Do mundo da animação já se disse tanto coisa. Se é para pequenos, se é moralista, se é limitado. Mas há anos que há um grupo de criativos que se tem determinado a provar, ano após ano, que a imaginação e a magia do cinema contemporaneo sai das suas mãos. Não se enganem. WALL-E não é um filme para os mais novos. É para todos. É é irresistível!
Longe vão os dias em que as histórias de princesas e herois da Disney eram sinónimos do cinema de animação. De um cinema para os mais pequenos (que na realidade, nunca o foi). E se há alguma certeza no sempre incerto mundo da arte e espectáculos é que há apenas um estúdio criativo capaz de ter sucessos (de critica e publico) ano após ano: a Pixar. Parece ontem que lançaram aos tubarões Toy Story. E parece hoje pela manhã que sucessivamente foram estreando verdadeiras obras de génio como Finding Nemo, The Incredibles, Cars e Ratatouille. E agora tocou-lhe a vez.

Ele tem também a sua rotina. Levanta-se de manhã. Prepara-se para um árduo dia de trabalho. Sai de casa e começa a sua labor. Durante todo o dia apanha tudo e recicla-o. Guarda o mais importante (o verdadeiramente importante), e disfruta com cada segundo. Mas falta-lhe algo. Ele está só. Sozinho no meio do deserto que se tornou o planeta Terra. O nosso planeta Terra. E a sua missão é limpar as milhões de toneladas que deixamos para trás. Que destruiram o nosso planeta. A história até pode parecer moralista, face ao crescer deste sentimento ecologista (com direito a Nóbel da Paz e tudo) dos últimos anos, especialmente junto da inteligentzia norte-americana e europeia. E é-o, no sentido em que exorta a pensar. Claro que a data em que o encontramos não é para nos assustar. Ele vive a centenas de anos de distancia. Mas ele não é o primeiro da sua espécie. É o último. A última esperança de devolver vida a um planeta que deixamos morrer.
Ele é WALL-E. O nome não é inocente. As siglas (Waste Allocation Load Lifter Earth-Class) são o pretexto para falar de um outro Wall (Wall-Mart, um dos exemplos das grandes cadeias americanas que não são lá muito amigas do ambiente). Mas ele sim. Provavelmente a mais pura e inocente criação da história do cinema. Nele há obviamente algo de E.T. (na fala essencialmente) e Number Five, o simpático heroi de Short Circuit com que guarda semelhanças nada inocentes. Mas ele é também o que resta do herói capriano. Do ser que valora o vulgar pela sua magia, que procura no quotidiano as verdadeiras obras de arte. E que se deixa seduzir por uma planta verde no meio de um universo de lixo. E hoje em dia, em que já produzimos mais lixo do que dezenas de gerações passadas conseguiram, quem prefere a pequena planta verde a toda a panóplia de “coisas” que por aqui andam? WALL-E não é nenhum herói. Tem medo. Chora. Sofre. Tem frio. Precisa de recarregar as baterias senão morre. Mas sabe distinguir entre o certo e o errado. É um robot. Mas é mais humano que todos os Seres Humanos que sobreviveram à destruição da Terra. É a sua Humanidade que consegue conquistar Eve. A primeira. A origem da vida para Wall-E (para além da sua eterna amiga barata, claro está). Ela também é um robot. Também tem uma missão. Mas é incapaz de resistir aqueles olhos, aquela bondade, do robot que atravessou literalmente o Universo só para provar-lhe que viver sem ela é pior que o fim da Humanidade. Esse apartado romantico, que dá mais humanismo a uma história muito séria, é a concessão ao convencionalismo cinematográfico do cinema de animação (e não só) desta história. Mas também serve para mostrar que para se ser Humano não é necessário ser feito de carne e osso.

A missão ecologista de WALL-E é alheia à sua vontade. Mas serve para despertar consciencias. Por onde ele passa, tudo muda, tudo floresce. Os humanos que se cruzam com ele despertam do sonambulismo a que foram devotados pelo império corporativo que os levou a passear pelo Universo na cápsulo perfeita. Os robots que o conhecem não conseguem deixar de ver nele a sua imensa bondade e naturalidade. Com traços retirados do mais inocente Charlot (no andar, reparem no andar), ele é também o nobre vagabundo. O que trabalha de sol a sol e que nunca recebe uma palavra de apreço. Mas que sorri e volta ao dia seguinte. WALL-E é talvez o ser Humano perfeito. Mas em forma de robot. No filme de Spielberg sabiamos que o E.T. queria voltar para casa, que este não era o seu mundo. Mas a Terra è a casa de WALL-E. Foram os outros que o deixara sozinho e ele não quer ir-se embora. Quer que eles (que ela) voltem com ele. Quer ver mais verde à sua volta.
Uma das grandes mais-valias deste filme é que é feito quase sem diálogos. A acção entende-se no sentimento e nos motivos. WALL-E pouco fala, mas quando diz algo, sente-o. Os outros percebem-no e seguem-no (ou tentam impedi-lo). Mas não lhe ficam indiferente. Não é nenhum profeta. Mas traz com ele a salvação. E com isso a Pixar (sempre eles) manda o seu sinal ao mundo. Algo está a passar e este é um dos possiveis cenários de futuro. Mas não quer necessariamente dizer que venha a existir algum Wall-E. Tem é de nascer, dentro de cada um de nós, um WALL-E, pronto a dizer basta e plantar a sua pequena plantinha verde. Pronto a valorizar a simplicidade e beleza da vida.
Para uns pode soar demasiado moralista, e a verdade é que este filme é completamente distinto dos anteriores da Pixar. Dá um passo mais além, como só as grandes obras-primas da Disney conseguiram, em dar uma dimensão “bigger than life” à sua história. A base de partida é muito simples, mas a magia que a envolve é irresistível. E sim, eu também queria ser amigo de WALL-E.
Classificação - 




Director – Andrew Stanton
Productora – Pixar
Classificação – m/6
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