Há personagens que a história cria. E há personagens que nascem no cinema. E depois há aqueles que se imortalizam em vida para logo se afiançarem para a eternidadecom o seu respectivo biopic. Ernesto Guevarra nasceu para ser imortalizado em filme, apesar da sua lenda não necessitar qualquer versão de celuloide para fazer dele um dos icones do século XX. O projecto era ambicioso e há muito que germinava. Finalmente ganhou vida, mas o resultado final não poderia ter sido mais decepcionante, especialmente se tivermos em linha de conta que a há vidas que não precisam, em nenhum momento, de adornos especiais para resultarem convincentes.

Steven Soderbergh, cineasta experienciado no mundo indie, tentou fazer deste biopic bélico, uma história de ascensão pessoal de um homem com um carisma excepcional, um génio fora do comum, mas que não conhecia limites. O resultado é um filme sobre um homem que tem traços de super-heroi em forma humana e que açambarca, para si, todo o protagonismo de um movimento que funcionou com várias cabeças e um lider claro. O formato em flash-back, é a fútil tentativa de Sodebergh de tentar dar uma dinamica narrativa a um filme que parece não ter passado pela sala de montagem. O amontoar de sequencias, todas de traços muito similares, apastelenta o filme desde o inicio e longe de dar velocidade ao filme, trava-o a cada sequenica. O objectivo, parece ser o de concentrar todas as atenções no "argentino" que aterra na Sierra Maestra do nada, para se tornar num lider revolucionário sem igual, capaz de montar um exército e derrotar as tropas governamentais, sem conhecer o travo sabor da derrota. Mas a falta de equilibrio pode ser um erro dificil de reparar. E quando em causa estão personagens de tamanho carisma, a tentação é grande. Já tinha acontecido o mesmo em filmes como Alexander. E volta a passar-se o mesmo.
Não há aqui uma verdadeira dimensão humana, um entendimento para as acções do mitico Che, senão um desfilar de propaganda comunista, frases feitas sem um equivalente claro visual ao largo do filme. Não se entende o porque, em nenhum momento, se transparece uma verdadeira dimensão humana em nenhum dos personagens principais. Nem em Guevarra, nem em Fidel Castro - que deveria ter funcionado com personagem nuclear mas que, estranhamente, acaba relegado para uma quase caricatura - nem para o mundo que o próprio Che desafia. No meio de toda esta salada de guerrilha e selva cubana, passeia-se Benicio del Toro. O actor porto-riquenho foi um dos principais impulsionadores do projecto e é a alma do filme, quando aparece, e um dos seus pontos fracos, quando se deixa submergiri pelo tédio. No entanto, a recriação fisica e propagandistica da personagem é apreciável, até porque Del Toro nunca se assumiu ao longo da carreira como um constructor de personagens. É um digno trabalho de actor num filme confuso consigo próprio e que nunca consegue transportar fielmente o espectador para o mundo que o próprio Che soube criar.

No final fica claramente no ar a ideia de que Soderbergh foi incapaz de descubrir a essencia de Ernesto Guevarra e transforma-lo num filme. Felizmente, o "Che" já tinha ficado para a história cinematográfica anos antes, com um verdadeiro trabalho de recriação histórica onde o importante é conhecer o homem antes de se passear sobre a sua obra. Em Diarios de Motocicleta, não estamos diante do Che, mas conhecemos as suas origens e o porque do seu ideal revolucionário. Em Che estamos a meio da revolução, mas em nenhum momento conseguimos olhar para aquele homem e ver nele um dos icones da luta anti-capitalista dos anos da Guerra. Ficamos á espera pelo dia em que alguém consiga conciliar a verdade e a lenda.
Classificação - 

Realizador - Steven Soderbergh
Elenco - Benicio del Toro, Demian Bichir, Rodrgio Santoro
Produtora - Telecinco
Classificação - m/16
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