Sexta-feira, 11 de Março de 2011

A Serbian Movie: o perigoso jogo da justiça!

Quando a justiça se mete em campo alheio o mais normal é que resulte em desastre. Não é nem a primeira vez nem será, lamentavelmente, a última. A Arte - seja qual seja a sua expressão - tem uma linguagem própria que não ultrapassa, em nenhum caso, os limites da própria lei. Então porque está tão interessada essa mesma lei em mexer com os designios da arte? Quando um organizador de um certame é apresentado à justiça como um criminal por exibir um filme polémico que explora realidades que existem e que estão penalizadas em muitos países, chegamos a um extremo de loucura onde tudo deixa de fazer muito sentido.

 

 

 

A Serbian Movie não é um producto novo.

Toca em campos extremos mas não propriamente inéditos e o que explora é mais o filão mediático de uma realidade que muitos teimam em esconder mas que está aí e é bem real: o "newborn" porn, o incesto, a pedofilia infantil, os "snuffmovies" estão aí para quem os quiser ver, legal ou ilegalmente. Todos anos vários projectos dentro do porno ou do cinema underground lidam com esses temas com a mão da lei sempre a tentar passar-lhes por cima. Afinal a sociedade ocidental tão democrática e liberal ainda não entendeu que uma simulação não é real e que por se filmar um determinado tema não quer dizer (muitas vezes é até o oposto) que os seus actores prediquem esses valores.

A Serbian Movie é o novo Saló, o novo Clockwork Orange, o novo Empire of the Senses, o novo Lolita, o novo Pretty Baby, o novo Extasis, ... Com uma diferença particular: é um mau filme.

Cinematograficamente a produção do cineasta sérvio Spasojevic deixa muito a desejar.

Parte de uma premissa já vista que se centra essencialmente num homem, um realizador de filmes porno determinado a deixar o meio que é convencido por um amigo a realizar um último filme (com qualidade) e que acaba envolto num meio degradante onde o sexo e a morte caminham perigosamente lado a lado até chegar a um final tremendamente chocante. Mas a técnica é rudimentar, o ritmo aborrecido e algumas das sequências acabam por se tornar previsiveis. Falando apenas de cinema e nunca falariamos de A Serbian Movie. Falando de temas polémicos e a sua inclusão torna-se obrigatória. Saló era polémico - foi provavelmente o primeiro filme a explorar a nudez adolescente sem receios - mas bem feito. Os filmes de Kubrick um pedaço de evolução cinematográfica, e até as obras de Malle e Oshima tinham um valor artistico evidente. Todos eles tiveram a lei às pernas, foram proibidos em vários paises durante muito tempo e ainda hoje ter o filme numa colecção privada inspira olhares reprovadores de visitas mais conservadoras. A sociedade é assim, gosta de funcionar sob a premissa se não vejo não tenho porque assumir que existe. Mas, curiosamente, todos esses filmes se inspiravam em temas reais. A Serbian Movie, tristemente, também.

 

Por muito repugnante que seja a simulação de uma cena de sexo com um recém-nascido ou um pré-adolescente, a verdade é que A Serbian Movie não o pratica. As sequências são - ao contrário da maioria do cinema porno - falsas, utilizando num primeiro caso um boneco mal caracterizado e no segundo um exercicio de montagem hábil. Por muito triste que seja a realidade dos "snuff" ninguém morreu realmente na rodagem do filme que se saiba ao contrário de muito do producto real que circula pela rede. Mas a intenção parece ser mais penalizadora do que a realidade e desde que chegou à luz do dia a justiça, de vários paises, tem tentado fazer do filme um exemplo. Não podendo - ou conseguindo - punir o autor, dedicou-se a punir os exibidores.

Em Espanha os problemas começaram com o festival de San Sebastian que pretendia exibir o filme mas foi proibido. Sitges, um dos mais prestigiosos festivais da Europa de cinema de terror, foi mais longe e mostrou ao público o que ninguém queria ver. Resultado? O seu director, o espanhol Angel Sala, foi acusado pela justiça do país vizinho de incitamento à pornografia infantil e à pedofilia. E pode receber um duro correctivo judicial.

O que não se percebe em tudo isto é o papel da justiça em algo que sempre será incontrável: a liberdade artistica.

A pintura medieval e renascentista, a literatura clássica e dos séculos XIX e XX sempre exploraram a violência extrema e a sexualidade juvenil de forma mais ou menos clara. A literatura principalmente, talvez por maior liberdade criativa, foi mais longe que todas as outras artes e não é dificil aos mais interessados encontrar exemplos que inspiram filmes como Salo ou A Serbian Movie. Cinematograficamente os exemplos são poucos porque os filmes são caros de fazer e têm de ser exibidos e productores e distribuidores habitualmente não gostam de correr riscos. Sala correu. Dorminsky também. O primeiro está em sarilhos, o segundo parece tranquilo. Mas só o facto de um filme levantar tanta celeuma leva a perguntar-nos como é que a justiça se arroga o direito a proibir a liberdade artistica que não causa nenhum dano a terceiros. O politicamente correcto tornou-se o santo e senha dos dias de hoje e nem a sugestão se livra do castigo. Autores como Jack Sturges, David Hamilton, Sara Manttle e Nabokov publicitários de revistas de moda como a Elle ou empresas como a Benetton e realizadores como Pasolini ou Spasojevic são vistos pela sociedade como o problema, quando apenas servem de veículo para algo que é real e foge do controlo daqueles que acreditam que tudo pode ser legislado e levado a tribunal. A triste realidade diz-nos que não, que isso não é assim. Mas tem o cinema culpa de o explicar a uma audiência maior? 

 

 

 

À custa desta histeria social, A Serbian Movie vai tornar-se forçosamente num filme de culto. Terá edições especiais em dvd que esgotarão porque muitos quererão ver o que aparentemente é tão proibido. Cinéfilos curiosos ou espectadores normais comprarão o filme provavelmente mais depressa que pedófilos ou adeptos da violência extrema. O poder dos Media garantiu ao filme que sobreviverá ao tempo quando a sua qualidade intrinseca nunca o permitira. A justiça - a espanhola neste caso - na sua corrida para defender a moral e os bons costumes conseguiu o efeito contrário. Despertar a curiosidade. E o Ser Humano continua a ter especial predilecção pela maçã do pecado. Especialmente se está podre.

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:58
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2 comentários:
De Lila a 29 de Julho de 2011 às 14:20
Excelente análise! Leio seu texto somente agora, meses depois de ter sido publicado. Não conhecia seu blog e foi uma grata surpresa tê-lo 'descoberto'. Como em outros países, o filme acaba de ser proibido aqui no Brasil, por conta de uma liminar judicial conseguida por um deputado reacionário, em nome da proteção à infância. Juízes discutem sobre "o texto da lei", deixando de lado qualquer possibilidade de bom senso, se perdendo entre a burocracia e o protocolo vazio. Opiniões rasas provêm de todos os lados. Assim, é um prazer poder ler uma análise como a sua, perfeita, precisa. Obrigada! =)


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Setembro de 2011 às 11:41
Olá Lila,

Obrigado pelo comentário e peço desculpa pela tardança na resposta.

A proibição de um filme parece-me anedóctica nos dias que correm e muito mais por ser um filme como A Serbian Movie. Não indigna também Slumdog Millionaire com a exploração infantil que se vive na India? Ou não indignam também as séries da MTV que se limitam a fomentar o consumo fazendo muito mais dano aos jovens do que uma sequência hardcore num filme de baixo orçamento?

Acredito na liberdade de expressão e, infelizmente, os primeiros arautos dela são também os primeiros a sacar da palavra proibir!

obrigado pela visita!


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