Quarta-feira, 9 de Março de 2011

Winter´s Bone - A América Nua

Hollywood especializou-se em vender uma imagem dourada irreal da América e passou décadas a retirar dividendos desses happy-endings, dos self-made men e do sucesso do fenomeno de emigração na busca de uma vida melhor. Como as pedras do muro de Berlim, o verniz dessa falsa imagem também estalou. Enquanto alguns continuam a tentar tapar os buracos dessa América profunda alguns bravos começama  tentar perceber até que ponto a América está nua na alma e no sangue. Winter´s Bone é uma viagem a essa nudeza emocional de um país sem rumo e destino.

 

 

 

Há filmes que só deviam ser vistos em curtas sessões de madrugada numa sala vazia ou no silêncio absoluto de um escritório pendente de cada frame. São filmes que estão para analisar a alma mais do que para desafiar o tempo e que sabem que a sua existência não ficará para a posteridade senão como uma curiosa análise sociológica de uma era que já passou. Mas os poucos que encaram essa inevitabilidade oferecem essa dimensão moral do agora que vale muito mais que tantas obras bigger than life.

Winter´s Bone começa a ver-se pelo final. Pelo final tenso e angustiante que Debra Granik - a audaz cineasta disposta a deixar a nu a crua realidade da vida do coração da América - nos prepara. A América da cosmopolita Nova Iorque, da soleada Miami, da relada Los Angeles ou da misteriosa Nova Orleães é um fantasma no meio da crua e dura realidade. A maioria dos americanos está mais perto do abismo do que se imagina. A cultura white trash, sem dinheiro para saúde, para uma casa, para um futuro, começa a saltar a nu para os ecrãs de cinema fora dos esteriótipos culturais das minorias emigrantes. Já não são só os hispânicos, negros ou descendentes de irlandeses e italianos os bodes expiatórios desse retrato cru e nu da América perdida. São brancos, são religiosos, são trabalhadores. E são escravos dessa vida de pequenos detalhes em que o dólar - ou a falta dele - decide tudo. A vida de Ree (para quê apelidos numa terra onde o silêncio é de ouro) e dos seus depende desse dólar ausente. O dólar que Jessup foi procurar pelas vias negras em que a América mergulhou. Para não voltar.

 

Há mais no filme de Granik do que não é dito do que aquilo que se sabe. O final - esse triste conto de fadas cinzento e seco - é um fim de silêncios e suspiros de um tornado que nunca amaina. A morte é mais do que inevitável nestes lados do país. O mesmo que elege os Bush do passado, presente e quiçás do futuro. O mesmo que envia para a morte os voluntariosos soldados dessa América guerreira lá fora e suicida bem lá dentro. O mesmo canto da América que cala para não sofrer a duras penas. Ree não constesta nunca o seu entorno. Aceita-o como é, ela também é parte dela, conscientemente até. Ela só quer o dólar - o corpo do pai desaparecido e morto, e ela sempre o sabe - para continuar na sua luta silenciosa. Nada mais. É o querer, mais do que o falar, que a leva a conhecer o rosto da morte. E é o apenas querer, mais do que sobretudo falar, que lhe garante que sobreviverá.

Nessa viagem pelas brumas de um país diametralmente oposto à imagem vendida até à exaustão - como se de uma aldeia distante do império Romano na sua época de glória se tratasse - que ganha forças o contorno de uma adolescente chamada a ser mulher antes do tempo. Demasiado antes do tempo. Mulher não só nas lides domésticas, no trato com os irmãos e a mãe doente. Mulher também como cabeça de uma familia à beira da catástrofe, capaz de sentir na pele as agruras do golpe ao mesmo tempo que anseia por um momento de desconexão. E mulher como o corpo escondido no enorme anorak mas que já é capaz de despertar os sentimentos do entorno masculino que a rodeia, como lobos ferozes, pronto a arrancar a parte que lhes toca. Contra essa inevitabilidade ela procura esquecer que é mulher num mundo onde o homem supostamente lidera apenas para descubrir que os homens ali estão para morrer e as mulheres para os enterrar e continuar o serviço. Ou para desenterrar o que ninguém deve ver. Só ela, como mulher, pode entrar nesse mundo. Aos outros, aos Teardrop, o titulo cocainomano e sepulcral, o destino é outro. O que não se diz. Apenas se intui. E já basta.

 

 

 

Imensa Jennifer Lawrence, uma beleza também ela profundamente americana, dessa América genuina que escapa aos esteriótipos dos estúdios e das criações plásticas e virtuais que dominam a imprensa, a sua Ree é uma personagem entranhável capaz de seguir o seu caminho deixando bem vincadas as suas pegadas no chão. Lawrence reafirma-se como uma actriz com uma projecção imensa e um nome a seguir por tantos motivos. John Hawkes, qual personagem conradiano, cala mais do que o que diz e com isso faz tudo o que há a fazer. É o alter-ego negro de uma narrativa rasgada de um país que está nu, com as mãos levantadas para o céu e um caminho de pedras por percorrer. Um caminho que a maioria continua a querer pintar de outra cor...

 

Classificação -

 

Realizador - Debra Granik

Elenco - Jennifer Lawrence, John Hawkes, Laureen Sweetser

Productora - Anonymous Content

Classificação - m/12

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:25
Link do texto | Comentar | favorito
2 comentários:
De Diogo Figueira a 9 de Março de 2011 às 21:46
Caríssimo, uma das melhores críticas que li sobre este filme, que adorei, adorei, adorei. Dos que vi de 2010, acima deste apenas "Shutter Island". Cru, despido e ainda assim emocionalmente avassalador; uma história muito bem estruturada e contada, com um climax incrível. Lawrence e Hawkes estão muito bem.


De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Março de 2011 às 08:28
Diogo,

Obrigado pela visita e pelas palavras.

É um filme profundamente emocional e despedio, como dizes bem, seco e sem subtfurgios a que se agarrar. Um trabalho de direcção sóbrio e um elenco excelente. A Lawrence tem um potencial tremendo, e uma beleza estarrecedora, e o Hawks parece sair directamente de um conto fantasmagórico, com uma aura de cowboy perdido nas estepes.

um abraço


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