Segunda-feira, 7 de Março de 2011

True Grit - Coen vintage, fantasmas do Oeste e uma rapariga para a eternidade

sequências que são capazes de definir, por elas mesmas, filmes que entram para a história. Que marcam a diferença entre o grande e o sublime. Mas são poucos filmes os que duplicam esses instantes. True Grit consegue-o ao colo de um cavalo. O grande salto em frente de Mattie Ross a atravessar o rio avisa-nos que estamos perante algo grande. A desesperada cavalgada final faz mais do que confirmá-lo. É um verdadeiro (e simbólico) atestado de magia cinematográfica que transformam o revisitado Oeste no mais perfeito filme da filmografia dos irmãos Coen.

 

Enquanto Hollywood continua a teimar em cantar as exéquias do velho Oeste, há sempre alguma alma disposta a ressuscitar o género americano por excelência. Western e Jazz, dois productos culturais imortais da sociedade americana. Ambos tratados com reverência por grandes nomes que se resistem a vender-se ao fim inevitável que a sociedade juvenil de consumo impõe. Eastwood e os Coen são, cada qual à sua maneira, descedentes dessa velha guarda que teima em olhar para um cavalo com uma nostalgia perdida no relógio de areia.

Os que procuravam um remake de um filme entretido (e pouco mais) de Henry Hathaway - numa era onde o género era baleado anualmente pelo producto de série B que logo se tornou em género de culto - esqueceram-se que a origem desse estava num belo livro que recupera grande parte da essência destemida da saga do oeste americano. A vingança como motivo, a amizade como esteio, a destreza como arma para sobreviver. Esse True Grit, do autor Charles Portis, encantou Joel e Ethan Coen na infância e deu-lhes asas para ressuscitar Mattie Ross, Rooster Cogburn, LaBeouf e todas essas almas que o pó do Oeste engoliu na sua corrida pela sobrevivência. E devolveu-os à vida para contar, uma vez mais, como era sentir que no mundo de então era preciso ter "true grit" para encarar cada dia.

Rooster Cogburn, esse marshall impiedoso e bebado incorrigivel, tinha fama de ser um dos poucos homens ainda com a "true grit" necessária para ultrapassar o medo e a burocracia que começava a dar sinais de que ia atar a sociedade americana da cabeça aos pés. Ele cumpre, mas isso já nós o sabiamos. Sabiamos desde o seu magnifico discurso de defesa no tribunal. Sabiamos quando ele saca da pistola e ameaça o disciplinador LeBeouf. E sabiamos, sobretudo, quando anuncia a sua (falsa) partida. Ele é - sem o saber - esse espelho de um herói que não o é, de um guerreiro que nunca desiste, de um solitário que precisa de companhia para sentir-se ainda mais só. Ele é Wayne, Stewart, Fonda, Scott, Douglas, Peck e todos aqueles que influenciaram Portis. Mas é também Kid, Bill, Hoover e todos os heróis malditos do velho Oeste. Que os Coen tenham homenageado essa quintissência westerniana com a imagem de um Hércules cansado pelos longos doze trabalhos, esse incombustível Jeff Bridges (e a Academia, uma vez mais, a trocar os anos dos vencedores...era este o Óscar que realmente Bridges merecia como Firth merecia pelo seu filme do ano passado), só confirma esse sentimento de grandeza que pauta o regresso ao passado. O regresso às origens.

 

E no entanto, se True Grit é o melhor do que os Coen alguma vez já fizeram (e fizeram coisas muito, muito boas), e se no entanto Jeff Bridges é tão bom (ou melhor) do que alguma vez foi, porque é que o que fica mais depressa deste majestuoso exemplo de cinematografia tem apenas 13 anos?

É muito complicado imaginar que um filme dos Coen - com aquela inesquecível fotografia do sempre esquecido Roger Deakins - com o sublime trabalho técnico de edição da dupla criativa - possa destacar-se, sobretudo, pela performance. No passado foi sempre o guião (Fargo, Big Lebowski, Barton Fink, Blood Simple) ou a direcção (No Country for Old Men, A Serious Man) que no final - por muito bom que fosse o conjunto - que acabava por destacar. Aqui não. True Grit é grande, muito grande. Imenso. E graças a Mattie Rose. A Hailee Steinfeld.

O verdadeiro "true grit" não é - nem nunca o seria - o de Cogburn. Esse espelho maldito do Oeste não é o futuro nem o presente. É um eco shakesperiano do passado. Tudo o resto, "o grit", é de Mattie. Dessa negociadora implacável, dessa sofredora imutável, dessa beleza juvenil extasiante que seduz a Le Bouef sem que este o consiga realmente admitir, que enternece ao mais duro dos vilões (um irreconhecível e delicioso Barry Pepper) e que é que paga o verdadeiro preço de uma caça ao homem que se complica mais do que seria de esperar.

Tudo isso - ou seja, toda essa grandeza de vontade que irradia naquele olhar determinado - nasce de um talento imenso e desconhecido que os irmãos Coen souberam ler com exactidão. Aos 14 anos, Hailee Steinfeld é já, garantidamente, um nome a seguir durante muito e muito tempo. Tem aquela beleza hamiltoniana que estarrece pela naturalidade. E a genica e garra de uma Katherine Hepburn renascida das cinzas - ela que nunca gostou muito da poeira dos westerns e sempre se negou a trabalhar em Monument Valley com o seu primeiro grande amante, John Ford. Em Steinfeld - e isso é tão raro que vale a pena relembrar - há muito de Mauren O´Haara, ou seja, há muito desse espirito clássico da mulher forte do Oeste americano que, tantas vezes, eclipsa com o coração e o olhar o mais bravo acto de coragem. É ela quem dá forma e corpo à determinada Mattie - o centro de todo o filme, do passado ao futuro - e que nos deixa de água na boca para mais. Se nos últimos anos fomos brindados com um leque de grandes actrizes juvenis em potência (Ellen Page, Carey Mulligan, Jennifer Lawrence), nenhuma nos pareceu mais segura de si e do seu futuro do que a mais jovem de todas, aquela da qual mais poderiamos desconfiar.

 

 

True Grit é inesquecível do principio ao fim, um filme que ultrapassa a sua dimensão temporal e que já entrou, sem grande esforço (ou surpresa) na galeria dos westerns mais inesqueciveis da história. Merecidamente ao lado de Unforgiven, a quintissência do western contemporâneo, é um verdadeiro eco de melhores dias. Um filme do passado que caminha ao lado de um filme do futuro (Inception) nessa definição de um ano que no futuro parecerá muito mais vintage do que à primeira vista nos faz crer.

 

Classificação -

 

Realizador - Ethan Coen

Elenco - Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon

Productora - Paramount

Classificação - m/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 12:55
Link do texto | Comentar | favorito
2 comentários:
De Sarah a 7 de Março de 2011 às 13:05
Gigante falha minha, mas ainda não fui ver este filme! É possível que vá vê-lo agora na sessão das 15h. Adorei o teu texto, ainda me deu mais vontade de o ver!

Sarah
http://depoisdocinema.blogspot.com


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Março de 2011 às 14:03
Olá Sarah,

Vale muito a pena. Eu também demorei mais do que esperado para vê-lo mas perdê-lo é quase um pecado. Um dos filmes mais fascinantes da última década. Imaculado.

bom filme!


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