Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

O Hollywood solitário de Nic Ray

O final dos anos 40 marcou um virar de página fundamental para entender a mudança de rumo operada pelos grandes nomes por detrás dos estúdios que (ainda) controlavam Hollywood. A chegada de vários jovens turcos, ansiosos de aplicar as suas próprias teorias sobre a direcção filmica provocou uma profunda variação que culminou na idade de ouro da meca do cinema norte-americano. Entre os mais ambiciosos e complexos recém-chegados autores destacava-se a misteriosa figura de um homem que assinou em 1950 um dos filmes mais absorventes de toda a década. Uma ponte perfeita entre duas eras unidas por muito pouco.

Plano final. A dúvida instala-se, o espectador sai confuso. Objectivo cumprido.

Em 1950 Hollywood já não era só a divertida fábrica de sonhos que tinha atingido milhões de lucros e admiradores com os seus contos de fada durante os anos 30. A mensagem do New Deal há muito que perdera o sentido (que o diga Capra, o seu maior profeta) e os tempos sombrios da II Guerra Mundial tinham deixado a sua marca. Os heróis perderam a luta e o cinema negro, não só em cor (eram dos poucos que se resistiriam ao poder do technicolor) mas na temática, tornou-se no novo ex-libris dos amantes cinematográficos. Entre 1946 e 1950 várias obras assaltam os cinemas com personagens túrbias, com um passado oculto por explicar e um rosto demasiado sério para conquistar a audiência feminina. A maturidade do sistema de produção aliava-se agora com a originalidade de vários directores que já tinham outra bagagem (e formação), comparados com os auto-didactas autores do despontar do sonoro. Nicholas Ray foi, e será inevitavelmente sempre, um espelho dessa era. O seu final marcou também a ideia do final da era dourada de Hollywood. O seu apogeu coincidou com o renascer dessa consciência de underground movies que despoletaria, anos mais tarde, as novas vagas que varreriam as velhas convenções cinematográficas de vez.

Voltemos a 1950 e ao filme que marcou esse virar na afirmação pessoal de Ray como constructor de pontes. Não foi nem o seu primeiro nem o seu mais célebre filme. Para um autor que acabaria nos peplums e deixaria a sua marca no western entrar na mente de um homem profundamente violento e intempestivo não deixava de ser um curioso desafio. Se nos lembramos que começou (e celebrizou-se) retratando a inocência da juventude marginal (primeiro com o belo They Live by Night, um dos filmes chave do cinema de série B dos anos 40 e depois com o eterno poema teenager Rebel Without a Cause), é fácil perceber em Ray um autor de diversos recursos e motivações, capaz de saltar do marginal para o convencional sem perder dose de originalidade. E risco. O seu risco foi tal que o final acabou por ser mudado. Problemas de consciência do autor que sabia que, com os planos certos, a dúvida seria eterna. Improvisou com os três actores depois de ter o final convencional já editado. E 60 anos depois ainda é.

 

O mergulho no universo de Dix Steele é um salto arriscado.

Autor, conflictuoso, mulherengo, solitário e amigo da bebida, Steele é tudo aquilo que se imaginava possível num escritor e argumentista da Los Angeles da época, diametralmente oposto ao gigolo criado por Billy Wilder no memorável Sunset Boulevard, também do mesmo ano, estreado com poucas semanas de diferença. Mas se a Wilder lhe interessava o drama humano da starlett e a critica ao sistema que deixou Buster Keaton sem voz e von Stenberg sem oficio, o jovem Ray quer colocar em prática a herança chandleriana da época. E por isso recolhe o rosto do Marlowe por excelência e coloca-o ao lado da tentação loira, cânone intocável do cinema norte-americano de então.

O palpitar do coração do filme é pautado pelas grandes linhas capazes de colocar na boca de um desafiante Bogart o eterno "I was born when she kissed me...i died when she left me" que lhe assalta a cabeça a todo o momento e que termina com o suspiro final sofrido da perfeita e deslumbrante Gloria Grahame "i lived a few weeks while she loved me...". Aí já sabemos que tudo acabou e que a verdade é mais perigosa que a mentira. Sabemos que Dix é tão culpado como qualquer outro e que Laura, a rapariga que queria ser uma estrela, toma consciência de ter vivido à beira do precipício demasiado tempo. Pelo meio uma morte, o leit-motiv de tudo, um agente com um coração de ouro e um escalofrio na espinha e um autor da velha guarda (e como Ray pica o sistema) perdido entre Shakespeare e o alcool, vão pautando o ritmo de uma obra marcada pela perfeição do mise em scene, pelas sequências de Bogart ao volante e dos grandes planos da (sua mulher) sedutora Grahame (teria o seu grande ano antes de cair em desgraça quando o próprio Ray a encontrou na cama com o seu filho de 13 anos dois anos depois). Ray não esquece o elemento básico da cartilha e dá, baralha e volta a dar à sua maneira, recuperando olhares sinistros e pistas nunca deixadas ao acaso ("tem umas mãos fortes, deve ser de contar dinheiro") que apontam para um engano final calculado de forma engenhosa. Produzido pelo próprio "Bogie", que falhou o Óscar que ganharia no ano seguinte, num papel que, diziam os que o conheciam, se assemelhava em tudo ao próprio actor na vida real, o filme perdeu (também por isso, quebrar ilusões) em popularidade para os grande sucessos do ano mas rapidamente entrou na galeria das obras básicas da filmografia americana e criou uma escola seguida, entre outros, por Curtis Hanson e o seu não menos notável LA Confidential (obrigando Russel Crowe a ver o filme vezes sem conta).

 

Ray tinha já consolidado o seu papel em Hollywood de forma definitiva. Mais tarde Godard seria conclusivo, para ele o cinema "era Ray". Bogart estava mais perto do fim do que imaginava. Mas a parceria de ambos com aquela escura Los Angeles como cenário de fundo marcou uma obra que define bem o rico periodo de transição vivido pela Hollywood dos 50. Nomes da velha guarda, nomes para uma futura nova guarda, um autor arriscado e uma produção independente (crime de lesa majestade que impediu Bacall de o acompanhar), In a Lonely Place transformou-se com o passar dos anos para redefinir um rumo a seguir. Uma obra perfeita como muito poucas.   


Autor Miguel Lourenço Pereira às 08:54
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