Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

The Fighter - Actores, a jangada de pedra

Um filme moldeado totalmente no formato televisivo que bem podia ser uma peça de teatro. No meio do salto do palco para o pequeno ecrã há poucas oportunidades para descobrir onde está o sentido cinematográfico em The Fighter. Mas se o trabalho de David O. Russell é, imaginamos, um exercicio propositado de afirmação do modelo cine-televisivo, o trabalho genial do elenco escolhido transforma esta raposódia americana num exercicio teatral fascinante.

 

 

 

White trash. Suburbios desolados. Casas pré-fabricadas. Ginásios decrépitos. Familias brancas, numerosas e sem sentido na vida?

The Fighter podia funcionar perfeitamente, na sua premissa, como um alinhamento de um qualquer talk show matinal americano, um verdadeiro piloto para um programa que queira seguir a estela de Oprah Winphrey. Ser um caso real (e Russell faz-nos o "favor" de nos lembrar no principio e no fim, mostrando os rostos reais dos personagens principais) só ajuda a reforçar esse espirito excessivamente televisivo que rodeia o filme. Afinal a televisão americana dos anos 90 não difere muito da actual e histórias como a de Micky Ward e o seu irmão Ricky Eklund são o prato perfeito para essas tertúlias suburbanas. Acompanhar os combates de boxe com a péssima qualidade de imagem que ofereciam as televisões dos anos 90 só reforça a estética que segue o filme do principio ao fim. Cenários pobres, dinamismo nulo e uma necessidade de reduzir ao básico tudo o que pode ser considerado dispensável. Nesse sentido, o filme de Russell é menos um filme e muito mais um telefilme desinspirado, repetitivo e até aborrecido nos momentos, teoricamente, mais emocionantes. Os combates são mornos, a banda sonora sonolenta e não há um único plano cinematográfico que fique na retina. Tudo nesse formato concentrado, quase como o documental com o que nos encontramos ao largo do filme, que resume bem a fórmula de sucesso que procura Hollywood: pequeno, barato e tocante. A consagração do filme junto dos pares (a nomeação de um realizador tão desinspirado para os Óscares ou para o DGA à frente de verdadeiros artesões já nos indica a que ponto chegamos) é apenas a conclusão desse raciocinio que, de há vários anos para cá, vem ganhando forma e força. The Fighter podia ser, perfeitamente, trash tv.

 

Mas depois há os actores. Hollywood deve muito aos seus melhores realizadores. Ao génio de Ford, Wilder, Grifith, Capra, Cuckor, Copolla, Scorsese, Hawks ou Eastwood. Mas deve muito mais aos seus actores. Foram eles a base do sucesso do star-system que criou o sistema de estúdios. E são eles que aguentam, financeiramente, um barco que se parece cada vez mais a um Titanic isolado no meio do Atlântico.

Se Russell oferece o The Fighter televisivo, o seu elenco aposta no The Fighter teatro. E a fórmula funciona, perfeitamente. Se não há um grande trabalho técnico e cinematográfico, sobra o tempo para a troupe de protagonistas e secundários brilhar. E se brilham.

Quatro desempenhos assustadoramente magnéticos lembram o ritmo demoniaco de uma qualquer obra teatral de Tenesse Williams. O boxe é o pretexto para mergulhar neste relato de fracassados da vida que conseguem, bem à americana, dar a volta ao destino e pregar-lhe uma partida. Uma mãe asfixiante, controladora e má rez, profundamente má rez, vive na ilusão que o seu filho mais velho, um viciado em crack com sentido de humor crónico e uma falta de amor próprio desesperante, algum dia voltará a ser alguém. Entretanto, ambos, vivem aos ombros do retonho mais jovem - e vamos aqui esquecer as sete filhas, cada qual o exemplo perfeito do white trash feminino que define a América que o glamour das revistas escondem tão bem mas que fazem a delicia dos criticos europeus - um jovem esfingico, sem caracter e que podia ter passado a vida toda a asfaltar estradas não fosse o boxe uma profunda obsessão. Por sua vez este, perfeito exemplo desse desespero urbano, apaixona-se por uma jovem igual a ele, falhada na vida entre bebidas e tatuagens criteriosamente colocadas sobre o seu corpo, mas que está determinada em assumir o leme da sua existência. O boxe - e a ascensão da carreira de um jovem zé ninguém a campeão do Mundo - serve de pano de fundo mas é a crueza dos diálogos e a forma como Christian Bale, Melissa Leo, Amy Adams e (em muito menor medida) Mark Whalberg, dão um sentido carnal a todos estes personagem vazios de profundidade, que faz deste filme algo a ser recordado. De todos eles, Christian Bale emerge como algo absolutamente especial. Ele é, sem dúvida, o mais que provável sucessor do genio de Daniel Day-Lewis, capaz de transformar-se não só fisicamente - o que já não é pouco - mas espiritualmente, numa personagem tão odiável como entranhável. O filme é seu, ao contrário da história, e por isso funciona como uma segunda corrente de vida quando só a ascensão de Ward seria pouco mais do que suficiente para uma boa sieste cinematográfica. A sua tour de force, constante e imaculada, traz The Fighter a uma nova dimensão, num exercicio mais teatral que cinematografico mas que, definitivamente, se afasta do ritmo televisivo da produção.

 

 

 

É portanto dificil julgar The Fighter sob um prisma apenas. Tecnicamente é um filme competente mas com pouco espaço para a imaginação, o que chega a ser desesperante em algum momento - o final, sobretudo, é um anti-climax tremendo. Mas, ao mesmo tempo, e como por magia, conta com um licção de duas horas de como aprender a representar que pouparia muitas longas horas de estudo ao apaixonados pela actuação. Producto hibrido, The Fighter vive, sobretudo, pelos seus actores, que continuam a funcionar como uma jangada de pedra num mundo onde há cada vez menos espaço para o resto.

 

Classificação -

 

Realizador - David O. Russell

Elenco - Mark Whalberg, Melissa Leo, Christian Bale

Productora - Weinstein Co.

Classificação - m/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:26
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