Quando estreou, no longinquo ano de 1946, foi catalogado de melodramático, meloso e desadequado para o seu tempo. Estavamos no pós II Guerra Mundial, os anos 40 tinham aberto o passo ao cru cine noir e o velho império de Hollywood começava lentamente a desmoronar-se. Outros tempos para que um veterano dos anos de ouro assina-se a sua obra prima, o filme que catalogou "como o mais belo alguma vez feito". O resultado está á vista. Um falhanço na bilheteira como há muito não se via na obra do cineasta. Esmagado pela critica, agora rendida defenitivamente aos Bogart, Mitchum e Hitchocok´s, o filme parecia votado ao eterno esquecimento. No entanto, chegaram os anos 60. E com ele a televisão. E na noite do 24 de Dezembro, para encher a programação, começaram a programar-se filmes "familiares". E subitamente, quando ninguém o esperava, o filme voltou. Ano após ano não havia televisão que não o emitisse até á exaustão. Os criticos começaram a reavalia-lo. O público a compreende-lo. E a história voltou a acolhe-lo no seu seio. Mas, meio século depois, será que alguém conseguiu verdadeiramente descifrar It´s a Wonderful Life?

Nem á época, nem hoje. O filme continua a ser visto sobre os mesmos parametros analíticos e o único que mudou entretanto foi a sociedade. Da negritude do pós-guerra, chegaram os gloriosos anos 50 e 60, e a bondade de George Bailey passou a ser vista como algo fascinante para as novas gerações. O filme tornou-se num icone do sonho americano, da coragem do homem comum, capaz de lutar até ao fim, nem que para isso necessita da ajuda da sua comunidade, amigos e familia. Estavamos perante a verdadeira essencia da sociedade americana e ao inexplicável insucesso inicial, chegou a previsivel consagração. Já não apenas em aspectos cinematográficos, já que aí, o filme continua a ser o mesmo. Não escapou á passagem do tempo, mas conservou-se muito bem, comparativamente com outros filmes contemporaneos, mais alabados á época. A realização inatacável de Capra consegue criar um perfeito ambiente para a sua habitual troupe de actores onde pontifica o actor capriano por excelencia, James Stewart.
É curioso pensar que a critica, especialmente a europeia, sempre desprezou o Stewart capriano enquanto que elevou até ás alturas da genialidade, o actor de Hitchock, Mann ou Ford que se seguiria. Catalogariam as suas performances de perturbadas, a viver num verdadeiro limbo psicologico entre o certo e o errado, um verdadeiro homem marcado por um passado dificil de desvendar. Todo o oposto ao optimismo e coragem dos dias em que trabalhou ao lado do seu primeiro mentor. No entanto, é fácil ver, que a existir esse turning point na carreira do actor, esse momento não é posterior a este filme, como se tem escrito. Mas no próprio filme. Estamos diante de um actor marcado por uma personagem que inicia o filme a contemplar a possibilidade de suicidio. Não aguenta mais. Passou toda a vida a ajudar os outros, abdicando dos seus sonhos e ideais. Ficou preso a uma pequena cidade quando o seu verdadeiro sonho era correr o Mundo. Não ajudou o seu país na guerra enquanto viu o seu irmão ser coroado heroi. Não enriqueceu ao contrário de todos os outros e trocou a possibilidade de uma vida inesperada pela rotina habitual da luta pela sobrevivencia. Esta personagem, que vamos descubrindo em planos tão fabulosos como quando Bailey é confrontado, após a morte do pai, com a possivel falencia da sua empresa. Ou com o regresso a casa do irmão, já casada e com uma profissao de luxo assegurada. Esse homem, que criou a sua familia graças ao esforço do seu trabalho diário, é, como muitos homens do dia de hoje, um homem dividido. Entre a vida rotinária do seu dia a dia e os sonhos sucessivamente frustrados. Nesta situação vivem hoje milhões de pessoas, confrontadas com uma crise em tudo similar aquela que Bailey se deparou no dia do seu casamento.

It´s a Wonderful Life resulta como um feel-good movie devido ao seu tipico final capriano. O anjo que mostra a George o que seria do Mundo sem ele, a ajuda dos amigos, as asas finalmente entregues...a bondade triunfa...mas será que essa vitória é completa. Potter fica com o dinheiro que pertencia a George. Este continua a depender das miseras poupanças dos amigos para sobreviver e todos os seus sonhos continuam sem se poder concretizar. A crise economica que o prenderam á sua cidade natal continua a te-lo bem atado á sua casa que teve de construir a pulso.
Portanto, é fácil ver que o tipico filme da noite de Natal, não é o último filme da obra capriana herdeira dos ideias do New Deal. É sim o primeiro verdadeiro drama do pós-guerra, o primeiro filme a capturar a dicotomia entre o certo e o errado no meio das areias movediças que é a sociedade capitalista contemporanea. Apesar de futil. o debate sobre qual é o melhor filme da história, não deixa de ser tão fascinante como qualquer outro. No entanto, It´s a Wonderful Life é mais do que isso. Consegue ser o filme que, mais de sessenta anos depois, continua a plasmar perfeitamente a problemática existencial do homem comum de classe média e a sua constante refrega entre os sonhos de glória, aventura e conquista com a crua realidade do trabalho das 9 ás 19 atrás de uma secretária ou de pé diante do grande público. A crueza da vida continua a manifestar-se tão profundamente hoje como então, num mundo que acabava de sobreviver a uma grande crise financeira e uma guerra de proporções mundiais. Mas os sonhos não conhecem impedimentos reais para ganhar vida, e tal como George Bailey, todos temos, num canto da mente, aquela mala preparada para partir. E como George Bailey, todos temos responsabilidades que não nos deixam partir. E se Bailey se desespera, a verdade é que ele é apenas um espelho do desespero colectivo que todos sofrem no dia a dia. Se este texto fosse escrito em ingles, o trocadilho com o titulo original do filme seria um óbvio It´s Still a Wonderful Life? Mas na lingua de Camões a tradução desta obra-prima transformou-se em Do Céu Caiu Uma Estrela. Será, portanto, que ainda cairão suficientes estrelas para iluminar este negro céu? Sonho ou realidade? Aventura ou responsabilidade? George ou Bailey? Que face da moeda nos espera amanhã?
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