Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

O Triunfo do Som

The Jazz Singer tornou-se num titulo digno de figurar em qualquer jogo de cultura geral. O filme que abriu a caixa de Pandora em que se tornou o cinema sonoro e que significou o triunfo da indústria sobre a arte. Trinta anos de cinema mudo chegavam ao fim e abriam a porta para uma nova realidade onde a forma passaria a prevalecer sobre o conteúdo. 

A 6 de Outubro de 1927 o mundo acordou de pernas para o ar.

Em Nova Iorque tinha acabado de estrear-se The Jazz Singer, o filme, que rasgava com trinta anos de evolução sustentada da já chamada 7 Arte e que dava um imenso salto rumo ao desconhecido.

A publicidade da Warner Bros enfocava as palavras chave do projecto, cinematograficamente mediocre: o nascimento do primeiro filme falado. Não era verdade, mas poucos realmente o sabiam. Todos foram ver o actor russo Al Jonson, um dos muitos que emigraram para os States depois da revolução leninista, pintado de negro, a cantar e encantar a surpreendida plateia. A sua voz ouvia-se tão bem como a da banda que o acompanhava em cena, e não no habitual piano de palco. Apesar de algumas passagens serem ainda mudas (o filme foi rodado em pleno processo mutacional da estrutura de cinema da Warner), o público sabia que a partir daí tudo seria diferente. O cinema mudo tinha os dias contados. E tudo por culpa dos problemas financeiros de Jack Warner. O ditatorial chefe da casa Warner Bros. procurou durante meses formas de inverter o ciclo negativo em que a sua productora tinha mergulhado. Até que decidiu arriscar tudo no ás que tinha na manga. Se o dinheiro tinha impedido a instalação do cinema sonora no inicio do século - onde já havia a tecnologia para gravar mas não para emitir - foi o mesmo dinheiro que acelerou a sua implementação quando, precisamente, o cinema mudo atingia o seu expoente artistico máximo. O filme, já se sabe, foi o maior sucesso do ano e foi galardoado com um Óscar especial, o primeiro do género. E só não foi eleito o melhor filme pelo facto dos grandes produtores rivais da Warner acharem que seria concorrência desleal. Mas tempo ao tempo.


O sucesso do filme abriu um periodo de transição que duraria aproximadamente três anos.

O sonoro era a tendência da moda mas ainda teve de coexistir com o cinema mudo. Porque muitos o imaginaram (ingenuamente) como uma moda passageira. Mas também porque a maioria dos estúdios não tinha equipamentos adequados para filmar com som real. A maior parte das companhias assinou um protocolo para adquirir o popular modelo Vitaphone. Só a RKO e a Fox usavam o modelo que tinham vindo a desenvolver nos anos anteriores mas no qual depositavam poucas esperanças.
Durante três anos os estúdios dedicaram-se a fazer filmes sonoros. A Paramount foi a primeira companhia a conseguir um filme 100% falado, em 1928. No ano seguinte todos os seus filmes eram totalmente sonorizados. A MGM e a Fox acabaram 1928 com vários filmes semi-falados, mas apostaram na re-filmagem de filmes mudos que ganharam som. Poucos são hoje os exemplares sobreviventes dessas aventuras.
A implementação do sonoro não causou apenas três anos de muitos e barulhentos filmes.

Levou ao desemprego milhares de pessoas que tinham feito parte dos alicerces da indústria de Hollywood durante os anos dourados. A sua maioria eram os músicos de orquestras ou os pianistas que coloriam as exibições dos filmes mudos. Em várias cidades foram surgindo vários mendigos com um cartaz pendurado que apenas dizia “Ruined by the talkies!”. A Grande Depressão agudizou ainda mais o problema que se tornaria apenas num dos efeitos colaterais do avanço irresistível da indústria. Nem as grandes estrelas se salvaram. Ícones do cinema da época como Lilian Gish, Mary Pickford, Gloria Swanson ou Douglas Fairbanks deixaram o estrelato pela fraca fluídez vocal que apresentavam. Emil Jannings, considerado à época como o maior actor do mundo, voltou para a Alemanha com o advento do sonoro temendo que o seu sotaque destruísse a sua carreira recentemente coroada com um Óscar.

 

O fim do mudo significou o final de uma linguagem universal no mundo cinematográfico. As grandes co-produções internacionais tinham os dias contados e os actores tinham mais dificuldades em afirmarem-se em países estrangeiros.  

Durante os anos anteriores, tanto nos Estados Unidos como na Europa, o cinema mudo tinha atingido um nível de altíssima qualidade. Quer o surrealismo alemão, quer os épicos americanos, quer os filmes experimentalistas franceses e soviéticos conquistavam a crítica e o público graças à visão dos grandes realizadores de então, Abel Gance, Ernst Lubitsch, Murnau, D. W. Griffith, Ford ou von Stenberg. 
E no inicio da revolução sonora, um conjunto de proeminentes realizadores europeus preparou-se inicialmente para boicotar o sonoro. Não foi apenas por problemas financeiros e técnicos que até 1930 fossem registados pouquíssimos filmes totalmente falados na Europa. O grande receio dos autores europeus era de que o sonoro surgisse na sua forma mais sincrónica, limitando-se a imitar a imagem. Para alguns realizadores como René Clair, Dziga Vertov, Serguei Eisenstein e até mesmo o iniciante Alfred Hitchcock, o sonoro deveria surgir como mais um apoio à montagem e não como uma nova linguagem em si. A defesa de uma abordagem contrapuntual do uso do som nos filmes manter-se-ia o grande cavalo de batalha dos cineastas europeus.

No entanto, as modas da América ditavam outras danças.

O sincronismo absoluto tinha sido um sucesso no virar dos anos 20 e a consagração de Broadway Melody, o primeiro grande musical da história, na segunda gala dos Óscares mostrava que a tendência era de que o filme falado de forma sincrónica tinha vindo para ficar. Rapidamente os realizadores apostaram em géneros que beneficiasse o cinema falado em detrimento do cinema sonoro. Musicais, comédias cheias de gags, filmes de gangster, westerns e os filmes animados tornaram-se nos géneros dominantes. Mesmo o drama abandonou o seu carácter introspectivo dos grandes filmes da década de 20 e transformou-se num conjunto de interpretações muito faladas e pouco sentidas. O importante era que o público pudesse ver que Greta Garbo ou Clark Gable estavam a dizer exactamente o que eles estavam a ouvir. E foi isso que tiveram, a contra-gosto dos auteurs que viram truncada a sua carreira ou tiveram de se render às aparências.

A mutação era inevitável e tarde ou cedo acabaria por vencer. Apesar dos grandes autores se manterem fiéis ao conceito de cinema mudo (os casos franceses e soviéticos foram os mais paradigmáticos), a verdade é que 90% dos filmes que eram exibidos no “velho continente” chegavam de Hollywood. E rapidamente o filme falado conquistou também a Europa. A linguagem universal do filme mudo tinha acabado. O inglês afirmava-se como língua mundial. Hollywood tinha vencido.


Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:20
Link do texto | Comentar | favorito

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

.Fundamental.

EnfoKada

.Janeiro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.Ultimas Reviews

Midnight in Paris -
The Ides of March -
A Dangerous Method -
Tinker Taylor Soldier Spy -
Drive -

.Classificação

Excelente-
Muito Bom-
Bom -
Aceitável-
Evitar-

.Pesquisa

 

.Ultimas Actualizações

. Por uma definição justa d...

. Oscarwatch - Melhor Filme...

. Oscarwatch - Melhor Argum...

. Oscarwatch - Melhor Actor...

. Oscarwatch - Melhor Actri...

.Do Autor

Em Jogo

.Categorias

. biografias

. cinema

. corpos...

. estreias

. festivais

. historia opinião

. mitos

. noticias

. obituario

. opinião

. oscares

. oscarwatch 2008

. oscarwatch 2009

. oscarwatch 2010

. oscarwatch 2011

. premios

. reviews

. rostos

. that´s the movies

. trailers

. todas as tags

.Blogs

35mm
7CineArt
A Gente Não Vê
A Última Sessão
Action Screen
Alternative Prision
Ante-Cinema
Antestreia
A Última Sessão
Avesso dos Ponteiros
Bela Lugosi is Dead
Blockbusters
Cantinho das Artes
Cine31
CineBlog
CineLover
CinemeuBlog
CineObservador
CineRoad
CineLotado
Cinema is My Life
Cinema Notebook
Cinema´s Challenge
Cinema Xunga
Cinematograficamente Falando
CinePT
Close Up
Cria o teu Avatar
Depois do Cinema
Dial P for Popcorn
Ecos Imprevistos
Estúpido Maestro
Febre 7 Arte
Final Cut
Grandes Planos
Gonn1000
Grand Temple
High Fidelity
In a Lonely Place
Jerry Hall Father
Keyser Soze´s Place
Maus da Fita
Movie Wagon
Mullolhand CineLog
My One Thousand Movies
My SenSeS
Noite Ameriana
Ordet
O Homem que Sabia Demasiado
O Sétimo Continente
Os Filmes da Gema
Pixel Hunt
Pocket Cinema
Portal do Cinema
Royale With Cheese
Split Screen
The Extraordinary Life of Steed
Um dia Fui ao Cinema
Voice Cinema



.Sites

c7nema
CineCartaz
Cine Estação
Cinema2000
Cinema-PT Gate
DVD Mania
DvD.pt
Em Cena
Lotação Esgotada
Cine História
Cinemateca Lisboa
Eu sou Cinéfilo
Portal Cinema

American Film Institute
British Film Institute
Cahiers du Cinema
Cinémathèque Francaise
Directors Guild of America
Internet Movie Database
Motion Picture Association
Screen Actors Guild
Screen Writers Guild
Sight and Sound
Telerama

Box Office Mojo
Coming Soon
Dark Horizons
Hollywood Reporter
JoBlo
Latino Review
Movie Poster

Premiere
Rope of Silicone
Rotten Tomatoes
Slash Film

Sun Times Chicago

Variety

.Premios e Festivais

Cesares
European Film Awards

Golden Globes
Goya

Oscares

Animation Film Fest
European Film Festival
Festival de Berlim
Festival de Cannes
Festival de S. Sebastian
Festival de Sundance
Festival de Veneza
Roma Film Festival
São Paulo Film Fest
Sitges Film Festival
Toronto Film Festival

Algarve Film Festival
Ao Norte!
Avanca
Black and White
Caminhos
Cinamina
Corta!
Curtas Vila do Conde
DOCLisboa
Fantasporto
FamaFest

Festroia

FIKE
Funchal Film Fest
Imago
Indie Lisboa
Ovar Video

.Oscarwatchers

And the Winner is...
Awards Daily
In Contention
Golden Derby
MCN Weeks
The Envelop
The Carpetbagger
Thompson on Hollywood

.Arquivos

. Janeiro 2013

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

.subscrever feeds