Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

A nudez do desejo

Na época em que os códigos de censura se apertavam em Hollywood a resposta europeia surgiu de forma frontal e chocante para os padrões da época. Dois cineastas suecos abriram as portas da revolução sexual no cinema com dois filmes com fortes paralelismos que não tiveram medo em despir o desejo. Ver passou a ser melhor do que simplesmente imaginar e o corpo tornou-se numa entidade mais, veículo nuclear de uma narrativa onde o sexo define a moral.

Espaçados por apenas dois anos, os corpos nus de Harriet Anderson e Ulla Jacobsson tornaram-se no ex-libris do desejo sexual consumado um pouco por todo o Mundo. Condenados por Hollywood - e pela cinematografia mundial em geral - a planos de decotes generosos mas controlados, os espectadores eram forçados a conter dentro a libido que sentiam pelos actores e actrizes que desfilavam pelos milhares de filmes produzidos ao ano. As costas nuas de Marlon Brando, nesse mesmo ano, em Streetcar Named Desire davam a entender que algo mudava. Mas seriam precisos quinze anos mais para Hollywood permitir oficialmente a visão dos primeiros seios nus (The Pawnbroker, depois de no ano anterior Jayne Mansfield ter desafiado a censura com a sua polémica mama nua em Promises! Promises!) e alguns anos mais para ver os primeiros sexos a descoberto (Blow Up abriu a corrida em Inglaterra, seguindo os passos de Peeping Tom de Michael Powell), remontando à longinqua imagem de Hedy Lammar em Extasis, inevitavelmente filmada no Velho Continente. Se Hollywood continuava a fechar-se sobre o seu código Hayes, a Europa começava a despertar para uma nova realidade. Não tardaria nada para que Brigitte Bardott surgisse como Deus queria que se tivesse criado todas as mulheres quando o cineasta sueco Arne Mattson decidiu quebrar os tabus e filmar a polémica novela de Per Olof Ekstrom, Sommardansen. O livro centrava-se na relação entre um jovem casal adolescente que se apaixona durante as férias do Verão numa quinta sueca perdida no meio da Natureza. O filme era arrojado menos pela temática e mais pela forma. Se a história de amor era um conjunto de sofrivéis clichés, já a naturalidade com que Mattson filmava a natureza sueca encantava pela sua simplicidade. Mas era o desejo, tema central do livro que ganha direito a destaque no próprio filme, que dá sentido à obra. E à sua popularidade. O amor entre Goran, o jovem estudante universitário, e Kerstin, a rapariga do campo, é um amor sexual, explicito e repleto de desejo. Não é nem puro e virginal, nem contido e castrador. A cena em que os jovens consumam o desejo que sentem é um hino à ousadia. A nudez de Jacobsson, uma das mais belas actrizes suecas da década dos 50, é desarmante pela sua simplicidade. Naturalidade. Inevitabilidade. São apenas dois seios, peitos, mamas...mas são também um choque no conflito cultural que rege a sétima arte de então.

O filme acabou por ver premiada a sua ousadia vencendo o Urso de Ouro em Berlim e arranhando a Palma de Ouro em Cannes. A Europa premiava o autor pela sua coragem, os Estados Unidos entretanto mutilavam o filme a ponto de o estrearem com quatro anos de atraso quando já nada havia a fazer. E em salas especificas, em centros urbanos, para não ferir susceptibilidades. Por essa altura já ecoava o sucesso de outro descarado cineasta, um homem que faria escola pela sua simplicidade de processos, e que dois anos depois de One Summer of Happiness/Hon dansade en sommar se arriscava a ir mais longe: Ingmar Bergman.

O então jovem realizador, filho de uma escola que tinha bebido em Dreyer e na filmografia sueca dos anos 10 e 20 a sua principal inspiração (Sjostrom), já tinha dado timidamente os seus primeiros passos. Mas foi o sucesso de Mattson que lhe deu vontade de transgredir ainda mais. Adaptou então outra novela maldita, Sommaren med Monika de Per Anders Fogelström. Um filme sobre uma rapariga da cidade que procura a liberdade a todo o custo. Uma corrida ansiosa contra o tempo onde Monica é incapaz de olhar a fins para atingir meios. O amor, o sexo, a maternidade são apenas etapas na sua eterna ânsia de viver. Filme cruel sobre o final de uma adolescência irresponsável, Summaren med Monika (Mónica e o Desejo numa tradução feliz, das poucas, da lingua portuguesa) foi um modesto sucesso critico na sua época mas acentou as bases do culto que começou a rodear a figura de Bergman. Mas foi a sua estrela, a jovem actriz com o qual mantinha uma tórrida relação (apesar de ela ter apenas 19 anos contra os 35 dele), que se tornou no icone do filme. Harriet Anderson, então praticamente desconhecida, deu corpo, voz e forma ao desejo masculino. O seu corpo nu, banhando-se nas rochas, expõe pela primeira vez uma actriz nua de preconceitos e de vida, despojada diante de uma camara sem piedade. Uma nudez que se prolonga em mais do que uma cena e que ajudou a tornar Anderson na grande estrela sexual do cinema europeu até à errupção orgásmica de B.B., producto de Vadim, outro realizador-amante. A libertinagem dos planos dos decotes soltos de Monica, os seus banhos de sol nas rochas e no pequeno barco que ela e Harry, o eterno apaixonado, transformam na sua casa. Se o filme é pouco amável com Mónica, é fundamental para resumir a expressão do desejo na filmografia de um realizador que será, posteriormente, muito mais contido.

A Suécia, país cauto à vez que liberal, abriu assim as portas a um cinema despojado de tudo menos de desejo. A forma e o conteudo seguiam as mesmas pautas e deixavam de lado os espartilhos sociais. Os corpos nus tornaram-se mais do que simbolos da libertação sexual da mulher, foram verdadeiros faróis de inspiração para os cineastas que se seguiriam na corrida contra o obscurantismo visual que negou o realismo e ofereceu uma visão distorcida e contida do desejo carnal humano. O sucesso sem fronteiras de Monica e Kerstin foi também o sucesso da mulher no cinema. O sucesso do corpo. Pela primeira vez o desejo pode sentir-se como gosta, nu!


Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:33
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