Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

Black Swan - Asfixia humana

um ritmo psicadélico que entranha quando as vibrações modernistas do Baile dos Cisnes se mesclam com o rosto, a chave de todo o filme, de Natalie Portman, em estato de êxtase total. A loucura que rodeia a transformação de uma bailarina é o pano de fundo para que Darren Aronosfky continue na sua pugna constante sobre o obscuro lado humano até à exaustão da auto-destruição...

 

 

 

Pode dizer-se que Black Swan é a história de uma bailarina inocente que redescobre o seu lado mais obscuro. Mas isso não seria verdade.

Como a obra original, a mesma que ofereceu noites inesqueciveis de ballet ao longo das décadas, o lado negro só pode emergir porque já lá está, escondido, no coração de cada ser humano. Aronofsky, desde Requiem for a Dream, tem-se esforçado em explorar esse lado negro da Humanidade dando-lhe protagonismo, alma e razão de ser. Os auto-destructivos são a base do seu trabalho e assim foi nesse perturbador filme de 2000 da mesma forma que assim se reinventou em The Wrestler. O projecto que lhe devolve à ribalta é antigo, era sobre um ensaio teatral e tinha uma origem bem diferente do que se pode imaginar. E então chegou Natalie Portman e fez do filme seu. Mas se a actriz conseguiu montar um espectáculo à sua volta, espectáculo esse que lhe pode valer o bilhete de entrada para a realeza de Hollywood, quinze anos depois de Leon, the Professional, o lado negro de Aronofsky continua a dominar cada frame, cada sequência, cada grito mudo.

Para muitos o filme baseia-se no desempenho soberbo de uma actriz de muito potencial (Garden State, Closer já o tinham sugerido) mas Black Swan é muito mais do que isso. É, sobretudo, um filme de autor sobre autores. O autor da nova encenação (soberbo, Vincent Cassell), os autores dos passos nos palcos passado (Winona Ryder, resgatada tenebrosamente), do presente (a frágil Nina portmaniana) e futuro (essa visão sugerente e alada chamada Mila Kunis) e os autores fracassados (Barbra Hershey, imensa, como mãe controladora e bailarina fracassada). Esses autores dos seus pequenos mundos interlaçam-se numa história que caminha para um final inevitável do qual poucos conseguem sair com vida. Ou, pelo menos, com total sanidade mental.

 

Nina percorre todos os caminhos da auto-destruição dentro da sua mente. Fisicamente as consequências são insignificante porque a música continua a rolar no seu cérebro a cada instante. O sentimento de culpa emerge em cada momento como uma expurgação dos seus pecados mentais, como de um exercicio de auto-flagelação se tratasse.

A impotência sexual, inspirado num amor não correspondido com um homem que procura sacar a mulher que há dentro dela, transforma-se num monstro invisivel que a transforma numa pecadora masturbadora ou numa apaixonada lésbica, momentos que o seu cérebro recria para tapar o prazer negado de cada movimento da sua personagem no palco. A mãe asfixiante é assassinada, mentalmente, vezes sem conta, quebrada em mil pedaços, no meio da sua também obsessão, por emergir como o lado negro do seu partiular espelho roto. E depois há Lilly, o seu alter-ego (a escolha do casting não foi inocente, bastando para isso ver as semelhanças fisicas entre Winona, Natalie e Mila), o seu objecto de desejo, sedução e ódio. A mulher que ultrapassa os limites, a mulher que vive ancorada no prazer é também a sua rival interior, o espelho de toda a sua negatividade melancólica. O exercicio de auto-destruição começa e acaba nessa busca pela perfeição, nesse leit motif castrador que encerra Nina em si mesma e impede de se encontrar com o seu lado negro. Se para ela o lado branco é o seu estado normal exterior, o lado negro é a sua viva obsessão interna. E por aí caminha o ritmo da narrativa, negra, seca, dinâmica e imperdoável.

Aronofsky pauta o ritmo de Black Swan repetindo-se até à exaustão da mesma forma que a histeria vive num eterno loop. A imensa banda sonora, tocada vezes sem conta, funciona para Nina como o gotejar do sangue nas veias num fluxo inevitável. Quando o sangue/os acordes terminam, o resto perde todo o sentido. E por isso todo o filme caminha, vorazmente, para esse sopro final. De inocência. Mas também de perdição.

 

 

 

Portman é imensa nesse espelho de auto-destruição, nessa construção de desconstrução, mas ao contrário do que se pode imaginar, é no leque de secundários que se encontra o verdadeiro espelho motivador de Black Swan. Kunis é como um refrescante soberano, Hershey e Ryder transformam-se facilmente em demónios humanos e Cassell, sobretudo ele, quem pauta o ritmo dessa corrida contra o fim. Cercada, asfixiada e mergulhada em si mesma, Natalie Portman é o resto. O que não é dizer pouco, não fosse ela, sobretudo, e ao contrário de Nina, o perfeito lado negro da humanidade...

 

Classificação -

 

Realizador - Darren Aronofsky

Elenco - Natalie Portman, Vincent Cassell, Mila Kunis

Classificação - m/16

Productora - Fox Searchlight

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:26
Link do texto | Comentar | favorito
11 comentários:
De Pedro a 28 de Janeiro de 2011 às 10:47
Bom dia,

O Cinema está novamente em destaque nos Blogs do SAPO, em http://blogs.sapo.pt

Boa continuação!

Pedro


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Janeiro de 2011 às 15:44
Pedro,

Como sempre, obrigado, e um grande abraço!



De King Mob a 28 de Janeiro de 2011 às 12:27
Mais uma análise que leio do filme que me deixa positivamente a salivar por ele. Só mais uma semaninha...só espero que a qualidade do filme esteja ao nível da do teu post ;-)


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Janeiro de 2011 às 15:44
King,

Certamente que a qualidade do filme é superior à do post, principalmente a banda sonora e o trabalho de edição da equipa directiva.

Quanto às performances, de primeira, mas o meu conselho é não focar tudo em Portman para apreciar o belo elenco secundário que a rodeia.

um abraço


De Sara a 28 de Janeiro de 2011 às 20:07
Parabéns pelo destaque :)


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Janeiro de 2011 às 08:15
Olá Isaa,

Obrigado pelo comentário.

:-)


De Amigos do Concelho de Aviz a 29 de Janeiro de 2011 às 18:26
A cultura deve ser preservada a todo o custo. Por isso peço desculpa por vir ocupar este espaço que é seu para, juntos, divulgarmos os IX JOGOS FLORAIS DE AVIS, cujo regulamento já se encontra disponível em www.aca.com.sapo.pt
Obrigado.
Fernando Máximo/Avis


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Janeiro de 2011 às 08:16
Caro Fernando,

Boa sorte com a vossa iniciativa de preservação do nosso património cultural colectivo.

Um abraço


De gatinhafofa a 30 de Janeiro de 2011 às 15:57
acho que este vai ser um pessimo filme. muitos parabens pelo destaque. podes ver a minha selecção de filmes em http://cinemasobrecinema.blogs.sapo.pt beijinhos,bom resto de domingo para ti amigo!!


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Janeiro de 2011 às 08:17
Cara GatinhaFofa,

Obrigado pelo comentário e sorte para o seu projecto.

cumprimentos


De gatinhafofa a 30 de Janeiro de 2011 às 15:59
já agora se gostares de gatos podes ver a sua classificação completa em http://vidadosanimais-vida.blogs.sapo.pt e por favor não te esqueças de comentar


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