Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Os 10 filmes de 2008

A essencia do cinema, seja como arte seja como indústria, é o resultado final de um labor que vai desde o primeiro rascunho do guião até ao último plano editado: o Filme. Em 2008 não vivemos propriamente um ano de grande colheita como já aconteceu no passado, mas mesmo assim ficam filmes que vão rapidamente tornar-se parte da história do cinema. Esta lista de dez titulos tenta resumir da melhor forma as dez principais obras que estreram nas salas portuguesas em 2008.

 

10

The Mist

 

Há poucos escritores com tanto sentido cinematográfico com Stephen King. Tem várias obras adaptadas ao grande ecrã, e a verdade, é que a maioria delas se tornam filmes apaixonantes. Ocorre exactamente o mesmo com este The Mist. O realizador é Frank Darabont, curiosamente o responsável de adaptar aquele que é hoje o livro de King com mais exito cinematográfico, The Shawshank Redemption. No elenco não há estrelas e no filme não abundam os efeitos especiais. Mas o que está sempre presente, é o medo. Há uma cena em The Bad and the Beautiful onde Kirk Douglas explica qual o truque essencial para provocar medo no cinema. E Darabont parece dominar bem a técnica. O filme descorre com uma fluidez admirável para os dias de hoje, e é de uma honestidade impressionante. Não se põe em bicos de pés mas também não se envergonha de ser um filme de género. E é um óptimo exemplo de excelencia cinematográfica.

 

9

El Orfanato

 

Se a nivel dos géneros mainstream (ou seja, drama e comédia) o cinema espanhol continua demasiado dependente da fama conseguida por Pedro Almodovar a verdade é que o cinema de terror espanhol está a viver uma época alta. O último exemplo vem da mão de um estreante, Juan Antonio Bayona, que assina em El Orfanato um fascinante retrato de desespero e obsessão com um traço fantástico demolidor. Seguindo um pouco a estética lançada por Alejandro Amenabar em The Others, neste filme também encontramos uma mulher como eixo central (parece que no cinema de terror elas funcionam melhor na invocação do desespero) de uma história com contornos bem reais. Um filho que desaparece, uma lenda negra que se converte em cruel realidade e um mundo paralelo que volta para assombrar os mais cépticos. Não é propriamente um filme para meter medo (mas consegue). É essencialmente um filme para tentar descifrar o imenso desconhecido que é o poder da mente humana.

 

8

007 Quantum of Solace

 

É impressionante como as coisas podem mudar de um momento para o outro. Estava à vista de todos que há anos que 007 definhava tristemente em filmes aborrecidos e sem nenhum interesse. A personagem vendia mas a ideia de excelencia era constantemente posta de lado. E de repente um volte face chamado Casino Royale demonstrou que aqueles que se rendiam a fenomenos como o de Jason Bourne, podiam ter em James Bond um equivalente bem mais interessante. A nova saga de 007 com Daniel Craig a dar forma a um agente rude, indisciplinado e mais masculino que nunca, é um dos achados dos últimos anos. A imagem de glamour de Brosnan já parece corar de vergonha quando ve Craig irromper pelo ecrã. Apesar de ser um filme com mais acção e menos narrativa que o antecessor, é impossivel ver Quantum of Solace e não pensar nele como parte de um diptico com Casino Royale. Não chega ao mesmo nivel mas mesmo assim é um exercicio cinematográfico apaixonante que prova que o cinema de acção está bem vivo e recomenda-se.

 

7

Entre Les Murs

 

Triunfou em Cannes e conseguiu assim chamar a atenção do Mundo. Mas mais do que o glamour de ser um filme multi-premiado, Entre Les Murs é um dos mais apaixonantes exercicios de reflexão sobre a sociedade contemporanea. A heterogeneidade dos actores amadores de Laurent Cantet é genuina e um espelho que reflecte bem o quão dividida está a sociedade de hoje. E na dificuldade de encontrar um ponto de convergencia no dialogo, o cineasta cria um dinamismo apaixonante sobre a forma de uma espécie de torre de Babel juvenil onde todos falam e poucos se parecem entender verdadeiramente. É entre os muros da escola que se establecem as premissas da vida que decorre para lá dos muros. E mais do que um centro de cobais do futuro, a escola, hoje, mais do que nunca, é a chave de uma sociedade ainda à procura de um rumo.

 

6

Sweeney Todd

 

Tim Burton volta ao ataque com mais um dos seus fabulosos delirios. Um cineasta que não tem equivalente nas últimas gerações, um George Meliés contemporaneo, Burton é capaz de arrancar dos palcos da Broadway um musical com o peso de Sweeney Todd e transforma-lo num filme inteligente e extremamente sóbrio, apesar de todo o exagero que o rodeia. Um trabalho de precisão metódica, tanto na concepção do espaço e plano como na direcção da troupe de artistas. E onde outros "autores" acreditam que a forma é suficiente, Burton acredita que o miolo do filme está na forma como os seus interpretes tornam credivel o seu "Mundo". Daí que a colaboração inevitável com Johnny Depp seja, uma vez mais, a pedra angular de um filme que pode não possuir o nivel de genialidade das suas grandes parcerias mas que demonstra que há mesmo espiritos livres que nasceram para trabalhar juntos.

 

5

No Country For Old Men

 

Foi o filme mais premiado do ano. Óscares, Globos, prémios da critica...mas a verdade é que No Country For Old Men não traz nada de novo a não ser o facto de comprovar a qualidade de toda a cinematografia anterior dos irmãos Coen. O que está aqui já existe em Fargo e nas suas obras mais ácidas. Uma violencia desmesurada, sem provavelmente o mesmo controlo estético que possuem os últimos Cronenberg, e um conjunto de personagens que vivem intensos conflitos interiores. De um lado um assassino em serie que acredita ser uma espécie de reencarnaçao do destino, capaz de decidir com uma moeda ao ar a vida de uma pessoa. Do outro, um policia, também ele com um passado negro, que se encontra incapaz de entender o ritmo violento do seu mundo. E no meio o tipico "white trash" em versão sulista que se encontra no meio desta encruzilhada devido a uma mala com dinheiro de traficantes. O trabalho de Roger Deakins capta a aridez do deserto e da alma humana num mundo onde a tiro se resolvem os problemas que de outra forma parecem não ter solução. Os Coen sempre foram provectos em desmistificar o uso das armas e da violencia, olhando para elas como um reflexo natural da sociedade norte-americana. No Country for Old Men é isso mesmo, mais um retrato social da America escondida e selvagem.

 

4

3:10 To Yuma

 

Sempre que se diz que o western morreu comete-se um grave erro. O western - a expressão artistica maxima do cinema norte-americano - já não é o crowd pleaser do grande público como foi até aos anos 60. Mas não porque a sua estética e ideais fossem ultrapassados mas sim porque o mundo urbano transportou os seus conflitos emocionais e os seus duelos entre o Bem e o Mal para as ruas onde vivia, para as cidades. E daí o irromper do cinema de acção e dos thrillers a partir dos sessenta. Ao western restou-lhe então um punhado de bons nomes que tem sido capazes de o manter vivo, apesar de tudo, com filmes como 3: 10 To Yuma. Apesar de um remake de um velho clássico, este é um filme dos dias de hoje. Traz consigo o dinamismo, a critica social e a humanidade que talvez faltassem a muitos filmes dos 50 ou 40. Mas também ressuscita o velho espirito de coragem e camaradagem que fez do western um simbolo do sonho americano. Dirigido soberbamente por James Mangold, o filme vive do show de Christian Bale e Russell Crowe, dois actores contemporaneos que sobreviveriam no meio de todas as estrelas do passado, sem perder brilho. E é essa a ideia que fica com este filme. Longe de um mero revival do genero, este 3:10 To Yuma tem tudo para ser um filme capaz de lutar com grandes titulos do passado como um dos mais fascinantes westerns da história.

 

3

Gomorra

 

Mais do que a polémica que criou, Gomorra é um exercicio de violencia psicológica abrumador. Não é o tipico filme de máfia a que The Goodfather nos habituou (e que Scorsese, De Palma e outros se fartaram de emular, para não dizer, copiar, em grande parte da sua filmografia). É um filme acima de tudo realista porque bebe directamente de um relato apaixonante vivido na primeira pessoa de um mundo onde o glamour e o cavalheirismo não tem lugar. Aqui luta-se para sobreviver vinte e quatro horas por dia e quando a solução é morrer ou matar, a escolha não se revela dificil. O filme é um exercicio cinematográfico fascinante na medida em que consegue conjugar um excelente aproveitamento do espaço com uma força narrativa intensa que dá asas ao elenco para se transportaram literamente para dentro de personagens que não são nem boas, nem más. Estão vivas - as que sobrevivem - e isso é o que lhes importa. Herdeiro natural dos filmes neo-realistas da década de 40, Gomorra vive despojado de artificios e maneirismos. A vida é cruel e sanguinária e quem o assume estará sempre um passo adiantado em relação aos outros. 

 

2

WALL-E

 

O cinema de animação é quase tão antigo como o cinema em si, mas cento e tal anos depois ainda é dificil para as pessoas olharem para um filme animado e levarem-no verdadeiramente a sério. Mesmo os mais aplaudidos filmes de animação da Disney eram sempre vistos como fábulas infantis, quando eram muito mais do que isso. Com WALL-E não há que enganar. Estamos diante de uma história que vale ouro, uma realização soberba e uns desempenhos apaixonantes, apesar de não haver actores fisicos, só personagens...e que personagens. Mais do que a mensagem ecologica clara que o filme transmite, há muita psicologia e antropologia na analise a WALL-E. É um filme acima de tudo sobre a Humanidade e como esta sobrevive, não através das pessoas, mas graças um simples robot, capaz de despertar as consciencias de quem está adormecido. Adormecido por este mundo empresarial e corporativista que nos tem a todos a viver em pequenos casulos alheados do que se passa fora do nosso quintal. WALL-E não é o filme perfeito mas é um filme fabuloso e que não pode ser deixado de lado apenas por ser parte da nossa imaginação.

 

1

The Dark Knight

 

O cinema é vida. É movimento. É sensação. É paixão e ódio de mãos dadas. E é acima de tudo, mais do que arte, mais do que entretenimento, um meio para rasgar a alma do adormecido e elevar aos céus o aventureiro. E se existe algum filme em 2008 capaz de despertar o mundo a gritos, esse foi The Dark Knight. Seja pelo trabalho absolutamente notável de direcção de um cineasta genial rodeado de uma equipa de técnicos de primeiro nivel. Seja pelo elenco estelar e humano onde é complicado eleger entre um sóbrio mas louco Christian Bale e um lunático tão tranquilo como Heath Ledger. Seja pelo argumento escrito sem mácula ou por toda a recriação de um mundo, que apesar de irreal é um espelho bem certeiro do mundo ocidental em que vivemos, The Dark Knight é um filme inimitável. Um herdeiro directo do cinema noir, um épico visual e humano impressionante e um filme de actores, tudo ao mesmo tempo. Completo, apaixonante, TDK marca um ponto de viragem na história do cinema de acção e aventura. Tira de um canto escuro as (boas) adaptações do universo comic e mostra que um filme inspirado no heroi criado por Bob Kane tem tanto valor como Hamlet ou Aquiles. Quando o importante é transmitir a emoção do momento, apenas temos que fechar os olhos e imaginar...e a magia faz o resto. E The Dark Knight é magia pura!

 

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 13:39
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