três nomes oferecem uma análise quase consensual, dificil é depois prever quem as poderá acompanhar na lista das cinco nomeadas ao galardão máximo da Academia de Hollywood. 2010 significou um regresso ao passado com vários nomes de actrizes já premiadas a saltar à baile. Nicole Kidman em Rabbit Hole e a duplamente premiada Hilary Swank em Conviction são os exemplos mais claros. Mas há ainda o regressar de uma velha guarda por consagrar como Diane Lane (no comovente Secretariat), Julliane Moore (também por The Kids Are Allright) e Naomi Watts, protagonista de Fair Game. Nomes fortes que dependerão, e muito, do sucesso dos filmes com o público e da presença constante nos candidatos aos prémios que funcionam como ante-sala dos Óscares. A algumas léguas a jovem Michelle Williams (Blue Valentine) e a tropa britânica liderada por Lesley Manville (Another Year) e Sally Hawkins (Made in Dagenham) procuram cativar nichos concretos dentro da Academia para romper barreiras e preconceitos e optar a um acento de honra na gala do dia 27 de Fevereiro no Kodak Theather.

 

 

Previsões Cinema

 

Natalie Portman (Black Swan)

Annette Benning (The Kids Are Allright)

Jennifer Lawrence (Winter´s Bone)

Lesley Manville (Another Year)

Nicole Kidman (Rabbit Hole)

 

Alternativas 

 

Julliane Moore (The Kids Are Allright)

Naomi Watts (Fair Game)

Tilda Swinton (Io Sono Il Amore)

Sally Hawkins (Made in Dagenham)

Hilary Swank (Conviction)

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 10:21
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Oscarwatching 2010: Contagem descrente para uma longa viagem

A poucos dias do arranque oficial da temporada de cinematográficos nos Estados Unidos, o Cinema analisa os nomes próprios de uma temporada que arranca invariavelmente com o anuncio do National Board of Review e só termina a 27 de Fevereiro com a entrega dos prémios da Academia. Um ano que se espera dividido e equilibrado entre vários titulos que foram conquistando vários seguidores ao longo do Outono nos States. Um ano diferente, sem dúvida.

 

Imaginar 2010 no futuro passará muito pelos filmes que mais prémios recolham no final do ano. Os vencedores fazem quase sempre a história e o seu impacto nos anuários futuras não deve ser menosprezado. Nem sempre ganham os mais influentes, importantes ou vanguardistas, mas é dificil escapar ao lote de ganhadores que irão passear os seus discursos politicamente correctos pelos palcos dos prémios da imprensa, sindicatos até chegar à passadeira vermelha dos Óscares. Muitos candidatos hoje, a fins de Novembro. Apenas 10 antes da gala arrancar, para prevalecer um filme no fim da noite.

 

Se no ano passado Hollywood viveu o seu duelo emocional entre o poder do dinheiro e da tecnologia com o monstruoso sucesso de Avatar e o filme de autor para actores e escribas, o coroado The Hurt Locker, este ano tudo parece menos claro. Não há um imenso blockbuster com reais ambições a ser eleito filme do ano porque nem a animação (Toy Story e How to Train Your Dragon), o cinema juvenil (Harry Potter) e a ficção cientifica (Inception) conseguiram ultrapassar a barreira do género que costuma servir como primeiro tampão na corrida aos prémios do ano. Um cenário visto e revisto que abre então as portas a titulos menos milionários e mais abrangentes, quase todos no universo do drama, peça nuclear na evolução cinematográfica norte-americana.

 

À partida para esta corrida que o Cinema irá analisar na próxima semana estão os filmes já vistos, revistos, criticados e premiados. Os prémios dos festivais podem ser uma ajuda, as palavras elogiosas dos criticos um elemento quase fulcral e a percepção do público um elemento nuclear. A partir daqui tudo pode suceder. Dentro desta equação só uma dúvida persiste, o regresso dos irmãos Coen com o remake de True Grit, o filme que deu o Óscar de Melhor Actor de John Wayne. Hollywood nem é muito amiga de westerns, nem dos Coen (foi preciso esperar 23 anos até à sua coroação definitiva) e Jeff Bridges ganhou (finalmente) há pouco tempo. E tudo isso conta nestes jogos em que se tornaram os prémios cinematográficos da indústria e critica norte-americana.

 

Com essa interrogação no ar (apesar da esmagadora maioria dos criticos continue a apostar no filme dos Coen como uma certeza absoluta) resta analisar as cartas que já estão, efectivamente na mesa. The King´s Speech, The Social Network e 127 Hours partem na pole-position, cada qual com as suas armas. O primeiro, drama britânico com classe e interpretações de primeiro nível, é o producto oscarizável por excelência. Da obra de Fincher destaca-se o argumento de Sorkin e a frescura narrativa de um autor que costuma preferir o risco à certeza. E o murro no estomago que significa o regresso do já ungido Danny Boyle acenta, sobretudo, na coragem interpretativa de um surpreendente James Franco.

 

Três filmes que darão que falar, certamente, mas que não resumem o ano, nem de longe nem de perto.

Veremos a importância de Scorsese (Shutter Island), Eastwood (Hereafter), Weir (The Way Back), Affleck (The Town), ArOnofsky (Black Swan), Leigh (Another Year) e de um duo de mulheres que dará que falar (Lisa Chodolenko Debra Granik) depois do ano histórico que significou o quebrar de uma barreira na corrida aos Óscares. Nomes próprios de autores e obras a que há que juntar o leque imenso de actores, argumentistas e técnicos por detrás das obras mais marcantes do ano.

 

A viagem começa hoje!

 


Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:41
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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

Di Caprio investiga morte de JFK

Preparado para encarnar o mitico J. Edgar Hoover no biopic dirigido por Clint Eastwood, o multifacetado Leonardo Di Caprio prepara-se para voltar ao passado e mergulhar profundamente no evento mais traumático da história norte-americana: a morte de JFK.

 

Legacy of Secrecy é o titulo do filme cuja estreia está prevista para o Outono de 1963, quando se cumpram 50 anos da morte do presidente norte-americano JF Kennedy, assassinado em Dallas. A história inspira-se no livro The Long Shadow of JFK Assassination da autoria de Lamar Waldron e Thom Hartmann. Na obra, os autores defendem que o assassinato de Kennedy resultou de uma combinação entre a CIA e a Máfia, com quem Kennedy tinha tido ligações no passado mas que tinha perseguido implacavelmente a partir do momento em que ascendeu à Casa Branca.

 

O filme centra-se na relação entre Jack van Laningham, agente do FBI destacado para o caso, e o mafioso Carlos Marcello, que confessou ter feito parte da conspiração que levou ao atentado de Dallas. A estreia do projecto, em parceria entre a Warner Bros. e a Appian Way, productora de Di Caprio, está a ser preparada ao mais minimo detalhe e o actor está confirmado como van Laningham no elenco do projecto. Não há ainda realizador e elenco adicional confirmado mas as filmagens deverão começar no final do próximo ano, quando o actor termine o seu trabalho ao lado de Eastwood.

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:43
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Domingo, 21 de Novembro de 2010

O terror, segundo Spielberg

Os cinéfilos conhecem bem a sequência em que Kirk Douglas explica ao seu parceiro Dick Powell o que realmente atrai os espectadores numa sala de cinema quando o tema é o medo. Vincent Minelli falava nesse inimitável The Bad and the Beautiful de um caso concreto (o notável Cat People de Jacques Tourneur), mas a licção ficou. Entrou pela espinha dorsal de Steven Spielberg que antes de se fazer milionários decidiu dar uma licção sobre o medo. Chamou-lhe Duel. Podia ter-lhe chamado Fear. O medo vem sempre do inesperado.

Quem começou a conhecer o mago milionário que revolucionou Hollywood com Jaws, esse primeiro blockbuster sensaborão mas que marcou um antes e um depois da história do cinema americano, certamente não desconfiará que o mesmo autor que trouxe os efeitos especiais para o primeiro plano cinematográfico era capaz de um exercicio tão simples e económico que fosse, ao mesmo tempo, tão devastador. Na mente.

O Spielberg dos extra-terrestres e Indianas Jones formou-se em Los Angeles, na escola onde todos os jovens estudantes se cruzavam com sonhos de imitar os seus mentores europeus que os deslumbravam com projectos arriscados do outro lado do Altântico. Nesse núcleo de movie-brats nenhum atingiu o mesmo impacto do que Spielberg, mas o homem que sonhava em grande, o homem que realizaria um Dia D tão sangrente e tenebroso como o original, tinha já em mãos um projecto pequeno, pessoal e letal.

Com a mais básica das premissas Spielberg demonstrou com pouco esforço onde está a diferença entre o dinheiro e o talento. Mais tarde teria ambos e daí nasceriam as suas obras-primas. Mas sem os dólares que fizeram dele o rei de Hollywood também havia magia no seu olhar agudo. Num filme de auteur, à la Nouvelle Vague, o jovem realizador encarou o espirito solitário da América perdida e atirou-o para a estrada. Um cowboy solitário (dois?) e um duelo com um final inevitável. Afinal, não era no velho oeste que enchia as salas de cinema que o jovem Steve aprendeu de memória a frase "esta cidade é pequena demais para nós os dois". Aquela estrada também.

 

Um homem sai de casa com o seu automóvel e atira-se à auto-estrada. A dado momento cruza umas ágrias palavras com um camionista. E as peças do dominó começam a cair vertiginosamente, uma atrás de outras. O rosto fica invisivel do principio ao fim (quem pode dar cara a Deus e ao Diabo?) porque é o que menos interessa. O rosto a seguir é o do medo. E o medo está no jovem Dennis Weaver, um desses rostos familiares da América dos 70, entre os puzzles da geração Nixon e da era hyppie, que não sabe como sobreviver a esta perseguição sem pingo de piedade. Um retrato claro do clima de medo e violência que o subsconciente americano, envolvido na lama do Vietname, não consegue resolver. David Mann (o Weaver negociante) sabe que acelerar não é suficiente, o grande salto em frente não resolve um problema que pode assombrá-lo a qualquer instante. E depois do medo, vem a raiva. Depois da raiva, chega o ódio. E com o ódio chega a resposta. Um volte-face que inspiraria mais tarde o próprio George Lucas na sua absorção ao universo da Força em Star Wars e que deixa já a dica de que o velho western podia ter os dias contados, mas a essência que pautava os duelos no deserto continuaria, noutros cenários, com outros personagens mas com a mesma essência.

The Duel, essa obra-prima inicial de um homem que transformou o cinema e acabou por transformar-se a si mesmo na figura do productor moderno de blockbuster (ocasionalmente estão ainda os seus destelhos de génio), nunca chegou à salas de cinema americanas e passou pela televisão quase sem graça. Na Europa, pelo contrário, entrou directamente para os tops do ano com elogios à direita e esquerda, de público e autores consagrados. Talvez por isso o crédito dado a Spielberg (o mesmo passaria com o Lucas de THX e American Grafitti) que outros movie-brats, mais comerciais, nunca chegaram a ter fora dos States.

 

O medo ao desconhecido é a verdadeira essência animalesca do homem. Sem rosto a quem culpar, sem motivos para raciocionar, o medo atinge o mais profundo subsconsciente do Homem. Naquela luta desigual - não é o medo sempre producto de uma luta desigual? - o Homem tem de aprender a catalisar as suas emoções para sobreviver. E para viver há que matar. Primário na essência, medular no estructura, básico na genialidade. Com tanta simplicidade se formou um génio da complexidade, com tanta razão se entendeu o poder de uma camara e um rosto desesperado.  


Autor Miguel Lourenço Pereira às 10:11
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

O Hollywood solitário de Nic Ray

O final dos anos 40 marcou um virar de página fundamental para entender a mudança de rumo operada pelos grandes nomes por detrás dos estúdios que (ainda) controlavam Hollywood. A chegada de vários jovens turcos, ansiosos de aplicar as suas próprias teorias sobre a direcção filmica provocou uma profunda variação que culminou na idade de ouro da meca do cinema norte-americano. Entre os mais ambiciosos e complexos recém-chegados autores destacava-se a misteriosa figura de um homem que assinou em 1950 um dos filmes mais absorventes de toda a década. Uma ponte perfeita entre duas eras unidas por muito pouco.

Plano final. A dúvida instala-se, o espectador sai confuso. Objectivo cumprido.

Em 1950 Hollywood já não era só a divertida fábrica de sonhos que tinha atingido milhões de lucros e admiradores com os seus contos de fada durante os anos 30. A mensagem do New Deal há muito que perdera o sentido (que o diga Capra, o seu maior profeta) e os tempos sombrios da II Guerra Mundial tinham deixado a sua marca. Os heróis perderam a luta e o cinema negro, não só em cor (eram dos poucos que se resistiriam ao poder do technicolor) mas na temática, tornou-se no novo ex-libris dos amantes cinematográficos. Entre 1946 e 1950 várias obras assaltam os cinemas com personagens túrbias, com um passado oculto por explicar e um rosto demasiado sério para conquistar a audiência feminina. A maturidade do sistema de produção aliava-se agora com a originalidade de vários directores que já tinham outra bagagem (e formação), comparados com os auto-didactas autores do despontar do sonoro. Nicholas Ray foi, e será inevitavelmente sempre, um espelho dessa era. O seu final marcou também a ideia do final da era dourada de Hollywood. O seu apogeu coincidou com o renascer dessa consciência de underground movies que despoletaria, anos mais tarde, as novas vagas que varreriam as velhas convenções cinematográficas de vez.

Voltemos a 1950 e ao filme que marcou esse virar na afirmação pessoal de Ray como constructor de pontes. Não foi nem o seu primeiro nem o seu mais célebre filme. Para um autor que acabaria nos peplums e deixaria a sua marca no western entrar na mente de um homem profundamente violento e intempestivo não deixava de ser um curioso desafio. Se nos lembramos que começou (e celebrizou-se) retratando a inocência da juventude marginal (primeiro com o belo They Live by Night, um dos filmes chave do cinema de série B dos anos 40 e depois com o eterno poema teenager Rebel Without a Cause), é fácil perceber em Ray um autor de diversos recursos e motivações, capaz de saltar do marginal para o convencional sem perder dose de originalidade. E risco. O seu risco foi tal que o final acabou por ser mudado. Problemas de consciência do autor que sabia que, com os planos certos, a dúvida seria eterna. Improvisou com os três actores depois de ter o final convencional já editado. E 60 anos depois ainda é.

 

O mergulho no universo de Dix Steele é um salto arriscado.

Autor, conflictuoso, mulherengo, solitário e amigo da bebida, Steele é tudo aquilo que se imaginava possível num escritor e argumentista da Los Angeles da época, diametralmente oposto ao gigolo criado por Billy Wilder no memorável Sunset Boulevard, também do mesmo ano, estreado com poucas semanas de diferença. Mas se a Wilder lhe interessava o drama humano da starlett e a critica ao sistema que deixou Buster Keaton sem voz e von Stenberg sem oficio, o jovem Ray quer colocar em prática a herança chandleriana da época. E por isso recolhe o rosto do Marlowe por excelência e coloca-o ao lado da tentação loira, cânone intocável do cinema norte-americano de então.

O palpitar do coração do filme é pautado pelas grandes linhas capazes de colocar na boca de um desafiante Bogart o eterno "I was born when she kissed me...i died when she left me" que lhe assalta a cabeça a todo o momento e que termina com o suspiro final sofrido da perfeita e deslumbrante Gloria Grahame "i lived a few weeks while she loved me...". Aí já sabemos que tudo acabou e que a verdade é mais perigosa que a mentira. Sabemos que Dix é tão culpado como qualquer outro e que Laura, a rapariga que queria ser uma estrela, toma consciência de ter vivido à beira do precipício demasiado tempo. Pelo meio uma morte, o leit-motiv de tudo, um agente com um coração de ouro e um escalofrio na espinha e um autor da velha guarda (e como Ray pica o sistema) perdido entre Shakespeare e o alcool, vão pautando o ritmo de uma obra marcada pela perfeição do mise em scene, pelas sequências de Bogart ao volante e dos grandes planos da (sua mulher) sedutora Grahame (teria o seu grande ano antes de cair em desgraça quando o próprio Ray a encontrou na cama com o seu filho de 13 anos dois anos depois). Ray não esquece o elemento básico da cartilha e dá, baralha e volta a dar à sua maneira, recuperando olhares sinistros e pistas nunca deixadas ao acaso ("tem umas mãos fortes, deve ser de contar dinheiro") que apontam para um engano final calculado de forma engenhosa. Produzido pelo próprio "Bogie", que falhou o Óscar que ganharia no ano seguinte, num papel que, diziam os que o conheciam, se assemelhava em tudo ao próprio actor na vida real, o filme perdeu (também por isso, quebrar ilusões) em popularidade para os grande sucessos do ano mas rapidamente entrou na galeria das obras básicas da filmografia americana e criou uma escola seguida, entre outros, por Curtis Hanson e o seu não menos notável LA Confidential (obrigando Russel Crowe a ver o filme vezes sem conta).

 

Ray tinha já consolidado o seu papel em Hollywood de forma definitiva. Mais tarde Godard seria conclusivo, para ele o cinema "era Ray". Bogart estava mais perto do fim do que imaginava. Mas a parceria de ambos com aquela escura Los Angeles como cenário de fundo marcou uma obra que define bem o rico periodo de transição vivido pela Hollywood dos 50. Nomes da velha guarda, nomes para uma futura nova guarda, um autor arriscado e uma produção independente (crime de lesa majestade que impediu Bacall de o acompanhar), In a Lonely Place transformou-se com o passar dos anos para redefinir um rumo a seguir. Uma obra perfeita como muito poucas.   


Autor Miguel Lourenço Pereira às 08:54
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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

Boston. amor, apesar de tudo

Quando os créditos assaltam o ecrã é sempre possível adivinhar os sentimentos que iam por detrás da mente do autor da obra que termina. Uma sensação de dever cumprido que vai muito para lá do talento ou dedicação. Há sempre um toque de amor, de devoção a um pequeno detalhe a que muitos escapa. Ben Affleck está apaixonado por Boston. The Town é a sua terceira declaração de amor. E a prova de que  também se pode amar uma cidade desde o seu lado mais negro...

Depois de Mystic River, The Departed ou Gone Baby Gone, a grande estreia de Affleck por detrás das camaras, é inevitável associar a histórica Boston com o submundo do crime norte-americano. O papel que nos anos 70 parecia estar reservado à nocturna New York de Martin Scorsese, o homem que melhor soube transportar o lado obscuro da Big Apple ao grande ecrã,  agora pertence totalmente à cidade atlântica. Não porque Boston seja uma cidade mais ou menos perigosa, mais ou menos dedicada ao mundo do crime. Ainda não se aventuraram com um CSI bostoniano. Porque o crime em Boston chega ao cinema pela sua faceta mais humana, mais dramática. Mais real.

Não se trata apenas de crimes. É amor pelo lado obscuro de uma cidade que permanece uma imensa desconhecida para o Mundo. A mesma cidade onde Affleck cresceu e onde escreveu o guião do rebelde sem causa Will Hunting, protagonizado pelo seu parceiro e amigo bostoniano Matt Damon no sublime Good Will Hunting. Notava-se na escrita que a cidade já era parte do subsconciente do Affleck autor, e em Gone Baby Gone o lado mais obscuro da cidade voltou a ganhar forma. Affleck move-se como Scorsese no fio da navalha. É um cineasta com um potencial tremendo porque acredita no risco. Mas calculado. Há algo na sua obra que relembra o trabalho cuidado dos primeiros filmes de Scorsese, particularmente Mean Streets. Essa devoção pelo marginal, pelo real e pelo correcto. O pragmatismo americano choca com o idealismo cinematográfico e transforma-se numa luta bipolar durante toda a longa-metragem. Um duelo com um final antecipado, certo, mas igualmente preciso. E isso é bom cinema.

 

The Town é mais do que um "heist" movie, da mesma forma que The Sting se movia pelos meandros da comédia de época (utilizando o glamour da dupla Newman-Redford) e também como Heat se transformava num imenso duelo de performances, no primeiro mano a mano dos dois actores mais completos da sua geração, De Niro e Pacino.

Talvez seguindo ambas as premissas há entretenimento e acção no novo filme de Ben Affleck, o eterno mal-amado de Hollywood, mas também há suspense, drama e tensão. Tudo num ritmo controlado que relembra, e muito, a filmografia de Clint Eastwood, inspiração confessa do cineasta. Affleck filma a história com coração. Enfoca o drama familiar na perspectiva mais humana, sem falsos sentimentalismos, e não perde tempos com circunstâncias dificeis de convencer. É prática e por isso acertada a sua dinâmica. Desde o assalto inaugural ao drama que se vai seguindo, a pouco e pouco, e que afasta determinantemente (e aí nos lembramos sempre de Good Will Hunting e essa necessidade de sair, de voar...) o jovem Doug MacRay do seu ninho de sempre. Affleck, que tem mais de autor do que de actor, aguenta bem o peso do filme mas sai, inevitavelmente, a perder com a grande alma representativa do drama dos subúrbios, o incontrolável James Couglhin (o imenso Jeremy Renner). A vida de Coughlin vale pouco comparativamente com a de MacRay, mas isso torna-se imprevisivel, intenso e tão dramático como o Bonnie e Clyde, a quem o final evoca com admiração. The Town é um filme que respeita as origens do género (pensamos em Scarface, Little Caeser...) e que não desdenha um falso final feliz que deixa a aura de mistério necessária para convencer o espectador de que na vida não há bons e maus, apenas pessoas que buscam escapar ao seu destino. Adam Frawley (o notável Jon Hamm, acabado de sair de Mad Man) só quer cumprir o seu dever. Claire Kessey (Rebeca Hall, talvez o elo mais fraco do filme) é apenas uma alma confusa, e Krista Couglin (uma transformada Blake Lively, com silicone, maquilhagem e atitude à mistura) o exemplo perfeito de que haverá sempre aquele incapaz de escapar à ratoeira. Sem licções de moral, MacRay passa pelo fio da navalha da vida dificil do crime suburbano, sem as complexas relações mafiosas de The Departed mas com um ajuste de contas a relembrar Mystic River (e o gesto de Sean Penn a Kevin Bacon no plano final) e sente que a oportunidade que desperdiçou uma vez o irá assombrar para sempre se não tentar driblar o destino uma vez mais.

 

Notável exercicio de entretenimento, The Town é também um exercicio reflexivo sobre a complexidade das relações humanas num mundo que se declara democrático e respeituoso mas que, na realidade, continua a fazer da discriminação a sua moeda de troca. As relações humanas condenam-se pelas circunstâncias de vida e o maniquismo tolda a visão dos mais esclarecidos. Pelo meio as sequências de acção enchem de ar os pulmões do espectador. Necessitados estão depois de perceberem que a vida é um beco sem saída para demasiados e que só o amor/devoção a algo nos pode trazer uma lufada de ar fresco. Para Affleck esse ar chama-se Boston. Para MaCray era Manderine. Dois nomes, a mesma relação. A mesma realidade. O mesmo principio. Talvez, a mesma cidade.  

 

Classificação -

 

Realizador - Ben Affleck

Elenco - Ben Affleck, Jeremy Renner, Jon Hamm

Productora - Warner Bros

Classificação - m/12

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 08:38
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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

Toy Story 3 lidera corrida ao Óscar de Animação

A Academia de Hollywood anunciou a lista dos 15 pré-candidatos ao Óscar de Melhor Filme de Animação 2010, liderada pelo esmagador favorito, o novo sucesso da Pixar, Toy Story 3.

 

O filme, que muito provavelmente será um dos 10 candidatos ao prémio ao Melhor Filme atribuido pela AMPAS, terá já reservada uma das três vagas para a categoria de animação. Segundo as regras da Academia é obrigatório um minimo de 16 pré-candidatos para poderem existir cinco candidatos finais aos Óscares. Na edição deste ano não só a lista se resume a 15, como há ainda 4 filmes (The Dreams of Jinsha, The Illusionist, Summer Wars e Tangled) que não foram exibidos em Los Angeles, caracteristica obrigatório para qualquer obra que concorre às estatuetas douradas, o que pode reduzir o lote de pré-candidato a 11 filmes apenas, o número mais baixo de toda a década.

 

Legend of the Guardians: The Owls of Ga’Hoole e How to Train Your Dragon são os principais candidatos a secundar a terceira aventura de Woody e Buzz e juntam-se a uma lista onde se encontram também Alpha and Omega, Cats & Dogs: The Revenge of Kitty Galore, Despicable Me, Idiots and Angels, Megamind, My Dog Tulip, Tinker Bell and the Great Fairy Rescue e Shrek Forever After.

 

Os nomeados serão conhecidos a 25 de Janeira e a estatueta será entregue na cerimónia a 27 de Fevereiro. 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 08:45
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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

William Monahan refaz Becket

Guionista de The Departed e Kingdom of Heaven, William Monahan prepara-se brevemente para dar mais um salto na sua carreira com a estreia de London Boulevard, o primeiro filme que escreve e dirige. No entanto a sua vista está já muito para lá do eventual sucesso comercial e critico do seu próximo projecto.

 

Numa recente entrevista o argumentista tornado realizador confessou o desejo que tem em reeditar o grande sucesso teatral da década de 50, Becket. Filme já adaptado ao grande ecrã em 1964, com um notável elenco encabeçado por Richard Burton e Peter O´Toole (ambos nomeados ao Óscar de Melhor Actor), Becket narra os encontros e desencontros entre duas das mais carismáticas personagens históricas do medievo britânico, o arcebispo de Cantuária Thomas Becket e o rei Henrique II, o homem que consolidou o poder real na convulsa Inglaterra do século XI. 

 

Experienciado já em adaptações históricas (Kingdom of Heaven foi um bom exemplo), Monahan quer transmitir uma visão actualizada do eterno confronto entre o poder real e eclesiástico nos dias túrbios da Idade Média, sem descurar o trabalho de diálogos que permitiu o sucesso original da obra.

 

A pré-produção do reeditado Becket arrancará na próxima Primavera, ainda sem elenco à vista e será escrita e dirigida pelo ambicioso autor norte-americano.   

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:07
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