Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

The Curious Case of Benjamin Button - A inevitabilidade do relógio

Quando o destino nos trai só existem duas opções: queixar-se eternamente do fado maldito que nos assombra, ou resignar-se com o inevitável e continuar o caminho. A maioria dos homens limita-se a maldizer a sua existência e abandonar-se num caminho sem retorno. Uns poucos levantam a cabeça e seguem em frente. Mas poucos são capazes de o fazer com tanta honestidade. Mesmo que o destino o tenha condenado a ver a sua vida andar para trás quando todos andam para a frente…ou será ao contrário?

 
O ritmo poético, lento e delicado que acompanha esta narrativa é tão cativante como o rosto envelhecido de uma criança que foi condenada a existir de forma diferente. E única. No final, conseguiremos perceber a magnitude de todo o drama e tristeza que acompanha a vida de Benjamin Button. Mas nos primeiros planos, aquela cara risonha e enrugada desperta, acima de tudo, carinho. Como qualquer criança. Da mesma forma que o seu rosto infantil desperta a mesma pena que nos dão aqueles idosos que, chegados já a uma provecta idade, conscientes do muito que viveram, se começam a esquecer que sequer existiram num último e derradeiro passo para o abismo final. Para Benjamin Button a morte é um ritual quase constante. Criado por uma vigorosa mulher (excelente Taraji P. Henson), responsável por gerir um lar de idosos, Benjamin cresce no meio dos seus (aparentemente) onde ninguém o veta e exclui por como é. Mas é à medida que o tempo vai passando, e a morte vai deambulando pela sua vida, que ele começa a perceber o verdadeiro drama de toda a sua existência. Até chegar ao momento onde, finalmente, se dá conta, do inevitável drama da sua condição. E quando todos alentam o desejo secreto de rejuvenescer à medida que os anos vão passando e o espelho nos vai devolvendo, com juros, aquelas caretas pueris, Benjamin só queria que o espelho parasse por um momento…e que esse momento se eternizasse.
 
Da obra original de F. Scott Fitzegerald, fica a ideia de base e o drama humano. A mão delicada de um verdadeiro autor como é David Fincher, trata do resto. O argumento reescrito por Eric Roth (o mesmo que esteve por detrás de Forrest Gump, com quem o filme parece ter similiaritudes apesar de viver no plano literalmente oposto) pode parecer pastelento e demasiado descritivo. Mas acerta na mouche ao não exagerar nunca, nem no aspecto visual, que depois do choque (já esperado) inicial se transforma em algo corrente, nem na parte emocional. Pelo contrário, Benjamin Button é um ser peculiar mas não por ficar mais novo a cada grão de areia que cai na máquina do tempo. É essencialmente um ser único pela forma como encara a vida. O que para todos é um gigantesco ponto de interrogação, para ele é uma inevitabilidade que há que encarar com o melhor rosto possível. Entende que enquanto os outros deambulam por festas, ele tem de se resignar ao seu rosto envelhecido. E que quando todos se preparam para reformar, ele vai descobrindo o mundo, de mochila às costas. Uma história tão peculiar e fascinante teria de ser sempre tratado com pinças, fosse como fosse, sob o risco de fazer desta magnifica história um freak show de exageros. E nesse campo, Fincher é aqui tão sóbrio como o foi em Zodiac, o seu último fabuloso trabalho que vive igualmente num registo de lentidão apaixonante, tão distinto do frenetismo de Se7en ou Fight Club. E tão poético.
 
Sob o fantasma do Katrina, esse temporal da Natureza da mesma forma que a vida de Button é um temporal da existência humana, vamos andando para trás e descobrindo a história da vida de um ser magnifico, e constantemente perturbante. E vivemo-lo nesse flashback tão vibrante e, ao mesmo tempo, tão tranquilo como o próprio desempenho de Brad Pitt, que aparece e desaparece por trás das sucessivas máscaras que lhe vão saindo, sem nunca deixar o mesmo registo de contenção que a personagem lhe exigia. Aqui não há, e voltamos à odiosa comparação, a estupidificação e o overacting de Gump (por muito genial que seja Tom Hanks). Pelo contrário, na maior parte das vezes que encontramos Benjamin, ele é um velho. Velho de rosto, a principio, mas, acima de tudo, um homem consciente da perigosa moralidade onde se encontra quando chega ao ponto fulcral da sua vida. E é precisamente nesse momento, para o qual sempre correu contra o tempo, que ele entende que não pertence a este Mundo e não tem o direito (não o terá, realmente?) de partilhar a vida de quem quer pelo simples facto de ser único. Essa sequencia chave do filme (o silencio de Cate Blanchett, sublime num papel que vive no limbo constante entre a perdição e a inevitabilidade, o olhar perdido e carnal de Pitt, as ruas desertas, a chave do passado), são a sentença da eterna perdição. É o momento em que todos aqueles que o viram rejuvenescer a olhos vistos e que esperam uma redenção miraculosa entendem, que para Benjamin Button, o final é pior que o principio.
 
Há uma dor constante e que ganha intensidade a cada plano que se sucede. Benjamin Button é um homem marcado pela dor. A dor do abandono. A dor da sua condição. E, principalmente, a dor de ter perdido aqueles quem mais queria sem poder sequer viver mais do que um breve par de momentos dignos de recordação. O curioso caso de Benjamin Button é a história de um homem que não nasceu para ser feliz, mas que procurou a felicidade em cada recanto da vida. Viveu e fez viver, despertou os outros da indiferença e soube escutar quando outros só ouviam, e soube ver quando outros apenas olhavam. Conheceu o mundo, mas, acima de tudo, teve tempo para conhecer-se a si próprio. E enquanto o relógio andava para trás e o tempo lhe ia devolvendo o rosto que afinal, nunca quis verdadeiramente ver, Benjamin Button olhou para o Mundo e percebeu que diante o sofrimento e a perda, há que erguer a cabeça e fazer-se à estrada…nem que seja para terminar onde tudo exactamente começou!
 
Classificação
 
Realizador – David Fincher
Elenco – Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson
Classificação – m/16
Productora – Warner Bros.  
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Autor Miguel Lourenço Pereira às 18:27
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2 comentários:
De Anónimo a 10 de Fevereiro de 2009 às 02:03
mas e muito semelahnte ao forrred gump ou seja pouco original, para alem disso brad piitt n e grande actor parece que vai mal


De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Fevereiro de 2009 às 10:59
É dificil conseguir uma história que seja tão original e tão séria ao mesmo tempo, que TCCBB. Basta pegar na questão central - o viver ao contrário - e já toda e qualquer comparação com filmes com estructuras narrativas perde efeito. Em Forrest Gump estavamos diante de uma personagem que narrava a sua própria existencia e os seus feitos, que se cruzavam com os momentos mais marcantes da segunda metade do século XX. E ponto.

Em TCCBB estamos diante de uma personagem que vive de trás para a frente e que, apesar de se cruzar com alguns marcos históricos, vive-os de maneira bem distinta à do "protagonista historico" em que se torna Button.

É pelo tanto natural que a presença do mesmo argumentista e a estructura base da narração da vida de um homem possa soar semelhante ao de Gump, mas as comparações terminam definitivamente aí.

Quanto a Brad Pitt, são opiniões, mas acredito que este é provavelmente um dos actores mais sub-valorizados da actualidade, um dos mais completos da sua geração que foi ofuscado pela figura de sex-symbol e pela fama que o rodeia hoje pelo casamento mediático com A. Jolie.

No entanto Pitt é o rosto por detrás de alguns dos desempenhos mais interessantes dos últimos quinze anos (12 Monkeys, Meet Joe Black, Se7en, Fight Club, Assassination of Jesse James By the Coward Robert Ford, ...) e o seu papel é a quintissencia da personagem, um ser tranquilo, consciente da sua condição e que vive ao máximo o carpe diem que a sua existencia lhe permite entender com a máxima de vida ideal.

Um filme com as suas falhas, é certo, mas sem dúvida, um dos mais originais e marcantes de 2008.

Cumprimentos


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