Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

2010 - Os Filmes do Ano I

 

 

 

The Town

 

Profundo exercico de profundidade filmica, em The Town houve uma tripla confirmação. Que Jeremy Renner é um grande actor em potência. Que Ben Affleck é um grande realizador em potência. Que o cinema dos Eastwood e Scorsese terá sempre herdeiros em potência. O que The Town consegue criar é um espirito de regresso ao passado, ao bom cinema heist, que conheceu a sua última belle époque na década de 70. O filme da crueza humana, relembrando os dias de um tal Scorsese em Mean Streets e de Eastwood em Mystic River. E relembra que Hollywood pode e sabe ser original quando quer, havendo mais do que mão de obra e ideias suficientes para criar uma dinâmica captivante do principio ao fim. Num filme profundamente masculina há exemplos femininos sólidos e bem longe dos esteriótipos, há uma profunda busca de redenção e um retrato de dor e impotência que se estende hoje a qualquer realidade suburbana do Mundo. Um filme que é, também, uma história de amor e uma promessa de que algo melhor está sempre por vir.

 

 

 

 

The American

 

Há alguma crueza no frame final de The American, uma especie de punição divina que por muito inevitável que soa não deixa de confirmar o tom amargo de cada movimento narrativo que vai acompanhando a última missão de um assassino a soldo numa aldeia perdida no meio do monte no coração de Itália. Há um padre com remorsos, uma belissima prostituta à procura de um rumo e um homem farto de ter de se esconder. No meio deste cruzar de emoções um objectivo nunca claro, uns coadjuvantes que soam a falso e um ritmo pausado, fotográfico e cinzento, capazes de transformar a solarenga Campania num prelúdio eterno do Hades. The American é, portanto, um filme imprevisível e de um ritmo muito europeu com um desempenho extremamente sólido de um actor que parece ter sido moldado para este tipo de papeis e com um cineasta que confirma ter um toque de distinsão que promete algo novo a cada twist. E em The American o que não faltam são movimentos seguros e desconcertantes. Como a vida em si mesma.

 

 

 

 

The Ghost Writer

 

Quem leu primeiro o livro de Robert Harris sabe que a tarefa de Polanski estava facilitada por uma trama muito bem estruturada com base numa ficção que não dorme muito longe da realidade. O excelento argumento do autor britânico abre as portas para um thriller noir intenso e sereno que o realizador polaco sabe manobrar com a precisão de um relógio, controlando os tempos e os segredos com a certeza de que o caminho final é um só e que os atalhos acabarão todos por mergulhar na avenida principal. Se Ewan McGregor exacerba o seu habitual ar de espanto a cada frame, Pierce Brosnan confirma-se como um eterno seductor e rapta a camara com facilidade dando uma profundidade à narrativa filmica que a obra escrita não possui. Rei dos filmes europeus do ano, The Ghost Writer caminha quase sempre pela estrada certa e mesmo os solavancos que surgem pelo caminho apenas servem para preparar o espectador para tudo menos para o final, destilado como um whisky forte, não apto para os mais débeis.

 

 

 

 

An Education

 

O cinema britânico sempre teve um toque de subtileza que lhe permite mergulhar no universo social com mais certezas do que dúvidas, fugindo do existencialismo continental e da falsidade norte-americana. Esse respeito pelo real e essa absorsão do mundano permitem que, de tempos a tempos, surjam obras da talha de An Education.

A dinamarquesa Lone Scherfig pegou num guião do muito britânico Nick Hornby sobre uma adolescente seduzida pela Londres do twist (e não só) e montou um filme delicioso e mordaz onde a critica social da mentalidade fechada dos ingleses dos anos 50 encontra já o eco da liberdade que os swinging sixties iriam proporcionar aos mais ousados. No meio desse turbilhão de emoções e dúvidas surge a imagem chocantemente apaixonante de Carey Mulligan. A jovem rapariga do frame 1 dista muito da emancipada mulher do frame final. Pelo meio assistimos a um filme profundamente feminino e sedutoramente humano que acenta, e muito, na qualidade interpretativa da grande revelação do ano cinematográfico, uma verdadeira lufada de ar fresco que ajuda a relembrar que, no cinema como em tantas outras coisas, os ingleses têm um toque muito especial.

 

 

 

 

10º

Invictus

 

Clint Eastwood tem um toque de classe que o torna especial. Qual rei midas, qualquer projecto que toque, por muito inverosímel que soe, torna-se um filme obrigatório de ver, rever e pensar. Até mesmo a sua primeira aventura no mundo do desporto (e num desporto tão pouco americano) se transforma numa épica humana que faz todo o sentido para quem seguiu a evolução na carreira do último dos clássicos norte-americanos. Com um dos seus actores fetiches (Morgan Freeman como o ponderado Nelson Mandela) e o redescoberto Matt Damon (que repescou para Hereafter), o cineasta montou na perfeição o cenário em que se encontrou a África do Sul do pós-apartheid, onde o desporto serviu, mais do que nunca, para unir os dois pólos raciais que se enfrentavam no país. Um filme terno, intenso e filosófico, misturado com belas sequências de acção e um ritmo captivante, Invictus é sem dúvida um marco cinematográfico no ano que termina e uma confirmação absoluta de que a filmografia de Eastwood se aprimora a cada ano que passa.

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 11:54
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5 comentários:
De Diogo Figueira a 30 de Dezembro de 2010 às 15:03
Gostei do The American porque superou as expectativas (espera tiros e americanada). Mas depois desiludiu porque, ao ir num grande caminho, faltou-lhe qualquer coisa. Como cheguei a dizer no blog, acho que foram buracos que o argumento deixou abertos, ainda que intencionalmente.

An Education, que já conto como filme do ano passado, foi um dos quatro filmes aceitáveis na última edição dos Oscares. Houve o grande Inglorious Basterds, a surpresa District 9, o agridoce A Serious Man e o gostável An Education. Adorei o ambiente e a Mulligan mas gostava que o argumento tivesse sido mais arrojado.

Não gostei muito de Invictus.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Dezembro de 2010 às 15:14
O The American tem claros problemas de argumento, é filme que se apoia mais na estética e no savoir fair de Clooney do que na coerência. Mas como experiencia cinematográfica, vale a pena.

O problema com os filmes de 2009 estreados em 2010 é mesmo esse, o Invictus e o An Education são casos claros. O primeiro é um bom filme de Eastwood o que é quase sempre superior à média e o segundo uma lufada de ar fresco na forma de Mulligan.

um abraço


De Tiago Ramos a 30 de Dezembro de 2010 às 15:19
Ora bem:

INVICTUS: não consigo incluir em nenhuma parte da lista dos melhores filmes do ano. Tudo bem que não é um filme terrível, mas tem tanto cliché, é um dramalhão sem grande profundidade, a meu ver. Desiludiu-me mesmo muito.

AN EDUCATION: Tem o seu quê de sensível e ingénuo que me faz gostar tanto deste filme. E depois tem Carey Mulligan. Um dos meus preferidos. Belo.

THE GHOST WRITER: Um dos meus principais filmes favoritos. Um thriller clássico, um Polanski intenso, bem escrito, onde até a mansão e a banda sonora quase funcionam como personagem própria. Genial.

THE AMERICAN: Muito bonito e bem realizado, mas o argumento perde-se bastante a dada altura e por isso foi uma desilusão.

Ainda não tive oportunidade de ver A CIDADE.


De Diogo Figueira a 30 de Dezembro de 2010 às 15:24
Estamos de acordo quanto ao The American.

Quanto ao Invictus, achei mesmo insalubre. Muito abaixo de outro do Eastwood que adorei, e que acho muito subvalorizado, Gran Torino.

Esqueci-me falar de Ghost Writer. Como dizes, o argumento estava "feito". Mas o Polanski deu-lhe uma excelente atmosfera e o plano final do papel a passar pelas pessoas é fabuloso. Gostei.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Dezembro de 2010 às 15:50
Mas é que o Gran Torino é uma obra-prima, nada que ver ;-)

O Invictus é um bom filme, nada de extraordinário, mas mesmo assim muito superior à média. O Ghost Writer tinha uma boa base de trabalho mas Polanski trabalha-o efectivamente muito bem. Ao contrário de American que funciona melhor a atmosfera do que a narrativa.

Quanto ao An Education não é fácil não gostar, tendo em conta que por lá anda Carey Mulligan ;-)

um abraço a ambos


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