Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

The King´s Speech - O Homem que não queria ser Rei

O máximo que se pode pedir a um filme é que seja honesto. E The King´s Speech cumpre esse requisito na totalidade. Não é um filme rompedor nem procura inovar. Caminha sobre o seguro e fá-lo com um requinte especial. Deambula entre o sentimentalismo e a comédia com a certeza de apresentar as doses certas de cada. E é, seguramente, um dos mais belos filmes do ano. Um filme que vale a pena contemplar tal e qual pelo que é e nunca pelo poderia pretender vir a ser.

 

 

 

A honestidade é algo que parece cada vez mais raro e dificil de se encontrar no mundo do cinema. Entre productores e cineastas pretenciosos, sempre preparados para dar um passo maior que o próprio pé, há poucos sobreviventes que ainda encaram um filme como um projecto acabado, sem pensar no que pode vir a ser ou como poderá ser avaliado e imortalizado. Tom Hooper é uma dessas raridades.

Já o tinha antecipado com o sedutor e simples The Damned United e sobe agora mais um degrau na sua curta mas promissora carreira. A fleuma e segurança britânica transpira um sentimento de tranquilidade a cada frame. Sabemos que não iremos mergulhar numa atração de feira, nesse redemoinho de altos e baixos. Não. Temos a certeza que o filme será linear, horizontal e preenchedor. E não falha na promessa inicial.

O cinzentismo da Inglaterra real do pré-guerra lembra bem o cinzentismo do futebol inglês dos anos 70. Algumas caras repetem-se (originalissimo o Churchill de Timothy Spall), mas é o espirito que conta. O mesmo espirito que deixa claro que The King´s Speech não é um filme sobre a monarquia inglesa, sobre a familia real ou sobre os deveres de um rei à frente de um país perto do abismo. Hooper montou um filme sobre um discurso (inicial) que não pode ser lido e um discurso (final) que é superado. E essa será a mecânica da obra, a superação individual de um homem que não consegue discursar e que, hellás, é também a superação individual de um homem que não quer reinar. Duas circunstâncias directamente relacionadas e que acabam por desembocar no encontro certeiro com Lionel Logue, um homem que nunca teve a oportunidade de reinar no seu mundo (os palcos) e que passou a vida a dar aos demais a auto-confiança que nele, evidentemente, sobra em doses consideráveis.

 

A partir daí o cinema brota com naturalidade dos gestos, palavras e actos de um filme que é, acima de tudo, um filme de actores.

O argumento é belissimo e David Seidler merece o reconhecimento pela forma despretensiosa com que trata não só as suas personagens mas, principalmente, as situações onde elas se movem. A direcção de Hooper é certeira porque sabe quando abusar do génio e quando apurar o ingénio, mantendo sempre a dose certa para evitar cair na lágrima fácil (às vezes algo dificil) ou na gargalhada slapstik (muito mais dificil ainda...). Quando os autores se colocam na sombra, os actores tomam o palco. O que The Social Network não consegue ser - um filme de representação, de construção, de actuação - The King´s Speech é-o em toda a regra, do mais insignificante dos papeis (Michael Gambon, Derek Jacobi ou Guy Pearce, imensamente reais) ao imenso duelo entre o britânico Colin Firth e o australiano Geoffrey Rush.

Se Rush é, sem dúvida, um dos actores mais marcantes das últimas duas décadas, herdeiro de um savoir faire teatral e profundamente agudo - o seu Logue é a alma do filme, o motor que o coloca na rota certa - já Firth confirma, um ano depois do seu brilhante A Single Man, que por detrás do heroi "austeniano" dos primórdios da sua carreira cinematográfica está um verdadeiro constructor de mitos. A forma como agarra pela alma o tormentado Albert, duque de York e o transforma no responsável George VI, rei de Inglaterra, é um dos exercicios filmicos mais fascinantes do ano que finda. Uma performance que toca na medula, que transporta uma série de ideias criticas a um ideal, o monárquico (somos uma empresa dirá ao seu moribundo pai) que entra em confronto directo com a solenidade da sua existência. Ao contrário de frigida Mirren em The Queen, aqui Firth torna o pai da actual rainha inglesa num homem comum, humano e profundamente tocado pelo desânimo, pela descrença e pelo abandono. A forma como o ergue da penumbra e o faz passar desse primeiro discurso (falhado) a esse último (inspirador) é também um profundo sinal de crença no Ser Humano, um sinal de franco optimismo na penumbra britânica que nunca deixa a tela, mesmo quando a notável composição sonora lhe dá toques de ópera imortal.

 

 

 

The King´s Speech é, portanto, um filme verdadeiro e palpável, herdeiro da escola britânica da sobriedade e humor cáustico, que nunca quer ser mais do que o que é. No meio de tudo, enquanto Colin Firth arranca o coração ao espectador e Geoffrey Rush faz o mesmo com o critico, as luzes da sala abrem-se, fatuamente, deixando a certeza inevitável de que na verdade tudo aquilo era só um filme. Um filme que vale o preço do bilhete, um filme que vale os minutos passados, um filme que cumpre com tudo aquilo que dele se espera. Um filme portanto, algo que tão poucos productos cinematográficos podem lograr dizer ser hoje em dia.

 

Classificação -

 

Realizador - Tom Hooper

Elenco - Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham-Carter

Productora - Weinstein Co.

Classificação - m/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 03:16
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2 comentários:
De Tiago Ramos a 19 de Janeiro de 2011 às 11:19
Concordo, é um filme brilhante, formal, honesto. É uma trama linear e assume-o sem problemas, sendo meio caminho andado para a aceitação absoluta por parte do público e crítica. A fotografia é interessante, tem ainda uns planos deliciosos e interessantes e uns jogos de luz originais. Mas o elenco esse sim é belo. Colin Firth - a comprovar que é um dos melhores (embora continue a preferir o seu desempenho em A SINGLE MAN), Helena Bonham Carter


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Janeiro de 2011 às 11:47
Imenso elenco sem dúvida Tiago e não nos podemos esquecer da banda sonora, clássica mas sempre a entrar no tom certo e no momento certo.

É um filme que não inova mas que não destoa de uma velha e boa tradição made in England.

um abraço


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