Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Milk - Como peixe na água...

 Assim se deve ter sentido Gus van Sant.

Irónico. Depois de vinte e cinco anos a filmar personagens marginalizadas, mas sempre com um pano de fundo mais (ou menos) abertamente homossexual, o cineasta “indie” por excelência decidiu-se por dar corpo à primeira ópera gay verdadeiramente trágica. O épico dos homossexuais sobre a base de um biopic que é mais sobre o movimento gay do que, propriamente, sobre o homem que dá nome ao titulo. Talvez porque os dois se confundam. Talvez porque, se não fosse van Sant, a vida de Harvey Milk se resumisse a documentários a passar no dia do “Orgulho Gay”. Ou seja, seria mais um nome que um dia foi capa de jornais e depois, desapareceu naturalmente da memória. A este vazio em criar um verdadeiro interesse à volta da narrativa – presume-se que os biopics se desenrolam à volta de figuras verdadeiramente marcantes - acrescenta-se uma constante deriva narrativa. Neste filme utilizam-se as típicas mensagens do meio underground afecto a este género de movimentos, mas a verdade é que van Sant também não resiste em cair nos clichés típicos do mainstream, tirando ao filme o pouco de originalidade que podia ter.

 

O problema em Milk é a débil base onde se construi. E quando os alicerces estão mal construídos, ao telhado custa aguentar. Antecipado o final logo ao inicio, passamos todo o filme a esperar o previsível. O próprio Harvey Milk surge aqui a narrar os eventos que levam ao seu assassinato. Constantes flashbacks, que se vão misturando no tempo e espaço, e que dão alas a uma galeria de personagens interminavelmente maçadoras, marcam o tom da narrativa que explora tanto o dramatismo amoroso de Milk como a sua (e da sua comunidade) promiscuidade, e limita-se a alinhar pelo típico diapasão do movimento gay, quanto a ideais…ou seja, o de sempre: mais direitos, mais direitos…mais direitos. E já está!

O que realmente interessa na vida de Harvey Milk não é o facto de ter sido o primeiro elemento assumidamente homossexual a conseguir um cargo político de importância. O filme trata de demonstrar o quão fácil isso se tornou, a partir do momento em que San Francisco se tornou, na capital gay por excelência dos States. O grande interesse em Milk é o de entender como o homem que conseguiu mobilizar um movimento a ponto de o levar a fazer um peso efectivo nas urnas, era, ao mesmo tempo, um ser com uma ambição desproporcionada e que sempre colocou – qual Michael Corleone – os negócios à frente da “família”, neste caso, à frente do seu parceiro amoroso de sempre. Um político, como outro qualquer, com a diferença de ter sido o primeiro a assumir publicamente a sua homossexualidade. A certa altura, já instalado no cargo, Milk ameaça ao presidente da câmara de San Francisco, que viria a falecer com ele às mãos de um personagem que é um misto de psicose com um traço de homossexualidade não assumida. Este responde-lhe dizendo que parecia um “Chefe”, como os habituais políticos corruptos norte-americanos. Ao que Milk responde que a ideia de um homossexual finalmente com poder é algo que, definitivamente, lhe agrada. E aí está, isso, no fundo, é Milk. A história de como os gays chegaram ao poder numa cidade que se tornou, primeiro, o seu santuário e logo, no seu campo de batalha.

 

Apesar das constantes criticas os americanos (tão conservadores) são os primeiros a fazer com que se escute as mensagens dos movimentos pelos direitos civis. Enquanto deste lado do Atlântico os cineastas vão discutindo as diferenças dialéticas entre Marcuse e Sartre, no habitual imobilismo da intelectualidade europeia, nos Estados Unidos de Bush (ou de Obama, tanto faz, ao contrário do que muitos possam crer), existe uma tradição histórica em valorizar as minorias através do cinema. Primeiro foi com o movimento da comunidade negra a partir dos anos 60 (que até deu um inesperado Óscar a Sidney Poitier, imagine-se), aos direitos das mulheres no meio laboral nos anos 70 e 80, passando claro, pelas comunidades latinas e asiáticas, que a pouco e pouco, vão encontrando o seu lugar em Hollywood. Faltava, claramente, um filme que espelha-se a “luta” do movimento gay para se afirmar politica e socialmente no panorama cinematográfico norte-americano. Para isso está Milk. Um filme que não consegue ter a carga dramática necessária para este género de narrativa – Harvey Milk não é Malcolm X desde já, e a proporção da luta tão pouco - e que vive dos tiques amaneirados de Sean Penn, um actor fabuloso mas que nunca acaba por estar verdadeiramente cómodo na pele de Milk e que passa de um exagero intenso a uma contenção admirável. E do elenco de secundários – que falha em dar um pano de fundo consistente à luta do movimento, para lá do próprio Milk -  tanto se pode saltar da exagerada contenção de Josh Brolin ao papel da “Senhora Milk”, desta feita a cargo de um óptimo James Franco, provavelmente o mais interessante, a par de Emile Hirsch, nesta galeria de exóticos e inconsistentes personagens.

 

Milk é um filme que cairá bem na comunidade gay, porque é, desde o primeiro segundo, um manifesto de elogio à luta do movimento homossexual, ficando-se lamentavelmente por aí. Um filme que agradará à típica esquerda defensora dos direitos de todos, desde que sejam minorias. Mas se para os habituais amantes da obra de van Sant, será um compromisso exagerado com o mainstream, sem contudo encontrar a excelência que teve com Good Will Hunting, para o cinéfilo em geral, sem particular simpatia ou antipatia com a habitual prosa victimista homossexual, será um biopic mais na infindável lista que tem apresentado Hollywood, sem grande capacidade para conseguir um lugar marcante na história do cinema recente.

 

Classificação

 

Realizador – Gus van Sant

Elenco – Sean Penn, Josh Brolin, James Franco

Productora – Focus

Classificação – m/16

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 11:32
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