Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Doubt - Sem espaço para a dúvida

Há uma hipocrisia inerente a tudo o que é religioso. O dogmatismo e a intolerância são provavelmente, os únicos traços que aproximam pensamentos tão díspares como são as distintas religiões. Mas há alguns que conseguem ser, mais hipócritas que outras. E nesse capítulo a Igreja Católica vence, declaradamente, a todas as demais. Sem que existam grandes dúvidas. E a dúvida é algo que não existe à medida que Doubt se vai discorrendo ao nosso olhar. Apesar do último plano – fundamental para humanizar o ser mais desumano, quase divino até, de toda a narrativa – John Patrick Shanley vai deixando as suas pistas, aqui e ali, num rosto, num sorriso, num olhar, que não deixam margem para qualquer dúvida. A culpabilidade, e não a dúvida, é a mecânica da narrativa de Doubt, um filme adaptado directamente do teatro e que, como quase todos, tem grandes dificuldades em mudar de registo vivendo, acima de tudo, dos categóricos e apaixonantes desempenhos da sua troupe de actores.

 
Numa era onde a América vivia dias conturbados (JFK tinha morrido há poucos meses) um colégio religioso irlandês aceita pela primeira vez um aluno negro. Mas esse não é o dilema. A mudança, essa brisa que as novas fronteiras de Kennedy prometiam, vem sobre um novo vento de mudança que também emana o Vaticano. Uma igreja menos austera, mais próxima dos fieis. Uma Igreja encarnada por um sacerdote que não tem problemas em reunir os alunos para falar sobre namoradas e que se gaba da necessidade de ter as unhas bem limpas, mesmo que estejam ligeiramente grandes. E contra esse vento, essa tempestade que se vai anunciando a cada plano, surge uma estátua de pedra de olhar grave e implacável. Um ser que não acredita no poder da dúvida e da suspeita. Uma mulher de ferro quando outros quebram, um ser capaz de ir até às últimas consequências quando acredita que está certa. E como conhecedora dos lobos, ela sabe quando a matilha tem fome. E esta, particularmente, está esfomeada. A cena do banquete austero das freiras corta, em raccord, com o festim sangrento da confraria de padres, aqueles a quem todos devem obediência, a cadeia a que tem de se consultar em caso de algum problema. O circuito fechado que a Igreja montou para se proteger de si própria. E a máscara que caiu recentemente, revelando brutalmente a realidade que se escondia por detrás.
 
Sem nunca se mencionar explicitamente esta é a história de um padre que gostava de meninos, meninos jovens e perdidos. E gostava de lhes dar presentes e mostrar as unhas afiadas. Mas é também a história de um rapaz negro que levava porrada do pai por gostar daquilo que não devia. E no meio deste perigoso cruzamento, um sinal stop bem grande. Uma reitora que da mínima suspeita conclui o inevitável. O carisma faz o resto. O do padre Flinn tenta convencer todos da sua inocência. A falta dele faz da irmã James, um perigoso pau de dois bicos. E o estoicismo da madre superiora torna-a na trave mestra da narrativa. Ninguém admite a culpa oficialmente, ninguém sai plenamente convencido de tudo isto. Mas isso é, no fundo, o que menos importa. É uma questão de fé e de força de vontade que realmente faz a diferença. É um duelo perdido à partida mas que se vai desenrolando de forma intensa e arrebatadora. Para isso resulta fácil perceber o impacto que tem, neste tipo de adaptações, actores capazes de fazer da mais insossa das frases, um épico shakespeariano.
E se há, no Mundo, alguma actriz capaz de o fazer, essa é Meryl Streep. O seu desempenho é abrumador, desde o primeiro plano, onde ainda não lhe vemos o rosto mas já adivinhamos a presença, até à explosão final, num gesto de humanismo inesperado e perturbador. Streep é o motor constante da história, a alavanca necessária para fazer mexer o filme. Do outro lado da barricada, um sóbrio mas igualmente assombroso Philip Seymour-Hoffman (deveria ser obrigatório a Academia explicar o que faz um desempenho deste na categoria de “secundário” e não na de “principal”, onde seria um fortíssimo candidato). Ele encarna, no rosto bolachudo, no sorriso matreiro, perfeitamente o ideal do novo sacerdote católico. Moralista mas próximo por fora – é ele quem acusa quando se vê cercado – podre e frágil por dentro. E no meio, hesitante entre a suposta bondade do padre e a efectiva austeridade da freira, está a irmã James – uma insossa mas eficaz Amy Adams – o exemplo da igreja perdida entre a atracção da mensagem do futuro e a tradição do dia a dia religioso que continua bem presente na comunidade. Ela é o elo inocente por ser também o espelho de um país ingénuo. Do outro lado o país hipócrita, sob a forma de Viola Davis, a quem uns senhores lembraram de nomear e premiar umas quantas vezes por cinco minutos (se chega a tanto) de cena onde se desculpa e desentende de todo este drama.
 
É no entanto uma cena fulcral onde a moralidade dúbia da América fica completamente ao descoberto. Onde os podres aparentemente escondidos se revelam como claros e evidentes. E tal como é a América, o importante é conseguir os objectivos. As formas, essas, são irrelevantes. O importante é chegar lá. E a América chegou. E descobriu que afinal as formas também contam, quando já era tarde demais. Pelo caminho os lobos foram encontrando alguns pastores capazes de os fazer desviar caminho. Mas não parar. As unhas continuam bem grandes e prontas a rasgar a carne. Sem qualquer margem de dúvida.
 
Classificação
 
Realizador – John Patrick Shanley
Elenco – Meryl Streep, Philip Seymour-Hoffman, Amy Adams
Classificação – m/16
Productora - Miramax
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Autor Miguel Lourenço Pereira às 00:38
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