Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

Huston, a sol e sombra

Foi um mercenário para os autores e um outsider para os moguls do dinheiro. Inspirado na figura de Hemingway, talvez o seu grande equivalente literário, John Huston ajudou a definir o cinema norte-americano do pós-guerra e, sem o saber, abriu portas para uma nova escola criativa que daria os seus frutos, 20 anos depois. Numa filmografia entre sol e sombra, Huston foi, de certa forma, o espelho perdido da América.

 

 

 

Quando Clint Eastwood reencarnou o alter-ego criado à volta da figura de Huston no maravilhoso White Hunter, Black Heart, deixou a nu todos os fantasmas que rodeavam a figura do mítico cineasta, falecido pouco tempo antes. Mesmo depois de morto a sua imagem continua a reflectir o espírito de uma época onde a arte e o mercado lutavam a punho nu. Sem concessões.

Huston foi dos primeiros autores a entender Hollywood. E não confundamos conceitos. Capra, Wyller, Stevens, Hawks, Ford, McCarey eram maestros profundamente dotados mas eram, todos eles, filhos do sistema de estúdios. Tinham nascido com eles e contribuído para o seu crescimento. Todos faziam concessões para sobreviver e assumiam-no com a normalidade de um "Im John Ford and i make westerns". Tão simples como isso. Do outro lado estavam os autores marginalizados, os heróis do cinema europeu que ficaram sem espaço e os nomes americanos atirados para a Serie B, que para os estúdios funcionava como uma segunda divisão mas que para eles era uma perfeita prova de ensaio. E uma escola que faria escola. Mas aí estavam eles, longe do público, no seu guetto particular. E no meio estava ele, como Hemingway na literatura, Huston no cinema.

A sua aparição foi surpreendente, a sua consolidação algo natural. Mas a reacção do meio, turva.

Filho de um actor, dotado de um profundo amor próprio e um espírito de iniciativa típico dos netos da conquista do Oeste, Huston passeou pelo Velho Continente, leu muito, pintou, escreveu guiões de sucesso e depois decidiu que queria ser realizador. The Maltese Falcon foi uma prenda caída dos céus que soube agarrar com as duas mãos. Um filme de Serie B, um guião de um clássico do género noir e um elenco sem grandes nomes para o público parecia inofensivo suficiente. Huston transformou a mediania em excelência, transpirou o espirito de Hammett e ajudou a Humphrey Bogart (que conheceu nas filmagens de High Sierra, o seu último sucesso como guionista) a dar o salto final que precisava começando uma larga e frutuosa parceria. Surpreendida pelo êxito Hollywood ficou sem saber o que fazer com um realizador que gostava também de ser bon-vivant, artística e profeta do romantismo criativo.

 

Metade dos membros da Meca do Cinema queriam que falhasse. A outra metade achou-lhe piada desde o inicio.

Flirteou com actrizes, embebedou-se com actores e humilhou em público demasiados directivos para passar desapercebido. Mas ganhou o respeito do meio. Por isso, depois de Treasure of Sierra Madre, talvez o seu melhor filme, a Academia deu-lhe o Óscar de Melhor Realizador à frente de vários nomes já consagrados. E rendeu-se à evidência do seu talento depois de Huston assinar um cruel e seco retrato da ganância e soberba humana como Hollywood não estava habituada a ver. O sucesso junto da indústria, que ele tanto desprezava, valeu-lhe então o despeito dos artistas, que ele tanto admirava. Os franceses ignoraram-no e preferiram os mais polémicos Peckinpah, Ray e Fuller. Os ingleses não gostavam da sua atitude excessiva e mesmo nos Estados Unidos o seu espírito afastava-se da nova vaga dos actores do Método. Ele ainda era da escola dos directores-ditadores e isso encaixava mais no preconceito com o star-system do que na nova seiva de produtores, realizadores e actores.

Talvez por isso Key Largo, Asphalt Jungle e The African Queen - três filmes maravilhosos, belos, crus e com um sentido de humor refinado - tenham passado ao lado de todas as listas de todos os críticos e do aplauso do grande público. Em ambos se vê a sua mão, em dois deles volta a funcionar a parceria com Bogart e no computo da sua filmografia de então fica clara a sua atitude despreocupada e cínica com o Mundo. Rodar em África o épico bélico com tons de obra teatral para realizar o sonho de comandar um safari não enquadrava bem no espírito dos críticos dos Cahiers (frívolo, diziam) nem nos empresários americanos que o tinham por excêntrico.

E no entanto não o era. Abandonou os States em protesto com a caça às bruxas e começou com Asphalt Jungle a tendência do cinema noir de tornar os criminosos em heróis marginalizados pela sociedade capitalista. Abriu a escola e não usufrui dos louros rapidamente entregues a outros grandes em forja. Essa falta de reconhecimento amargurou para sempre a sua egolatria existência e depois do fracasso de filmes puramente comerciais - apesar de inspiração artística de base - como Moby Dick e Moulin Rouge - entrou numa espiral decadente que só The Misfits - e no fundo, ele que abriu e fechou a carreira de Marylin Monroe, também o era - soube paliar. Mas o cinema - e a sua base - tinham mudado de tal forma que a partir dos anos 60 se dedicou a cultivar a imagem de cretino consumado e passou à interpretação logrando o clímax no policial Chinatown, talvez lembrança dos seus primeiros dias.

 

Huston manteve-se fiel a si próprio (basta ver The Night of the Iguana, The Man Who Would Be King e o seu opus, The Dead, para entendê-lo) até ao fim. Excluiu-se de Hollywood mas soube utilizar a sua popularidade em proveito próprio, saltando de projectos pessoais (Freud: The Secret Passion) a filmes puramente comerciais (Escape to Victory). Viveu à margem de Hollywood mas não soube nunca passar verdadeiramente sem o caos de Los Angeles. Viu passar gerações de cineastas, escolas e movimentos, e manteve-se imutado. O seu penúltimo filme, Prizzis Honour, teve o mesmo impacto e revelou a mesma frescura que o primeiro. E esse espírito definiu-o eternamente. Fora do sistema, dentro dele, fora dos autores, com eles, John Huston foi sempre ele mesmo. E isso acabou por parecer-lhe sempre suficiente.


Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:36
Link do texto | Comentar | favorito
3 comentários:
De Sarah a 27 de Abril de 2011 às 17:24
É óptimo ter-te de volta :D


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Abril de 2011 às 09:07
Obrigado Sarah!

Tentarei ser um pouco mais regular se tempo mo permite.

bjs!


De Office 2007 a 3 de Maio de 2011 às 10:41
how are you zhangzhang?


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

.Fundamental.

EnfoKada

.Janeiro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.Ultimas Reviews

Midnight in Paris -
The Ides of March -
A Dangerous Method -
Tinker Taylor Soldier Spy -
Drive -

.Classificação

Excelente-
Muito Bom-
Bom -
Aceitável-
Evitar-

.Pesquisa

 

.Ultimas Actualizações

. Por uma definição justa d...

. Oscarwatch - Melhor Filme...

. Oscarwatch - Melhor Argum...

. Oscarwatch - Melhor Actor...

. Oscarwatch - Melhor Actri...

.Do Autor

Em Jogo

.Categorias

. biografias

. cinema

. corpos...

. estreias

. festivais

. historia opinião

. mitos

. noticias

. obituario

. opinião

. oscares

. oscarwatch 2008

. oscarwatch 2009

. oscarwatch 2010

. oscarwatch 2011

. premios

. reviews

. rostos

. that´s the movies

. trailers

. todas as tags

.Blogs

35mm
7CineArt
A Gente Não Vê
A Última Sessão
Action Screen
Alternative Prision
Ante-Cinema
Antestreia
A Última Sessão
Avesso dos Ponteiros
Bela Lugosi is Dead
Blockbusters
Cantinho das Artes
Cine31
CineBlog
CineLover
CinemeuBlog
CineObservador
CineRoad
CineLotado
Cinema is My Life
Cinema Notebook
Cinema´s Challenge
Cinema Xunga
Cinematograficamente Falando
CinePT
Close Up
Cria o teu Avatar
Depois do Cinema
Dial P for Popcorn
Ecos Imprevistos
Estúpido Maestro
Febre 7 Arte
Final Cut
Grandes Planos
Gonn1000
Grand Temple
High Fidelity
In a Lonely Place
Jerry Hall Father
Keyser Soze´s Place
Maus da Fita
Movie Wagon
Mullolhand CineLog
My One Thousand Movies
My SenSeS
Noite Ameriana
Ordet
O Homem que Sabia Demasiado
O Sétimo Continente
Os Filmes da Gema
Pixel Hunt
Pocket Cinema
Portal do Cinema
Royale With Cheese
Split Screen
The Extraordinary Life of Steed
Um dia Fui ao Cinema
Voice Cinema



.Sites

c7nema
CineCartaz
Cine Estação
Cinema2000
Cinema-PT Gate
DVD Mania
DvD.pt
Em Cena
Lotação Esgotada
Cine História
Cinemateca Lisboa
Eu sou Cinéfilo
Portal Cinema

American Film Institute
British Film Institute
Cahiers du Cinema
Cinémathèque Francaise
Directors Guild of America
Internet Movie Database
Motion Picture Association
Screen Actors Guild
Screen Writers Guild
Sight and Sound
Telerama

Box Office Mojo
Coming Soon
Dark Horizons
Hollywood Reporter
JoBlo
Latino Review
Movie Poster

Premiere
Rope of Silicone
Rotten Tomatoes
Slash Film

Sun Times Chicago

Variety

.Premios e Festivais

Cesares
European Film Awards

Golden Globes
Goya

Oscares

Animation Film Fest
European Film Festival
Festival de Berlim
Festival de Cannes
Festival de S. Sebastian
Festival de Sundance
Festival de Veneza
Roma Film Festival
São Paulo Film Fest
Sitges Film Festival
Toronto Film Festival

Algarve Film Festival
Ao Norte!
Avanca
Black and White
Caminhos
Cinamina
Corta!
Curtas Vila do Conde
DOCLisboa
Fantasporto
FamaFest

Festroia

FIKE
Funchal Film Fest
Imago
Indie Lisboa
Ovar Video

.Oscarwatchers

And the Winner is...
Awards Daily
In Contention
Golden Derby
MCN Weeks
The Envelop
The Carpetbagger
Thompson on Hollywood

.Arquivos

. Janeiro 2013

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

.subscrever feeds