Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

The Wrestler - Looser

 

Se te portares bem durante estes dias, se não me faltares ao respeito à frente da equipa e se te mantiveres limpo, prometo-te uma nomeação ao Óscar”. Aronofsky prometeu e cumpriu. Mickey Rourke está de regresso. A dar corpo a uma outra versão dele mesmo. Mickey Rourke starring as…himself. Para já parece resultar. O comeback já é oficial. O enfant-terrible ganhou a pulso o confronto com ele próprio. E se calhar já não é aquele que vemos no ecrã. Um “looser”!
 
The Wrestler saltou para a ribalta por causa de Rourke. Era o regresso de um dos actores a quem os 80 baptizaram como “o novo Brando” e que os 90 entregaram de novo à procedência, os ringues de boxe onde Mickey tinha começado a sua carreira anos antes. Quase vinte anos depois e muitas cicatrizes disfarçadas por operações plásticas atrás de operações plásticas, o regresso de Rourke é um falso retorno. Porque ele continua a ser o que sempre foi. Fora e dentro do ecrã. O mérito principal do filme não é a performance arrastado de um actor que dá corpo a um lutar de Wrestling que no ocaso da sua carreira procura simplesmente manter-se de pé e conseguir uns trocos para poder dormir na sua roullote. É a crueza da câmara livre de Darren Aronosfky, um realizador que parece ter uma debilidade especial pelo lado negro dos esgotos humanos a céu aberto que povoam a nossa sociedade. Em Requiem For a Dream já tinha explorado uma série de seres completamente nus diante de uma sociedade que os relegava para o quarto mais escuro da mansão. Em The Wrestler continua a sua particular peregrinação por esta terra vazia de vida que também é a América. A América do “white trash”, dos parques de roullotes onde vivem famílias inteiras…do país onde sonhar é grátis e tudo o resto custa bom dinheiro.
 
No meio deste mundo está Randy “The Ram” Robinson. Um grande do wrestling dos anos 80. Um decrépito que ganha a vida a carregar caixas em super-mercados de dia para os fins-de-semana se juntar a outras velhas glórias em combates que só meia dúzia de pessoas estão dispostos a pagar para ver. Nas horas livres Randy bebe, Randy fuma, Randy passa pelo bar de strip local onde trava amizade com Cassidy, uma prostituta que está a entrar numa idade onde os clientes já não estão tão interessados como antes nas suas danças exóticas por muito que ela se ofereça sem qualquer pudor. Dois falhados da vida, dois “loosers” de uma sociedade que só tolera vencedores, que se juntam para carpir mágoas mas sem nunca se queixarem. Sabem que a escolha que fizeram foi sua e que não há volta a dar-lhe. Apenas viver com o mínimo de dignidade possível. E é neste meio que aparece o triangulo do vértice, a jovem filha de Randy, abandonada por um pai que mais depressa se lembra da data dos seus combates mais famosos do que do dia de aniversário da filha. A vertente familiar, nuclear na mitologia americana, é virada do avesso num exercício de introspecção que Aronosfksy consegue tornar viável através da crueza visual que transmite. Sem adereços em demasia, com uma câmara em constante movimento, o espectador é atirado de golpe para este meio espectáculo degradante. O espectador é literalmente forçado a caminhar ao lado de um Randy que cada vez menos levanta a cabeça com orgulho, e que entre golpes ensaiados e momentos de dor aguda, vai entendendo que a vida lhe passou completamente ao lado.
 
Os elogios múltiplos a Rourke resultam mais da fraqueza humana do que propriamente da qualidade artística. O Ser Humano aprecia sempre um lutador e, especialmente, o regresso do filho pródigo a casa. E Rourke, que tinha o potencial para ter sido algo mais do que realmente foi, é essa ovelha negra agora pintada de branco. A indústria – e a crítica – acolheram-no de novo, de braços abertos, e para culminar esta história de amor estão até dispostos a dar-lhe uma estatueta dourada de parabéns. Nada mal para quem há um ano nem sequer encontrava trabalho em Hollywood.
E a verdade é que The Wrestler não seria tão verosímil se “The Ram” fosse outro que não Rourke. Porque são identidades gémeas. Ao longo do filme Mickey não representa. Mickey é ele próprio. Auto-destructivo, muita lábia à mistura e um carácter louco mas marcado pelos anos. Elogiar artisticamente uma performance onde um actor se limita a ser, praticamente, ele próprio, é um exercício arriscado. A partir de onde se pode definir a ténue linha da criação? Rourke não a cria, dá-lhe uma dimensão pessoal que transparece honestidade. O próprio facto de subir ao ringue – e foi no ringue por onde andou estes anos todos – torna a comparação por demais evidente. É certo que já as personagens de Stewart para Capra se tornavam tão verosímeis porque assim o era também o seu intérprete. Mas essa honestidade aqui é ambígua e isso acaba por tornar, em alguns momentos, The Wrestler em quase um documentário da descida aos infernos de uma antiga glória. Que também tem o seu mérito, é certo. Mas que não significa que estejamos diante de um performance bigger than live.
Aliás é esse tom documental – há momentos em que parece que o filme é mesmo um retrato dos últimos anos vividos por Rourke nessa América perdida - esse registo tão cru e seco que faz com que a própria Marisa Tomei, uma dessas brilhantes actrizes secundárias que o cinema norte-americano nos brinda de tempos a tempo, seja o espelho oposto tal é a forma que desaparece dentro da sua personagem, que é tão ou mais trágica do que a do próprio Randy.
 
Feitas as contas a tanta variedade, ficamos com a oferta de Aronosfsky, mais do que propriamente com o filme que servirá para iconizar um actor que transpira o anti-glamour que tanto aprecia a indústria que agora o acolhe. The Wrestler poderá ficar apenas na memória como o multi-premiado desempenho de Rourke, mas o que faz dele um interessantíssimo exercício cinematográfico é na verdade momentos como aqueles em que Randy contempla as antigas estrelas do mundo do wrestling adormecidas enquanto esperam pelo próximo fã para assinar um autógrafo numa camisola que lembra um combate disputa quando ainda se podiam dar ao luxo de sonhar.
Agora dormem, mas já não sonham…esperam, sem saber bem o que lhes reserva o amanhã!   

 

Classificação -

 

Realizador - Darren Aronofsky

Elenco - Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood

Classificação - m/16

Productora - Fox Searchlight

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 22:18
Link do texto | Comentar | favorito

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

.Fundamental.

EnfoKada

.Janeiro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.Ultimas Reviews

Midnight in Paris -
The Ides of March -
A Dangerous Method -
Tinker Taylor Soldier Spy -
Drive -

.Classificação

Excelente-
Muito Bom-
Bom -
Aceitável-
Evitar-

.Pesquisa

 

.Ultimas Actualizações

. Por uma definição justa d...

. Oscarwatch - Melhor Filme...

. Oscarwatch - Melhor Argum...

. Oscarwatch - Melhor Actor...

. Oscarwatch - Melhor Actri...

.Do Autor

Em Jogo

.Categorias

. biografias

. cinema

. corpos...

. estreias

. festivais

. historia opinião

. mitos

. noticias

. obituario

. opinião

. oscares

. oscarwatch 2008

. oscarwatch 2009

. oscarwatch 2010

. oscarwatch 2011

. premios

. reviews

. rostos

. that´s the movies

. trailers

. todas as tags

.Blogs

35mm
7CineArt
A Gente Não Vê
A Última Sessão
Action Screen
Alternative Prision
Ante-Cinema
Antestreia
A Última Sessão
Avesso dos Ponteiros
Bela Lugosi is Dead
Blockbusters
Cantinho das Artes
Cine31
CineBlog
CineLover
CinemeuBlog
CineObservador
CineRoad
CineLotado
Cinema is My Life
Cinema Notebook
Cinema´s Challenge
Cinema Xunga
Cinematograficamente Falando
CinePT
Close Up
Cria o teu Avatar
Depois do Cinema
Dial P for Popcorn
Ecos Imprevistos
Estúpido Maestro
Febre 7 Arte
Final Cut
Grandes Planos
Gonn1000
Grand Temple
High Fidelity
In a Lonely Place
Jerry Hall Father
Keyser Soze´s Place
Maus da Fita
Movie Wagon
Mullolhand CineLog
My One Thousand Movies
My SenSeS
Noite Ameriana
Ordet
O Homem que Sabia Demasiado
O Sétimo Continente
Os Filmes da Gema
Pixel Hunt
Pocket Cinema
Portal do Cinema
Royale With Cheese
Split Screen
The Extraordinary Life of Steed
Um dia Fui ao Cinema
Voice Cinema



.Sites

c7nema
CineCartaz
Cine Estação
Cinema2000
Cinema-PT Gate
DVD Mania
DvD.pt
Em Cena
Lotação Esgotada
Cine História
Cinemateca Lisboa
Eu sou Cinéfilo
Portal Cinema

American Film Institute
British Film Institute
Cahiers du Cinema
Cinémathèque Francaise
Directors Guild of America
Internet Movie Database
Motion Picture Association
Screen Actors Guild
Screen Writers Guild
Sight and Sound
Telerama

Box Office Mojo
Coming Soon
Dark Horizons
Hollywood Reporter
JoBlo
Latino Review
Movie Poster

Premiere
Rope of Silicone
Rotten Tomatoes
Slash Film

Sun Times Chicago

Variety

.Premios e Festivais

Cesares
European Film Awards

Golden Globes
Goya

Oscares

Animation Film Fest
European Film Festival
Festival de Berlim
Festival de Cannes
Festival de S. Sebastian
Festival de Sundance
Festival de Veneza
Roma Film Festival
São Paulo Film Fest
Sitges Film Festival
Toronto Film Festival

Algarve Film Festival
Ao Norte!
Avanca
Black and White
Caminhos
Cinamina
Corta!
Curtas Vila do Conde
DOCLisboa
Fantasporto
FamaFest

Festroia

FIKE
Funchal Film Fest
Imago
Indie Lisboa
Ovar Video

.Oscarwatchers

And the Winner is...
Awards Daily
In Contention
Golden Derby
MCN Weeks
The Envelop
The Carpetbagger
Thompson on Hollywood

.Arquivos

. Janeiro 2013

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

.subscrever feeds