Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona - Surrealismo emocional

 Woody Allen foi o guru intelectual dos anos 70 numa época em que as pessias pensavam à “hippie” e vestiam-se à “yuppie”. Agora é uma barca perdida no Mediterraneo à beira do naufrágio. Bem longe do seu porto de abrigo, lá para Greenwich Village, o realizador tenta ancorar em Barcelona. Mas estas não são águas tranquilas…

 

 

É fácil perceber que este Woody Allen está cada vez mais neurótico e obcecado pelo sexo fácil. E isso até podia ser bom, se o cineasta tivesse mantido a genica intelectual dos seus anos dourados. Mas não, definitivamente, este já não é o caso. Do velho Woody Allen fica apenas o genérico estilo anos 20. Até o seu intocável “jazz” é agora trocado por acordes de flamenco.

 

O seu novo filme, Vicky Cristina Barcelona, tanto parece a obra de um exilado despeitado que faz de tudo para ajustar contas com o seu passado, piscando escandalosamente o olho a quem o acolhe, como pode passar por um filme amador de um adolescente repleto de burbulhas que ainda não consegue controlar os seus sonhos molhados. De qualquer das formas, nenhuma das opções parece ser uma boa noticia.

 

Apesar do curioso titulo, este filme nem é sobre Vicky, nem sobre Cristina e muito menos sobre Barcelona. A capital catalã é o pano de fundo mais estático que a obra de Allen já descorreu. Num autor que durante décadas foi o espelho de Nova Iorque no Mundo e que soube captar o mais intrigante que tem Londres na sua última obra de alta nível (Match Point) escuda-se na obra de Gaudi e Miró para desenhar uma Barcelona que se torna facilmente vazia e ausente. Mas não é a única.

 

De Vicky e Cristina também pouco se vê a não ser ténues hologramas do que poderiam ter sido interessantes personagens, se a dinâmica narrativa tivesse sido conduzida, desde o primeiro plano, de uma outra forma. O pecado começa na narração do filme, que, de imediato, faz das duas personagens femininas meras marionetas nas mãos do narrador, que vai descorrendo os sucessivos episódios à medida que o filme se desenrola. Sempre se discutiu a vantagem (ou não) de utilizar um narrador num filme. É no entanto fácil ver que esta é habitualmente uma arma que funciona bem para os menos capazes, que não conseguem dar profundidade dramática às suas personagens. Aliás, o próprio Allen já tinha inclusivé parodiado esta situação, com a inclusão de um “Coro” grego em Mighty Aphrodite. Nesta sua aventura catalã pareceu esquecer-se da licção aprendida e saímos da sala sem realmente conhecer Vicky (a representação da convencionalidade puritana americana que volta para casa mais confundida que um espectador num filme de David Lynch) e Cristina (provavelmente o protótipo feminino neurótico que Woody Allen gostaria de ter sido se tivesse nascido num corpo diferente).

 

E como no filme ficamos sem nunca saber quem são as suas protagonistas, temos de nos limitar à “prata da casa”. Allen aproveitou o dinheiro espanhol que financiou o filme e contratou os dois nomes mais sonantes do cinema castelhano para dar vida a um incandescente e explosivo casal de artistas locais, numa ironia que provavelmente até ao próprio passou despercebida. No entanto, a verdade é que o filme só funciona quando estas personagens estão em cena. Não por estarem mais desenvolvidas do que as protagonistas, não se trata desse caso. É apenas e só porque, ao romperem com a rotinária galeria de personagens allenianas, já conseguem injectar um pouco de fogo neste constante lume brando. Penelope Cruz no seu misto de inglês incompreensível e do seu espanhol de bairro apresenta-se como o claro contraposto às duas turistas. É ela que tem em si a arte e o engenho, o talento e o fogo no corpo. É ela a vida (apesar das suas tendencias auto-destructivas), face às insoças e conservadoras americanas. Num claro ajuste de contas para com uma sociedade que já não o parece apreciar, Allen procura extrapolar pseudo-valores europeus, fazendo passar imagem que, deste lado do Atlântico, até parece normal que o sexo  três, a promiscuidade ou a constante boémia sejam o pão nosso de cada dia, face à rotinária vida social dos casais norte-americanos, entre as suas pausas no Starbucks e a a busca do “lar” perfeito (de preferencia com piscina e court de ténis).

E como essa situação è inverosimel (perguntem lá ao pai do vosso melhor amigo se ele lhe conta que tem sonhos eróticos com a sua mulher), e apenas um reflexo da confusão que tem reinado lá para os lados da multipla psicose freudiana que tem o cineasta, Vicky Cristina Barcelona torna-se, desde já, numa experiencia frustante, onde ninguém sairá a ganhar.

 

E se Allen sempre foi conhecido por ser, além de um bom guionista (a primeira grande falha desta filme, é, exactamente, a falta de um guião), também passou para a história como um hábil director de actores. Até nisso o filme peca de imediato ao escolher um elenco que dá, desde o primeiro instante, a sensação que nunca tira o piloto automático. Scarlett Johansson parece determinada em dar razão aquelas que a catalogam como um pseudo producto de beleza enfrascado num rótulo de eterna promessa. A desconhecida Rebecca Hall perde, por, à partida, a sua personagem ser a mais facilmente desprezada pelo guionista. Basta imaginar as sucessivas sequências em que se encontra, sem se perceber muito bem a sua razão de ser (uma ida ao cinema com um colega de aula que aparece e desaparece como se fosse magia). E a legião espanhola usa e abusa do over-acting, especialmente no caso de Cruz, que mostra claramente que é um producto para consumo caseiro e provavelmente com data de validade muito próxima do prazo. Sobra Javier Bardem, que no seu primeiro filme pós-coroação mundial graças ao seu papel em No Country for Old Men, prova que está em boa forma, sem no entanto deslumbrar a plateia que podia pedir muito mais do mais cotado actor latino da actualidade.

 

Desta aventura falhada de Allen (já vão demasiadas nos últimos anos para quem era tão regular), fica a sensação que o producto seria o mesmo, tivesse sido a história rodada em Madrid, Lisboa, Roma, Atenas ou Istambul. Neste cocktail de clara desinspiração misturado com uma forte necessidade de criar uma separação entre o universo mediterraneo e a cultura anglo-saxónico, Woody Allen quer-nos convencer que abandonou o seu saxofone pela guitarra espanhola. Mas a proposta é tão inverosimel, que ao sair da sala, quem chora não é a guitarra…somos nós…

 

Classificação –  

 

RealizadorWoody Allen

Elenco Javier Bardem, Scarlett Johanson, Rebecca Hall

Productora - MGM

Classificaçãom/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:12
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