Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

O Futuro, segundo Scorsese

Chega um momento onde a obra escapa da mão do seu criador e torna-se objecto público, sujeito às mais admiráveis ou tristes interpretações. O autor, seguramente atontado, perde essa conexação com a sua própria criação e segue por um caminho, tantas vezes diametralmente oposto ao da imensa maioria de admiradores ou detractores. Todos temos a sensação de que as obras que mais admiramos são, de certa forma, também nossas. E todos nos arraigamos esse direito de opinar sobre algo que, realmente, é totalmente de outro.

Ler Martin Scorsese é sempre apaixonante. Afinal, tudo o que tenha a ver com Martin Scorsese é tão viciante como uma melodia sem fim de Miles Davis. O grande cineasta norte-americano dos anos 70, o simbolo perfeito da evolução mais cinéfila dos Movie Brats, apresentou ao mundo a sua obra mais radical. E mostrou-se orgulhoso disso.

Com Hugo o nova-iorquino sabia onde se metia? Talvez não, mas Scorsese sempre foi assim, cineasta de riscos e de poucas certezas. Foi assim quando decidiu fazer de Robert De Niro uma estrela quase de musical em New York, New York. Foi assim quando mergulhou no drama tibetano em Kundun. Ou quando decidiu trocar os gangs da Nova Iorque moderna pelos Gangs of New York dos seus primórdios. Scorsese arrisca e nem sempre petisca, mas gosta de experimentar, de provar, de sentir-se vivo. Ao contrário de outros cineastas que, à medida que envelhecem, vão fazendo sempre a mesma obra (às vezes até sempre com os mesmos rostos) de Marty há sempre que esperar o inesperado. Hugo entra nesse ritmo frenético depois de um regresso às origens com Shutter Island.

No universo scorsesiano a presença infantil é profundamente omissa e não é dificil imaginar que o homem que redesenhou o cinema de gangsters tenha tido pouco tempo para seguir uma estela que o seu amigo Steven Spielberg aproveitou sempre muito bem. Mas como Hugo não é, desde já, um filme infantil, mas sim profundamente, humano, a mutação temática é o que menos importa nesta dissertação. O método é outra coisa.

 

O 3D parece ter conquistado o rei de Nova Iorque.

Scorsese confessou-se apaixonado pelo sistema, reconheceu que desejaria filmar todos os projectos futuros em três dimensões e - hellás - chegou mesmo a reconhecer que gostaria de ter provado o sistema em alguns dos seus filmes mais emblemáticos, como Taxi Driver ou The Aviator. Depois de quatro anos em que o 3D tem sido vendido como a grande arme do cinema comercial para recuperar o dinheiro perdido com a pirataria online, o decrépito mercado de DVD e a profunda falta de ideias dos grandes estúdios - com sucessos consideráveis no campo da animação e acção - eis que surge um realizador de prestigio internacional, um autor reconhecido nos quatro cantos do planeta, a elogiar o novo modelo de filmagem como um passo lógico na evolução cinematográfica.

Martin não é tolo, aliás, dos cineastas contemporâneos, provavelmente ele é quem melhor conhece a origem do cinema e os passos que pautaram a sua evolução técnica e metodológica. O 3D para ele é um novo Som, um novo Cinemascope, nada mais. O realizador reconhece que os óculos tridimensionais - como sucedeu na época do drive-in - são um empecilho para os mais conservadores mas ao contrário do pensamento maioritário, o cineasta é capaz de ver algo de prático e útil na utilização das três dimensões em filmes dramáticos, melodramas ou comédias para além do que se vê até agora com um uso e sobreuso do cinema de acção de Hollywood da nova tecnologia, principalmente depois do sucesso de Avatar. Claro que, por muito reputado que seja Scorsese, não deixa de ser uma opinião muito particular. Outro nova-iorquino ilustre, um tal de Woody Allen, já confessou que pensa exactamente o oposto. O que surpreende na afirmação de Marty é o revisionismo da sua própria obra, a tal que todos admiramos e sentimos como nossa. Imaginar Taxi Driver, com a sua vertigem visual nessas noites de insónia de Travis Bickle, em três dimensões é tão provocador que deixa o mais vanguardista sem argumentos para defender-se. E no entanto o remake de uma obra própria, com uso de novas ferramentas, é algo tão comum como o próprio cinema. Entre todos os grandes, Alfred Hitchock, foi o que melhor soube pegar nos seus filmes "ingleses" e reaproveitar ideias, planos e sequências na sua, mais consensual, obra americana. O Cinemascope foi uma arma perfeita para reeditar The Man Who Knew Too Much e quanto de 39 Steps não encontramos no garrido e vertiginoso North by Northwest?

 

Claro que imaginar Sunrise com som e cor (para não falar três dimensões naquele trânsito asfixiante) é algo que não passa pela cabeça de uma maioria habituada a conservar as peças artisticas num reliqário, imutáveis à mudança do tempo. E isso que Abel Gance tentou refazer toda a sua obra quando se encontrou com o som apenas para descobrir que ninguém o iria financiar nesse empreendimento. E que Billy Wilder fez The Apartement em preto e branco e depois não soube contemplar sequer a ideia de Irma la Douce sem o intenso Cinemascope. Ou Ford, do seco preto e branco de Stagecoach ao profundamente emotivo e visual The Searchers, mudando o método mas nunca a essência da sua obra. Não surpreenderá ninguém que o 3D acabe por impor-se porque assim é o mercado, reciclável sempre que faz falta um dólar mais. E Scorsese, como sobrevivente que é, sente já essa necessidade a adaptar-se ao futuro, a essa vertigem voraz de vida que sempre o encantou. Eastwood, pelo contrário, seguramente pensará o oposto e durante algum tempo (muito esperamos) o passado e o futuro conviverão, como sucedeu entre 1926 e 1932, como ocorreu entre finais dos anos 40 e o principio da década de 60. É dificil imaginar um Bickle tridimensional mas para muitos no futuro um futuro personagem da mesma dimensão na galeria scorsesiana criado propositadamente para o 3D será sempre um ser a quem as duas dimensões ficarão, forçosamente, pequenas...


Autor Miguel Lourenço Pereira às 10:41
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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Os TCN e o lado mais triste da blogosfera

Sou avô desta cineblogosfera. Daqueles parentes antigos que se encontram num canto da arvore genealógica em tempos imemoriais. Quando arranquei nestas coisas, na companhia de dois bons amigos, os blogs eram absolutamente desconhecidos para a maioria dos cibernautas. Em oito anos passaram-se muitas coisas, o espaço virtual evoluiu, as redes sociais mudaram a vida de muitos e um blog tornou-se algo tão fácil de se gerir como fazer um prato de massa. Em quase uma década vi muitas coisas e assisti a situações surpreendentes. O que ainda não consegui entender é o ritmo competitivo que se começa a pulsar de forma preocupante na cineblogosfera (e ficamos por aqui) portuguesa.

Este vosso blog, o Cinema, está nomeado aos prémios TCN na categoria de Melhor Blog Individual.

É uma iniciativa interessante, divertida até, mas que corre sério risco de ser tornar em mais um espelho dessa constante guerra de auto-promoção em que se tornou um fenómeno que conheço melhor do que a maioria. Trata-se de um prémio com background, com muito trabalho de organização por detrás e que merece todo o respeito e apoio. Uma iniciativa de união que facilmente se transforma em guerrilha. O Cinema foi nomeado sem ter feito campanha, sem ter nomeado ninguém e anunciando que não vai votar em nenhuma das categorias. E espero sinceramente não receber nenhum voto. O motivo é simples: não me considero digno.

Este blog é um projecto muito pessoal distanciado totalmente do fenómeno de popularidade que foi o Hollywood há cinco anos atrás, um projecto que levou à publicação do primeiro livro de cinema originado na cineblogosfera. O Cinema é algo tão pessoal que não se rege por critérios editoriais, compromissos de periodicidade e, sobretudo, não se importa demasiado com o leitor. Não há passatempos, actividades, convites, promoções e auto-promoções. É um espaço de desabafo onde escrevo menos do que queria e que tem estado abandonado por compromissos profissionais inadiáveis. E no entanto houve leitores suficientes - e não são muitos os que por aqui passam- que consideraram que era um digno nomeado e votaram no projecto. Agradeço-lhes mas, como diria o outro, não, obrigado.

 

Não por despeito à magnifica organização do evento. Mas porque entendo que estes prémios estão a perder o sentido que deveriam ter e começam a abrir passo ao outro lado do espelho, ao lado mais triste da nossa blogosfera.

Em Portugal havia quatro blogs de cinema quando entrei nestas andanças em 2003. Hoje devem existir mais de uma boa centena, uns de melhor outros de pior qualidade, uns mais activos que outros, uns mais virados ao futuro outros pensados no passado. Correntes distintas, mentalidades distintas, propósitos distintos. Todos válidos até ao ponto em que uns começam a tropeçar nos outros para chegar a um panteão que não existe. Vencer um prémio TCN o que é? Com todo o respeito para os seus organizadores, um bom momento de diversão no máximo dos máximos.

Não transforma um blog em algo melhor, em algo mais popular, em algo mais digno. Não faz do seu autor/autores melhores e mais capacitados críticos ou bloggers. Isso é impossível, mais do que isso, é infantil.

Vejo nestes dias pós-nomeações um ritmo frenético que relembra as reuniões em Los Angeles ou Nova Iorque no mês que medeia os nomeados à entrega dos Óscares. Aí disputam-se prémios no valor de milhões, prémios que definem carreiras, prémios que têm um prestigio próprio. O dinheiro que os Óscares movem é parte do ritmo industrial que tomou o cinema americano. Nada disso faz sentido num prémio online onde o prazer do trabalho bem feito deveria ser a única recompensa. Não vou nem posso criticar blogs por criarem sites mais depressa virados para a auto-promoção com futuros autores/críticos/jornalistas com iniciativas criadas ao milímetro para captar o público, porque eu fui o primeiro a fazê-lo há uns longínquos seis anos. O que não entendo é essa sede de protagonismo que transforma uma divertida campanha colectiva de bom humor num duelo onde não se tomam prisioneiros. Os blogs transformam-se em trincheiras, o voto é pedido como se do maná dos céus se tratasse e, mais triste do que isso, nos submundos virtuais das redes sociais, dos fóruns e chats trocam-se acusações difíceis de provar, sujam-se nomes que não têm nada a ver com esta politica de guerrilha e estabelece-se uma espécie de inteligentzia superior capaz de dictaminar gostos alheios. A ideia de expressões como "nomeado digno", "compadrios", "injustiçados" transporta-nos para uma quinta dimensão que não faz sentido neste espírito colectivo que começa a faltar de forma preocupante entre a comunidade. Quando o voto está aberto a tudo e todos, como podem existir injustiças? A voz do voto falou e a não ser que se esteja acusando a organização do evento de seleccionar nomeados, alguns autores têm de entender que, da mesma forma que dificilmente Shame ou Take Shelter serão nomeados aos próximos Óscares, também há blogs que podem ser do seu agrado que sejam preteridos por outros de maior agrado de quem teve o trabalho (ao contrário do que se passa comigo) de nomear.

Como se de algo realmente importante se tratasse, os prémios TCN, e imagino que os seus autores não o tenham imaginado nunca, começam a ser um pretexto para ajustes de contas, lavar roupa suja, troca de acusações e uma politica de exclusão quando deveria ser todo o contrário.

 

Até ao final do ano quem visita blogs de cinema vai ser inundado com essas petições, umas mais bem humoradas que outras, umas mais genuínas que outras, umas com mais segundas intenções que outras. Haverá blogs que tomem os prémios com humor, outros que façam disso o seu santo Graal como se o ar lhes faltasse. Capazes de entrar em conflicto com os outros nomeados e talvez, como Bill Murray, fazer birrinha quando se anunciem os hipotéticos vencedores numa cerimónia aonde não estarei mas da qual imagino o tenso e frio ambiente que se irá respirar. O Cinema aplaude a iniciativa, como todas, mas não vai entrar nessa espiral porque quando algo se transforma numa arma de arremesso, perde toda a graça que possa vir a ter. Não acredito que, se o Cinema ganhasse, fosse melhor do que o CineRoad, Da Casa Amarela, Keyser Soze´s Place, O Homem que Sabia Demasiado, O Rato Cinéfilo, Um dia Fui ao Cinema e o veterano Royale With Cheese. Nem que seja pior por ficar em último. E não quero acreditar que algum dos nomeados pense diferente. Espero que esse clima de diversão que uniu os primeiros blogs de cinema na Academia de Blogs de Cinema em 2004 não tenha sido totalmente substituído por essa fome de protagonismo, essa ânsia de glória que transforma um espaço de diálogo, desabafo, criação numa ferramenta infantil de reivindicação de algo tão subjectivo como pode ser qualquer prémio.

 

PS: Aparentemente o facto de eu ser "avô" da cineblogosfera (com gente como o JB Martins ou o Nuno Reis) incomoda algumas pessoas. Que tenha estado por detrás de um blog há uns anos, de uma Academia de Cinema na web pioneira e por ter escrito um livro também. Que tenha apontado uma realidade que me preocupa e que, pelo feedback dos leitores do Cinema - que não são muitos - é real, também. Este texto, escrito de forma respeituosa e expressando apenas uma opinião, foi suficiente para que o organizador dos TCN, no seu blog, publicasse um texto bastante critico (para dizê-lo de forma suave) com a minha opinião. Ele tem todo o direito á sua como eu á minha e não vou entrar em discussões públicas. Apenas reforço a minha ideia, mais do que nunca, porque a atitude defensiva de alguns cineblogers a confirma. E reforço a natureza de um texto pacifico e tranquilo que parece que ofendeu a quem não era atacado, que magoou a quem não era mencionado e que tem como simples objectivo alertar para uma realidade que não é do meu agrado. Como imagino que quem tem a mais minima pachorra de vir aqui de vez em quando seja minimante inteligente, deixo o resto á vossa consideração.

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 11:11
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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Suspicion ou a anti-adaptação made in Hollywood

Em 1940 Alfred Hitchock aterrou nos Estados Unidos e levou para casa o único filme seu a ser galardoado com um Óscar de Melhor Filme da Academia. O sofrivel Rebecca - para os seus padrões de qualidade - não lhe permitiu vencer o prémio que nunca receberia - o Óscar de Melhor Realizador - mas tornou-o popular junto do público norte-americano. Um dos principais motivos foi a fiel adaptação do popular e homónimo romance de Dauphne du Maurier que contribuiu fortemente para o sucesso do filme. No entanto, no ano seguinte, Hitch passaria para a posteridade, pesarosamente, por ser peça fundamental num dos exemplos mais gritantes da anti-adaptação, o falhanço absoluto em transportar a realidade de um notável argumento num triste filme por encomenda.

Johnnie assume que o veneno é para si. E só para si. Que a morte é a única solução para o seu gritante problema de solvência.

Lina, como sempre, perdoa-o e esquece-se rapidamente do intenso e agonizante sofrimento que até há segundos a tinham feito pensar que o seu marido queria matá-la para herdar a sua herança. Juntos abraçam-se e seguem, rumo a uma nova vida.

Este é o final de Suspicion, segundo filme da etapa americana de Alfred Hitchock, e provavelmente aquele que melhor funciona como ovelha na sua filmografia. Apesar do Óscar ganho por Joan Fontaine - a sua actriz em Rebecca com quem não voltaria a trabalhar - o filme foi recebido com um pé atrás por público e critica. A razão? O assassinato do argumento original da obra Before the Fact de Anthony Berkeley.

Durante anos Hitch queixou-se de que foi obrigado pela RKO a alterar o final de um livro tenso e absolutamente apaixonante sobre uma mulher que assiste, impotente, à sua tentativa de assassinato pelo marido, um playboy serial-killer. A premissa inicial da obra literária atraiu de imediato o cineasta para o projecto mas os estúdios que o tinham trazido de Inglaterra impuseram um final diferente do livro. E a missão de Hitchcock era fazer com que o final fosse minimamente credível para o público que tinha lido a obra. A ideia original do cineasta nem era a da versão final mas ninguém discute - nem o próprio realizador - que o filme foi feito do primeiro ao último frame com a sua chancela.

Suspicion termina com esse amor eterno entre Johnnie e Linda mas a obra original revela ao leitor um assassino implacável que mata a mulher por envenenamento depois de ter sido responsável pela morte do seu melhor amigo e do seu sogro e de, pelo caminho, trair a esposa com a melhor amiga desta, a empregada e mais algumas mulheres que lhe vão passando pelas mãos. Na puritana Hollywood do código Hayes essas insinuações eram quase impossíveis e todo o rasto de infidelidade foram substituídos pela traquinice de um adulto infantil interpretado maravilhosamente por Cary Grant.

 

O actor inglês, que começaria aqui a sua história de amor com Hitchock - que duraria quase vinte anos - foi a principal razão para a RKO insistir num final mais dócil.

Grant começava a tornar-se num dos actores mais populares de Hollywood depois do sucesso das suas screwball comedies dos anos 30 e do tenso e apaixonante desempenho em Only Angels Have Wings de Howard Hawks. O realizador inglês conhecia e admirava profundamente Grant e cedo fez questão que ele fosse o parceiro de Fontaine nesta tenebrosa viagem. Mas longe estava ainda o anti-herói hitchockiano que Fonda e Stewart tão bem souberam entender na década seguinte. Este Grant era mais afável, cómico e tranquilo do que qualquer personagem de um filme do mestre do suspense poderia fazer supor e transformá-lo num assassino em série era, para Hollywood, um crime de lesa majestade.

A história foi portanto alterada não sem antes Hitchock ter imaginado um outro final, inspirado no livro original, em que Fontaine bebia o célebre copo de leite - que, confessou Hitch a Truffaut, iluminara com uma lâmpada dentro - mas não sem antes escrever uma carta à mãe em que denunciava o assassinato às mãos do infiel marido. Um final que foi gravado mas que ficou perdido nas prateleiras da RKO. A cena final do filme foi reescrita por Alma Reville, mulher do cineasta, e incluída nos últimos dias da rodagem quando nem sequer os actores principais sabiam como iria acabar o filme. Quando chegou ao circuito de distribuição o sucesso foi relativo e à parte do espantoso trabalho da jovem Fontaine, o filme foi catalogado como uma entretida mas mediana obra de um realizador que em Inglaterra tinha prometido muito. O cineasta - que pela primeira vez co-produziu um filme seu - assumiu o erro e jurou nunca mais voltar a alterar o final de um argumento para agradar aos estúdios.

No ano seguinte realizou Shadow of a Doubt e não abdicou do papel de assassino de Joseph Cotten - apesar da dúvida que deixa nos espectadores mais despistados - e a partir daí partiu sempre da premissa de que o público gosta de ser enganado, mas não demasiado. Os seus McGuffins, enganos irrelevantes dentro da narrativa, fizeram escola e os seus finais passaram a ser aclamados como obras primas do suspense.

 

Para trás ficou a vergonha pessoal de ter traído a sua própria filosofia e um exemplo perfeito da anti-adaptação narrativa, algo que no entanto continuou a ser moeda corrente na indústria norte-americana, desejosa de trocar um bom e sério final a mais uns milhares de dólares na conta bancária. Curiosamente Hitchock, o homem que a critica descobriu mais tarde tornou-se também no mais popular cineasta do cinema norte-americano, aliando como nenhum outro a teimosia do autor ao sucesso de bilheteira. Suspicion, como em muitas coisas, é um filme muito seu. Nesse aspecto em concreto é um anti-hitchcock, um anti-suspense e, sobretudo, uma anti-adaptação que só Fontaine e Grant conseguem transformar num filme imperdível.


Autor Miguel Lourenço Pereira às 14:20
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

O Decameron de Woody

Em 1976 o então jovem promissor Woody Allen estava prestes a transformar-se no autor por excelência da comédia intelectual que começava a ganhar sérios adeptos nos bairros mais progressistas de Nova Iorque. Atrás de si vinha já uma filmografia curiosa, repleta de detalhes que começavam a mostrar um verdadeiro sentido de genialidade. Mas foi nesse Outono que na cabeça de Woody se começou a desenhar a obra que iria, definitivamente, marcar um antes e um depois na sua filmografia: Anhedonia.

Claro que ninguém conhece este curioso filme com titulo de medicamento para patologias mentais (segundo a wikipédia é um termo psicológico para descrever a incapacidade de ter prazer em alegrias quotidianas) porque semanas antes de apresentar o filme ao público, a productora e o cineasta chegaram à conclusão que era preciso encontrar outro chamariz. Optaram pelo nome da personagem feminina protagonizada por Diane Keaton, eixo central dos delirios, já habituais, de um Alvy Allen que se inspirou em Diane, ela Hall na realidade antes que Keaton, para dar corpo e alma à sua obra. O filme acabou por se tornar num icone progressista à americana, venceu os únicos Óscares que Woody tem guardados junto às caixas de sapatos do seu armário, e demonstrou como o poder do marketing pode com tudo, mesmo com a ousadia.

Talvez Allen não imaginasse que 35 anos depois tivesse de passar, uma vez mais, pelo mesmo processo de reconstrução criativa que o levou de uma patologia a outra, numa série esquizofrénica de obras-maestras que o redefiniram como um dos cineastas norte-americanos mais globais da história moderna. Foi preciso viajar à Europa, a sua casa espiritual desde há muito, para voltar a ter de reinventar-se antes de aterrar nas salas de cinema. Ao contrário do pecado original, confuso até para os mais intelectuais do Village por onde pululava, o problema que Woody encontra com o seu novo filme é um reflexo da profunda ignorância cultural que hoje é uma realidade indismentível até na própria Europa. O Velho Continente sempre teve esse preconceito - de certa forma aceite sem resmungar pelos próprios americanos - de que era a biblioteca de Alexandria dos dias modernos, a continente onde a cultura e o conhecimento, como os cogumelos, crescia com uma facilidade espantosa face à barbárie das pradarias do outro lado do Atlântico. Ora essa Europa utópica, que nunca existiu, é agora uma Europa orfã, entre outras coisas, de conhecimento. De cultura. Uma sociedade entregue ao consumo imediato, ao estado social grátis e, sobretudo, à sabedoria de bolso, que é incapaz de analisar e entender um titulo mais complexo do que aquele que venha com parte 1, 2 e três. 

Allen não esperava isso dos seus admirados europeus. Quão enganado andava.

 

O seu próximo filme, uma homenagem felliniana, o seu grande mentor temporal, transformava Roma na sua nova Londres, Barcelona ou Paris.

Uma cidade europeia cosmopolita, repleta de vida social e de icones culturais. Uma cidade a ferver com o amor à arte, à cultura e à sabedoria milenar. Uma cidade que o iria entender como poucos, ele também um simples judeu amante de jazz e nomes pretéritos, mas que, feitas as contas, vive num mundo distante do seu.

The Bop Decameron era o titulo de trabalho do seu projecto de Outono (como Annie Hall o foi), um filme onde dois casais, um americano e outro italiano, deambulam pela Cittá Eterna sem nunca se cruzarem mas vivendo episódios similares. Um filme com um elenco de estrelas, como é hábito, onde Penelope Cruz se transforma em "Mamma Roma" de busto proeminente a la Loren, e em que há até espaço para o mais culto e eclético dos artistas europeus, Roberto Benigni, aliar-se ao seu alter-ego americano nesta história de cineastas cultos e esquizofrénicos.

Mas nem a presença do grande e imenso poeta das esquerdas italianas impediram Allen de se desfazer da sua reminiscência a Bocaccio e o seu mitico Decameron, já adaptado ao cinema por Pasolini nos anos 70. Allen viu o filme e ficou impactado com a crueza da obra do cineasta italiano e quando soube que o seu próximo projecto seria em Itália a ideia de homenagear a Pasolini (mais do que a Bocaccio) ganhou forma. Mas à medida que as filmagens iam decorrendo a productora e o cineasta começaram a descobrir uma dura realidade: ninguém sabia sequer o que Decameron era.

O nivel de ignorância cultural na Itália de Berlusconi é proporcional ao tamanho dos decotes das apresentadores de televisão, aos processos arquivados contra o omnipresente primeiro-ministro e, é preciso dizê-lo, à qualidade do último trabalho do nova-iorquino, o já inesquecível e tão recente Midnigh in Paris. Incrédulo, Woody parecia não acreditar quando as pessoas que contactava na indústria cinematográfica italiana (e os seus distribuidores europeus que lhe permitiram uma segunda juventude) não só desconheciam os Decameron originais (a obra escrita e a obra filmada) como os que sabiam de que se tratava o filme pensavam que Bop seria apenas uma versão actualizada do livro erótico de Bocaccio (algo tão insuspeito num homem que fez da masturbação a sua actividade sexual mais reconhecida) e não um titulo de livre inspiração e homenagem. Onde estava a parte 1, 2 e 3 pareciam pensar?

 

Como o cinema é uma arte mas também uma indústria que necessita tornar-se rentável a Allen foi colocado o mesmo problema daquele Outono de 76. E acabou por mudar o titulo de trabalho para Nero Fiddled, um nome que invoca outro lado de Roma (mais destructivo podemos supor) e menos proclive a confusões que não seriam reais se a Europa ainda fosse aquilo que nunca foi mas sempre tentou parecer que era.  Depois de um filme a transbordar de conhecimento e cultura como foi a sua última aventura parisina, ninguém espera que o cineasta repita a dose em versão italiana, por muito tentado que seja a fazê-lo. O público, mesmo o dele, não aguentaria duas doses consecutivas de entretenimento cultural num mundo onde o entretenimento se tornou o pão e o vinho e o cultural o guardanapo a que se limpa a boca. A ignorância nas salas de aula, nos programas televisivos, nas tertúlias cibernéticas (as outras parecem cada vez mais utopias dentro da utopia) é de tal forma gritante para as gerações de hoje que o estranho é saber de quem e o que é Decameron e não o contrário. O conhecimento tornou-se um peso, um karma social face à estupidificação da imensa maioria, daqueles que trocam os clássicos pelo novo Twilight, daqueles que deram razões a Lucas e Spielberg e à sua cultura de blockbuster e que hoje seriam incapazes de identificar em Annie Hall aquele homem com quem Alvy falava e que, de certa forma, previu tudo isto. Um tal de Marshall McLuhan.


Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:57
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Sábado, 23 de Julho de 2011

Cinema de Férias!

Nas próximas três semanas, até ao dia 16 de Agosto, o CINEMA vai estar encerrado para férias.

 

Aproveito para desejar a todos um óptimo descanso e muitos e bons filmes!

 

Até já!!!

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 08:54
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Sábado, 1 de Janeiro de 2011

Piratas para o futuro

O ano novo que agora arranca lança também uma vez mais o eterno debate da pirataria de obras culturais, situação que envolve profundamente os sectores da indústria cinematográfica. A habitual hipocrisia governamental, capazes de manobrar a vida do cidadã-comum a seu antojo (veja-se legislação anti-tabaco) prepara-se para ganhar nova forma com um paquete de leis que se prevê transversal nos principais países europeus, mas que conta com o posicionamento claro da opinião pública. A tamanha hipocrisia ganha especialmente forma quando, progressivamente, os preços das entradas para qualquer espectáculo vão subindo a valores proibitivos, as ajudas governamentais ao sector continuam pujantes e os salários dos principais intervenientes sobem a números insultantes para a maioria da comunidade civil. E no entanto, o termo pirataria, já de si coloca o perigoso sentido ético no meio de um debate vazio em tudo, menos em falsos moralismos.

 

 

 

Que é piratear um filme? Que é atentar contra o direito de um autor, seja esse autor um músico, cineasta, productor ou quem quer que seja?

Hoje em dia as descargas de productos culturais, e ficamo-nos pelos filmes que é o que realmente nos importa, está a atingir os seus valores máximos. A resposta da indústria - e de alguns autores priveligiados - é o confronto. Legal, amparado por uma legislação feita por muito poucos para proporcionar lucro a um grupo ainda mais restricto. Nesse confronto será dificil aos espectadores-internautas vencerem. O legal é quase sempre imoral e esta realidade não é excepção.

A indústria cinematográfica vive, sobretudo, uma crise de ideias. Apostas em productos fáceis, não necessariamente caros e com retorno imediato. Retorno que aumenta exponencialmente quando entra em jogo o mercado de DVD e, posteriormente, a venda para o circuito televisivo, hoje quase tão imediato como o lançamento da própria edição em disco. É nesse mercado paralelo que as productoras realmente encontram o seu lucro. Porque hoje ir ao cinema é uma autêntica odisseia. E não nos esqueçamos. O preço do bilhete de cinema é o que é - ou exagera no que devia ser - pela experiência em si. Pelo som, pelo ecrã, pela qualidade do acento, pelo ambiente que se cria. Por tudo menos pelo filme. Esse, na maioria dos casos, pode ser visto e muitas vezes é-o, noutros cenários, noutras plataformas, e sobrevive. A experiência fica pelo caminho. E com a realidade económica actual só realmente vai ao cinema aquele que procura a experiência de ir. O cinema de massas, como concebido por Hollywood nos anos 30, como objecto de escape, já pouco apela ao espectador que sabe que o producto o vai encontrar à venda em poucos meses para consumir em casa ou directamente no televisor pouquissimo tempo depois. Os internautas limitam-se a antecipar o processo e cortam no lucro de produção, não na liberdade dos autores.

 

Parece indignante ver alguns autores - e em Espanha o debate ganhou esta semana nova forma com vários actores e cineastas a criticarem os espectadores internautas com a reprovação no parlamento da lei Sinde - protestar contra esta realidade.

Estamos a falar, em muitos casos, de elementos que actuam, dirigem e produzem obras que são subvencionadas pelo próprio Estado. Muitos pagam a uns poucos para fazerem filmes que verão ainda menos. Essa tendência europeia de subsidiar o cinema é um dos principais motivos do atraso da Europa face aos demais continentes que já perceberam a mecânica social que implica a produção cinematográfica. A existência de ICAM´s e organismos do género, sempre aptos a apoiar projectos "amigos", traz a burocracia e compadrio politico ao universo da arte. Uma gestação já de si perturbadora o suficiente para depois dar direito a uma reclamação moral por parte de quem não a tem. Como a ministra da cultura espanhola, a argumentista Gonzalez Sinde, que subvencionou com um milhão de euros como ministra um filme da qual o argumento é da sua total autoria. Um filme que, já por si, recaudou 3 milhões de euros em bilheteiras apesar de ter sido o grande sucesso comercial espanhol nas descargas virtuais. A autora da lei que criminaliza esses piratas esquece-se do incompreensivel tráfico de influências que permitiu ao filme, inicialmente, passar a fase de produção.

E como esse exemplo, tantos outros. No caso português são gritantes os casos de António Pedro-Vasconcellos e João Botelho que, incapazes de financiar os seus próprios projectos, escudam-se no porreirismo estatal para garantir que continuam no activo, apesar do relativo desinteresse público às suas obras que, ultimamente, procuraram no sexo fácil o chamariz de uma bilheteira que continua a olhar de soslaio para o cinema pátrio. Em vários países da Europa a situação repite-se, de Tornatore em Itália a de la Iglesia em Espanha, criando um ciclo fechado onde o dinheiro público cai sempre nos mesmos bolsos que acabam por ser, paradoxalmente, os que depois reclamam a penalização do espectador internauta. Em Hollywood, onde as descargas significaram um profundo retrocesso no ritual de ir às salas de cinema, o problema tem outra dimensão. Os filmes pirateados são-no, essencialmente, para um público que não pode ver in loco os filmes em questão. Ou porque as estreias são reduzidas (o mercado americano de distribuição está repleto de paradoxos) ou porque são espectadores internacionais que querem antecipar, em semanas, as estreias previstas para a sua terra natal. Os grandes blockbusters continuam a gerar milhões, o cinema animado e familiar está em crescimento e a perda significativa nota-se no cinema indie e mainstream dramático. Mas aí a pirataria é a menor das culpadas. Os preços, horários, fecho de salas centricas e, sobretudo, a emergência do mercado DVD a um preço acessível travou a ida regular de vários espectadores ao cinema. Esses são, provavelmente, os que menos recorrem ao filme pirateado. E acabam por ser, em grande parte, os grandes ausentes neste debate.

 

E voltamos ao cerne de quem defende a lei da criminalização da pirataria. Muitos falam no direito de autor violado. Mas direito de quem?

Do cineasta, actor, productor, argumentista ou técnico que já foi pago previamente e que não vê afectado os seus rendimentos? Porque os salários por prestação do filme no box-office são cada vez mais raros, esses grandes nomes que se aliam contra a causa da democratização do cinema fazem-no mais por compadrio do que por sentimento de injustiça. Da mesma forma que o filme estará a repetir-se, vezes sem conta, no circuito televisivo gratuito anos sem fim (não foi It´s a Wonderful Life resgatado do anonimato pela televisão gratuita?), também a internet permite um acesso a todos de um producto acabado e em nada vilependiado. Pior serviço contra os direitos de autor fazem os espanhóis, franceses, italianos ou alemães que dobram todos os filmes estrangeiros, danificando directamente o producto final oferecido e o respectivo direito de autor e actor a ver a sua obra reproduzida fielmente. Mas isso, como é uma indústria paralela que gera dinheiro e emprego, continua a ser um tema tabú. A pirataria, como não gera lucro, nem para productoras nem para os cofres do estado (como muito para as empresas telefónicas que ganham com o volume de descargas nos seus servidores), rema contra a corrente do falso moralismo e do politicamente correcto.

Um espectador que descargue um filme e fique impressionado por um actor, argumentista ou director e se passe por uma loja e compre um dvd onde estes apareçam está a contribuir, indirectamente, para o sucesso da indústria. Mas esse mesmo espectador, sem essa liberdade de escolha, e com os preços proibitivos do mercado (em Londres o preço de um bilhete ronda os 12 euros, em Madrid os 8, em Roma os 9 e em Portugal já ultrapassou os 5 em alguns locais), talvez nunca tivesse oportunidade de o ver e de descubrir uma nova oportunidade. Mas aqui o importante é o lucro e nada mais. O lucro das equipas de produção, dos milionários de serviço que ocupam neste debate o mesmo papel que os gestores bancários, os principais responsáveis politicos ou os empresários mais elitistas. O circulo do dinheiro é fechado e quem o ousa debater sabe que terá, contra si, toda uma máquina habilmente preparada com muita lei e pouca moral.

 

 

 

Descargar filmes faz parte da consciência de cada um. Os que valorizam a experiência cinematográfica acima de todas as coisas têm a tendência em menosprezar o cinema pirateado. Não o devem fazer. Ambas as realidades podem coexistir num mesmo cinéfilo, que procura coisas diferentes de dois productos pouco similares. Piratear um filme devia ser um direito, não uma cruz. Não há, nem haverá nunca, perdas suficientes para justificar esta corrente persecutória. Talvez essas indústrias paralelas de dobragem, esses dinheiros estatais ou esses lucros excessivos, producto do circuito de distribuição sejam a verdadeira pirataria. O resto é apenas sobrevivência. Como em tudo neste Mundo...

 

Feliz 2011!

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 10:57
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Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

2010 - Filmes do Ano II

 

 

 

Inception

 

Se há um cineasta com uma carreira absolutamente imaculada na passada década, esse é sem dúvida Christopher Nolan. Foram só cinco filmes, mas todos eles atingiram um grau de genialidade ao alcance de muito poucos. Nem Eastwood, nem os Coen, nem Scorsese, nem Jackson puderam roçar de forma consecutiva a perfeição. Memento, Batman Begins, The Prestige, The Dark Knight...a conclusão lógica a este ritmo frenético só podia ser Inception.

Obra-prima para a história, verdadeiro tour de force emocional, a mecânica do último filme de Nolan desafia as próprias noções humanas de acção-reacção que pautam os nossos sonhos, nosso refugio e também, inevitavelmente, a nossa perdição. Nessa aventura onírica a acção é o de menos, o som de Piaff ao ritmo da partitura titânica de Hans Zimmer pautam o ritmo de tragédia grega com traços profundamente shakesperianos onde a redenção funciona como alavanca para restaurar a normalidade. Redenção de um filho com um pai, redenção de um homem de negócios com o seu parceiro, redenção de um homem com uma mulher. Mulher intensa como Marion Cottillard capaz de reduzir a um autêntico suplicio de Tantalo o drama de Cobb, o inimitável Di Caprio, e atirar toda uma equipa de audazes vanguardistas para um mundo imprevisivel, temivel e perturbador. Até ao último frame, a essência de Inception está dentro de cada um de nós. Nolan provou que se pode chegar tão longe, depois de já ter dado vários toques de atenção. Será muito dificil igualar-se a si mesmo. Talvez nos sonhos de cada um.

 

 

 

 

The Hurt Locker

 

Não é por acaso que o filme que triunfou nos Óscares em 2010 tenha sido o menos visto da história do cinema norte-americano. The Hurt Locker é tudo menos um filme made in USA. A frontalidade da camara de Katryn Bigelow, uma mulher para a história, choca com o prosaico compadrio da mensagem patriótica que pauta quase todo o cinema bélico americano, mesmo aquele mais critico. A América dos supermercados, casas pré-fabricadas e familias funcionais e perfeitas é uma utopia que passa ao lado de um filme que vive constantemente no fio da navalha. Na trepidante emoção de um fim previsivel e inevitável para um homem, um espelho do lado selvagem do ser Humano, que sabe que está destinado à acção e não á sedentarização sócio-cultural que implica a vida, hoje em dia, na América e no mundo ocidental. Mais do que as bombas que desarmar é a mente de Jeremy Renner, imensa revelação/confirmação, que funciona como detonador de uma realidade a que muitos preferem fechar os olhos, escudando-se em hinos, bandeiras e discursos feitos. The Hurt Locker é dificilmente um filme bélico. Na essência, é uma obra profundamente filosófica e humana. E, acima de tudo, livre de preconceitos.

 

 

 

 

Shutter Island

 

Quanto Martin Scorsese quebrou a malapata de 30 anos e levou para casa os Óscares que lhe proporcionou The Departed, um dos seus filmes mais certeiros apesar da critica de alguns, a maioria pensou que o cineasta iria abrandar o ritmo e dedicar-se a projectos mais pessoais. Mas no meio de tudo isto surge Shutter Island e o velho ritmo frenético de Marty onde nada é, absolutamente, o que parece. Uma investigação de rotina transforma-se numa caça ao rato trepidante onde nenhum detalhe pode ser olhado com despreza, com pena de perder-se o fio à meada. Acreditar ou não, uma decisão pessoal que o cineasta deixa na mão do espectador, é a mecânica de Shutter Island, um filme superlativo que entra directamente para o top 10 da carreira do realizador, o último dos movie-brats a manter-se no activo, e que acenta, apesar de tudo, na imensa caracterização desse monstro interpretativo que é Leonardo Di Caprio. Tal como no anterior projecto em conjunto (e já vão quatro), também aqui o mais completo actor norte-americano da actualidade dá a profundidade necessária para que a camara de Scorsese entre em mundos inimagináveis. Um filme a que é impossível resistir.

 

 

 

 

The Road

 

É sempre dificil orquestrar uma obra onde os agentes se reduzem até chegar ao nada. O cataclismo do planeta Terra, descrito magistralmente por Tod McCarthy na obra homónima é o ponto de partida para um filme trepidante e tenso até ao momento final. Esperança, muito pouca. Mas o desespero, a morte, conceitos inevitáveis quando se versa sobre o fim, vão-se diluindo no coração de uma relação fraternal que se ampara numa pistola com as balas suficientes para evitar uma dor fisica para lá da humana. No meio dessa corrida contra o espaço, mais do que contra o tempo, John Hillcoat encontra o seu profeta, o seu mensageiro perdido no olhar destroçado de Viggo Mortensen, o homem que perdeu tudo a ponto de sentir numa simples gota de Coca-Cola todo o prazer de um passado obliviado para a eternidade. The Road é um dos filmes mais humanos da última década porque nele está todo o lado obscuro da Humanidade. E só isso é suficiente para ver e rever, ver e rever, ver e rever...

 

 

 

 

 

 

The Social Network

 

O cinema continua a resumir-se facilmente a um tridente fundamental: guião, representação, direcção.

The Social Network tem tudo isso na medida certa. Uma história real e conhecida, sobre como um jovem universitário desbravou o caminho a ponto de tornar-se no mais jovem bilionário da história, desenhada com uma precisão cirúrgica. Um elenco de jovens promessas que surpreendem (Timberlake, Mara) e confirmam (Eisenberg, Garfield) e mantêm o ritmo alto da trepidante narrativa. E a cuidada direcção de um cineasta que evolucionou bastante desde os seus primeiros dias de thrillers com tons negros, como Se7en e The Game, até ao drama orquestrado com todos os condimentos que agradam ao público mainstream, como já tinha antecipado com The Curious Case of Benjamin Button. Graças a esta receita tão velha quanto o cinema mas cada vez mais a cair em desuso, é fácil sentir que The Social Network emerge como um dos filmes mais importantes de 2010. Sem ser um fenómeno cinematográfico capaz de criar escola não deixa de apontar um caminho que muitos defendem há largos anos e que a teimosa Hollywood teima obstinadamente em esquecer.

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:17
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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

2010 - Os Filmes do Ano I

 

 

 

The Town

 

Profundo exercico de profundidade filmica, em The Town houve uma tripla confirmação. Que Jeremy Renner é um grande actor em potência. Que Ben Affleck é um grande realizador em potência. Que o cinema dos Eastwood e Scorsese terá sempre herdeiros em potência. O que The Town consegue criar é um espirito de regresso ao passado, ao bom cinema heist, que conheceu a sua última belle époque na década de 70. O filme da crueza humana, relembrando os dias de um tal Scorsese em Mean Streets e de Eastwood em Mystic River. E relembra que Hollywood pode e sabe ser original quando quer, havendo mais do que mão de obra e ideias suficientes para criar uma dinâmica captivante do principio ao fim. Num filme profundamente masculina há exemplos femininos sólidos e bem longe dos esteriótipos, há uma profunda busca de redenção e um retrato de dor e impotência que se estende hoje a qualquer realidade suburbana do Mundo. Um filme que é, também, uma história de amor e uma promessa de que algo melhor está sempre por vir.

 

 

 

 

The American

 

Há alguma crueza no frame final de The American, uma especie de punição divina que por muito inevitável que soa não deixa de confirmar o tom amargo de cada movimento narrativo que vai acompanhando a última missão de um assassino a soldo numa aldeia perdida no meio do monte no coração de Itália. Há um padre com remorsos, uma belissima prostituta à procura de um rumo e um homem farto de ter de se esconder. No meio deste cruzar de emoções um objectivo nunca claro, uns coadjuvantes que soam a falso e um ritmo pausado, fotográfico e cinzento, capazes de transformar a solarenga Campania num prelúdio eterno do Hades. The American é, portanto, um filme imprevisível e de um ritmo muito europeu com um desempenho extremamente sólido de um actor que parece ter sido moldado para este tipo de papeis e com um cineasta que confirma ter um toque de distinsão que promete algo novo a cada twist. E em The American o que não faltam são movimentos seguros e desconcertantes. Como a vida em si mesma.

 

 

 

 

The Ghost Writer

 

Quem leu primeiro o livro de Robert Harris sabe que a tarefa de Polanski estava facilitada por uma trama muito bem estruturada com base numa ficção que não dorme muito longe da realidade. O excelento argumento do autor britânico abre as portas para um thriller noir intenso e sereno que o realizador polaco sabe manobrar com a precisão de um relógio, controlando os tempos e os segredos com a certeza de que o caminho final é um só e que os atalhos acabarão todos por mergulhar na avenida principal. Se Ewan McGregor exacerba o seu habitual ar de espanto a cada frame, Pierce Brosnan confirma-se como um eterno seductor e rapta a camara com facilidade dando uma profundidade à narrativa filmica que a obra escrita não possui. Rei dos filmes europeus do ano, The Ghost Writer caminha quase sempre pela estrada certa e mesmo os solavancos que surgem pelo caminho apenas servem para preparar o espectador para tudo menos para o final, destilado como um whisky forte, não apto para os mais débeis.

 

 

 

 

An Education

 

O cinema britânico sempre teve um toque de subtileza que lhe permite mergulhar no universo social com mais certezas do que dúvidas, fugindo do existencialismo continental e da falsidade norte-americana. Esse respeito pelo real e essa absorsão do mundano permitem que, de tempos a tempos, surjam obras da talha de An Education.

A dinamarquesa Lone Scherfig pegou num guião do muito britânico Nick Hornby sobre uma adolescente seduzida pela Londres do twist (e não só) e montou um filme delicioso e mordaz onde a critica social da mentalidade fechada dos ingleses dos anos 50 encontra já o eco da liberdade que os swinging sixties iriam proporcionar aos mais ousados. No meio desse turbilhão de emoções e dúvidas surge a imagem chocantemente apaixonante de Carey Mulligan. A jovem rapariga do frame 1 dista muito da emancipada mulher do frame final. Pelo meio assistimos a um filme profundamente feminino e sedutoramente humano que acenta, e muito, na qualidade interpretativa da grande revelação do ano cinematográfico, uma verdadeira lufada de ar fresco que ajuda a relembrar que, no cinema como em tantas outras coisas, os ingleses têm um toque muito especial.

 

 

 

 

10º

Invictus

 

Clint Eastwood tem um toque de classe que o torna especial. Qual rei midas, qualquer projecto que toque, por muito inverosímel que soe, torna-se um filme obrigatório de ver, rever e pensar. Até mesmo a sua primeira aventura no mundo do desporto (e num desporto tão pouco americano) se transforma numa épica humana que faz todo o sentido para quem seguiu a evolução na carreira do último dos clássicos norte-americanos. Com um dos seus actores fetiches (Morgan Freeman como o ponderado Nelson Mandela) e o redescoberto Matt Damon (que repescou para Hereafter), o cineasta montou na perfeição o cenário em que se encontrou a África do Sul do pós-apartheid, onde o desporto serviu, mais do que nunca, para unir os dois pólos raciais que se enfrentavam no país. Um filme terno, intenso e filosófico, misturado com belas sequências de acção e um ritmo captivante, Invictus é sem dúvida um marco cinematográfico no ano que termina e uma confirmação absoluta de que a filmografia de Eastwood se aprimora a cada ano que passa.

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 11:54
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