Durante décadas foi a estrela mais brilhante do firmamento. Há pouco mais de um mês, a estrela apagou-se. Mas tal como só milhões de anos luz depois de suceder conseguimos descubrir a morte de uma estrela, também só daqui muitos e muitos anos se poderá olhar para o céu e não ver bem presente a aura de um actor universal. Um tal de Paul Newman!
Não queria ficar para a história pelos seus olhos azuis. Uma vez Lee Strasbeg, director da escola de representação Actor´s Studio, disse que a sua beleza não lhe permitia chegar ao nível de Brando. Um fantasma sempre presente na sua carreira, mas um fantasma, que hoje, olhando para trás, pode ver-se que foi facilmente ultrapassado. Newman não teve uma carreira de metamorfoses (como James Stewart), nem passou os anos a fazer versões mais ou menos convincentes do mesmo tipo de personagem (como o “duro” Bogart). E não sofreu com os altos e baixos (a pique) como lhe passou a Brando.

Paul Newman foi provavelmente um dos actores mais completos da história do cinema. E não apenas porque é preciso ir buscar mais do que os dedos das mãos e pés para encontrar papeis memoráveis seus ao baú das recordações. As suas múltiples “personas” ajudaram igualmente a imortaliza-lo como algo mais do que uma estrela cintilante da constelação de Hollywood. Mas é provavelmente na sinceridade e honestidade com que Newman viveu a sua vida (e a sua carreira), que o fazem destacar imediatamente dos demais. Nunca foi o verdadeiro herói nem provou o papel de vilão. Viveu sempre no limbo. Sempre na percepção de que, tal como na vida, também no cinema não devem existir verdades absolutas. Nem Bem, nem Mal. O Ser Humano é mutável, os valores são pessoais, e as suas personagens sempre se moldaram pelo mistério. Do sentimento e da alma. O sorriso matreiro e o corpo de heroi grego escondiam muitas vezes personagens a viver intensos conflitos interiores. Newman triunfou porque foi o primeiro actor a gritar claramente que não é necessário ser o “bonzinho” ou o “duro com bom coração” para que conquistar o público. O que é preciso é ser-se honesto consigo próprio.
As suas personagens mais icónicas (Billy the Kid, “Fast” Eddie Felson, “Cool Hand” Luke Jackson, Frank Galvin, Sully Sullivan, …) estão marcadas de defeitos por todos os lados. Fanfarrões, bebados, arrogantes, egocentricos…estão muito longe do tipico herói capriano, mas também do anti-herói do cinema negro ou do “confuso” modelo a seguir pelo actores do Studio.
Newman herdou de todos eles facetas particulares e moldou-as à sua medida.
O seu rosto inspirava a mesma confiança que era habitual encontrar nos herois clássicos (como Gary Cooper) e isso valeu-lhe muitas criticas…criticas até dele próprio, que se queixava de que muitas vezes a sua beleza tinha-o impedido de ir mais além. Mas a sua postura em camara bebia claramente dos ensinamentos que teve de Lee Strasberg e da sua equipa. Só que Newman não vive em pleno confronto consigo próprio, como acontecia com Brando e Dean (dois nomes com quem se comparou sempre apesar de…não haver comparação possível, aparte da origem). As personagens de Paul Newman, o actor, assumiam quem eram do principio ao fim. Essa honestidade fe-lo ainda mais grande, porque permitiu perceber que para se ser um grande actor não era necessário encher-se as bochechas de algodãou ou, pelo contrário, de reduzir à minima expressão facial uma performance. Para ser-se um grande actor bastava com ser-se humano.

Paul Newman foi sempre humano. No ecrãn e fora dele. A vida que levou é uma história de sucesso sem precedentes. Casado 50 anos com a mesma mulher (Joanne Woodward), que conheceu quando estudava no Actor Studio, Newman conseguiu sempre escapar ao “terramoto emocional” que é o mundo do espectáculo. A sua origem não era a do humilde da provincia ou do conflictivo filho dos bairros sociais. Podia ter sido muitas coisas. Piloto de corridas (chegou a ficar em segundo lugar nas 24 Horas de Le Mans e era dono de uma das maiores equipas dos campeonatos Indy), empresário (a sua empresa de comida Newman´s Own é uma das mais bem sucedidas dos EUA) ou até modelo. Escolheu ser actor. Mas acabou sempre por ser muito mais do que isso. A sua (quase) desconhecida faceta como cineasta esconde um homem com uma profunda sensibilidade dramática tanto atrás como à frente das camaras. Rachel, Rachel (1968), The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds (1972) ou The Glass Menagerie (1987) são alguns dos mais apaixonantes filmes realizados nos últimos 40 anos e espelharam bem que para lá do Newman estrela, havia muitos mais por descubrir.
É irrelevante fazer uma lista dos filmes ou dos papeis que fizeram de Paul Newman um dos “grandes”. A sua morte é física. Como todos, também Paul Newman não escapou à sua hora. Mas se todos morremos, muito poucos são aqueles que se conseguem tornar imortais. Paul Newman é um desses homens. Conquistou a imortalidade a pulso e merece-a como nenhum outro. Foi-se o homem. O actor, esse, ficará para sempre plasmado no ecrãn, a olhar-nos profundamente com aqueles olhos azuis pelos quais não queria ser lembrado!
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