Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Frost/Nixon - Raposas solitárias

 A América tem vergonha dos momentos mais tristes da sua história. E tenta varre-los para debaixo do tapete. E uma das maiores espinhas que ainda tem atravessada tem nome próprio: Richard Nixon.

Durante décadas foi visto como o protótipo do que não devia ser um político. Mas acabou por ser eleito (e re-eleito) Presidente. E foi aí que sofreu a humilhação de ter sido o único Presidente a ter de resignar. Watergate ficou na memória de todos. E continua a ser uma nódoa na história da democracia norte-americana.

 

 

Frost/Nixon não é sobre Watergate. Nem sobre a destituição do polémico presidente. É sobre dois homens presos numa encruzilhada. Só um poderá sobreviver ao duelo dos novos tempos: um debate televisivo.

Num filme criado a ritmo de documentário feito à posteri dos míticos encontros entre apresentador e politico – uma táctica que o argumentista Peter Morgan usa para conseguir adaptar a sua peça, um duelo a solo entre os dois solistas – falta um pouco de acutilância e dinamismo. Mas o ritmo que mantém, apesar de morno, é suficiente para criar uma óptima atmosfera de entretenimento. Um ensaio sobre o poder e o impacto dos média? Não, Ron Howard não chega a tanto. Afinal estamos a falar de um cineasta que é um bom obreiro, capaz de um grande número de filmes medianamente bons, mas incapaz de criar uma grande obra.

 

Honestamente, este não é um grande filme. Mas é a prova uma vez mais de que o cinema tem um poder de redenção que nenhum outro meio é capaz de conseguir. Já Oliver Stone o tinha feito com o biopic protagonizado por Anthony Hopkins e agora Howard volta a fazer o mesmo (num nível distinto está claro, até porque Stone só chega até ao dia da resignação). Aos olhos do cinema Nixon conseguiu a reabilitação que a história nunca lhe deu (e provavelmente não dará). O Richard Nixon (brilhante construção do veterano Frank Langella, no papel de uma vida até porque não é uma “imitação” como a recriação de Hopkins) de Frost/Nixon é tudo menos o presidente odioso e polémico que o mundo conheceu. É um politico ostracizado, qual Demóstenes, que inspira mais compaixão que ódio. De tal forma que uma das cenas nucleares do filme mostra o primeiro encontro da equipa de David Frost - esse fascinante Michael Sheen de que todos parecem esquecer-se (e já vão dois filmes assim) - ferozmente anti-Nixon, com o ex-presidente. E o fascínio que fica pela sua figura. Para eles. E para nós. 

Frost/Nixon é exactamente isso. Um filme sobre duas personagens absolutamente fascinantes que se encontram num ponto fulcral das suas vidas. O politico tinha a carreira politica acabada e queria, a todo o custo, limpar o seu nome para poder voltar ao palco da acção. David Frost era, por outro lado, um bon vivant, altamente admirado pelo público, mas que não conseguia livrar-se da etiqueta de homem de entretenimento, sem qualquer credibilidade para o meio intelectual. Ambos eram homens que despertavam paixão e ódio, mas nunca admiração por parte dos seus semelhantes. E ambos viram neste “confronto” diante das câmaras, a oportunidade de finalmente triunfar aos olhos do Mundo.

 

Apesar do filme caminhar demasiadas vezes pelo melodramatismo à volta da polémica figura de Frost, são as sequências com Nixon que dão alma à história. O seu telefonema a meio da noite ao apresentador, na véspera do duelo final, é um dos mais espectaculares momentos cinematográficos do ano. Uma espécie de mea culpa póstuma para Nixon. Um despertar da letargia para Frost. A razão porque o filme nem é sobre Nixon. Nem sobre Frost. Nem sobre as conversas entre ambos, que apesar do leit motiv estão claramente em segundo plano. É sobre dois homens à procura de encontrar o seu lugar no Mundo. Dois homens que querem caminhar de cabeça bem erguida, sem ter de andar descalços. No final só um ganhará. Mas o outro terá direito aos seus merecidos sapatos.   

 

Classificação -

 

Realizador - Ron Howard

Elenco - Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon

Productora - Universal

Classificação - m/12

 

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 17:11
Link do texto | Comentar | favorito
4 comentários:
De Jorge A. a 19 de Janeiro de 2009 às 20:07
Miguel,

eu gostei muito do filme, não ao ponto de achá-lo um dos melhores, mas gostei. Mas importa realçar que no que toca à precisão histórica do filme e ao episódio que retrata, aquilo é pura obra de ficção.

É muito duvidoso que Nixon quissesse pôr-se de pé com aquela entrevista e voltar à vida politica, e mais duvidoso é que Frost tenha sido capaz de retirar aquela confissão a Nixon como o filme procura demonstrar.

A verdade é que Nixon tinha uma percentagem dos lucros da entrevista para sí, e sabia que tinha de oferecer molho ao povo americano. Até naquele momento, Nixon foi fiel a sí próprio, um manipulador. E Frost foi pouco mais que um figurante escolhido a dedo por este.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Janeiro de 2009 às 21:39
Jorge,

A série de entrevistas de Frost a Nixon foram uma realidade. Alias, Frost é hoje um dos principais jornalistas no activo da televisao britanica e entrevistou todos os primeiros-ministros britanicos e presidentes norte-americanos dos anos 60 até hoje. Bem longe da imagem de dandy que se dá inicialmente dele.

No entanto o estilo documental do filme a isso convida e é criada essa aura onirica. Nas proprias memorias.

As verdadeiras entrevistas de Frost a Nixon estão inclusive á venda na Amazon e neste site pode-se consultar o apartado mais marcante da serie, a questão de Watergate:

http://www.landmarkcases.org/nixon/nixonview.html

Um abraço


De Jorge A. a 19 de Janeiro de 2009 às 21:54
"A série de entrevistas de Frost a Nixon foram uma realidade."

Bem sei que sim, mas as entrevistas reais e a história por trás destas é muito diferente da contada no filme (tipico em filmes de Ron Howard, já o Beautiful Mind distorcia totalmente a vida de Nash). Não que eu me incomode muito com essas distorções, para conhecer a história tal como ela foi não recorro propriamente ao cinema (estou a excluir os documentários, obviamente - e mesmo nestes cada vez há mais quem vinga são os que recorrem à manipulação), mas convém frisar num tipo de filme como o Frost/Nixon, para quem assiste ao filme e pensa tirar uma ideia do que foi a realidade, é melhor desistir.

http://www.huffingtonpost.com/elizabeth-drew/ifrostnixoni-a-dishonorab_b_150948.html

http://www.boston.com/movies/display?display=movie&id=11878


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Janeiro de 2009 às 08:32
Exactamente, o Ron Howard já tinha repetido a fórmula do Beautiful Mind no Cinderella Man e volta aqui a aproveitar-se de um facto historico para distorcer a realidade como bem lhe convém.

Até porque o David Frost é uma iminencia do jornalismo politico, muito diferente da imagem brilhantemente construida pelo Michael Sheen de dandy mulherengo. E o Nixon de Langella pouco tem a ver com o Nixon real. Daí que tenha dito na critica que se parece pouco à performance de Hopkins, esse sim, uma replica da personagem historica, apesar de todo o risco que isso tem (parece ás vezes uma caricatura de si proprio).

Quanto ao material da entrevista, a verdade é que os últimos dialogos são reais e mostram, pela primeira vez no filme, o verdadeiro rosto de Nixon que ficou a nu na entrevista real e enterrou definitivamente as suas ambiçoes politicas (como viria a reconhecer na sua auto-biografia de mil e tal paginas). Mas realmente o cinema tem sempre essa complexidade do real ou não. Mas depende sempre também do cineasta. Há nomes, como os de Howard, onde não se pode procurar realismo historico. Mas o mesmo passa igualmente em muitos documentarios (voltamos sempre ao Michael Moore, se bem que os primeiros grandes doc´s do Flaherty também eram bastante falseados). E no entanto há filmes de ficção que conseguem ser profundamente exactos como muitos documentários. É uma linha perigosa e que nem sempre está bem definida. O revisionismo historico é sempre uma tentação.

E sim, o Frost/Nixon não é um grande filme, mas é dinamico e entretem, com um optimo leque de performances e um ritmo bastante bom. Ou seja, o mesmo sempre de Howard, que desde Apollo 13 que não saiu da mesma tecla.

Um abraço


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