Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

007 QUANTUM OF SOLACE - FRENÉTICO

Pela primeira vez, 007 tem direito a um diptico. Pela primeira vez, Bond não é Bond, James Bond. É um homem marcado pelo passado, preparado para descobrir a verdade a todo o custo…mesmo que isso lhe custe o lugar…e a vida. Este Bond não é para brincadeiras. Este Bond não tem nada a ver com o Bond do passado. Daniel Craig conseguiu o impossível. Ressuscitar uma saga dando-lhe uma perspectiva completamente nova. Quantum of Solace pode não ter o brilhantismo de Casino Royale. Mas um não pode existir sem o outro.

 

CR foi, claramente, um dos melhores filmes de 2006. Negro, fascinante e espectacularmente dirigido, o filme representou uma mudança drástica na vida de James Bond. Um recomeço necessário mas que ganhou mais vitalidade com a eleição de Craig como agente secreto. Ele nunca seria um Bond do passado. Craig é a encarnação do 007 que todos alguma vez quiseram ver e tinham vergonha em assumir. Os cocktails, as piadas ligeiras e os fatos impecáveis têm os dias contados. Bond leva tanto (ou mais) do que o que dá. Mas é sarcástico na hora da dor. E este Bond é a dor em movimento. Marcado pela perda, pelo sofrimento, ele tem de convencer o Mundo, mas principalmente, a ele mesmo, que é o agente que tem de ser. E se no primeiro filme vimos a um Bond imaturo e arrogante, neste segundo filme – e pela primeira vez pode-se falar em sequela – há uma clara evolução da personagem. A sua auto-confiança funciona para fora, mas é a sua relação com os seus fantasmas e especialmente com a sua protectora (uma sublime Judi Dench como M, de uma forma que nunca conseguiu quando dividiu o ecran com Brosnan), que o tornam num verdadeiro caracther digno de estudo, na onda de personagens negras e problemáticas como os heróis do cinema noir.

 

Quantum of Solace (um titulo que traz também a marca de novos dias) é o lado mais violento e frenético deste diptico. Não tem a mesma finura narrativa nem um argumento tão envolvente como CR, porque não necessita. Qualquer referencia aponta directamente ao seu antecessor para funcionar como explicação. Aqui trata-se, acima de tudo, de uma história de vingança. Uma frenética vendetta de um homem despeitado, que além do mais conta com a insuspeita ajuda de uma jovem agente especial boliviana que também tem as suas contas a ajustar, bem como o apoio chave de dois velhos amigos que aparecem nos momentos chaves para impedir que Bond caía nas armadilhas que se lhe vão tecendo pelo caminho. Esperava-se de Marc Forster, acima de tudo, que mantive-se o espírito do seu antecessor.

Objectivo conseguido. O recomendado é ver os dois filmes seguidos (como já passou, por exemplo, com Kill Bill) porque a interligação é inevitável. Mas mesmo que existisse como um elemento único, Quantum of Solace nunca defraudaria. É um excelente trabalho de realização e vive de um notável tour de force de Craig, que arrasta a sua personagem com uma raiva descontrolado descomunal do deserto boliviano ás aguas das Caraíbas, passando pelas apertadas ruas do norte italiano.

 

A narrativa é simples para quem conhece CR. Bond procura os agentes que estão por detrás da morte de Le Chiffre e de Vesper Lynd, a mulher que o fez considerar deixar o posto de agente secreto. Todas as pistas apontam para o líder de uma prestigiada agencia ambiental, que negoceia com ditadores sul-americanos e com a CIA sem qualquer pudor, ao mesmo tempo que surge como a testa de ferro de uma poderosa organização que conta com figuras proeminentes do panorama politico mundial. É neste redemoinho que aparece 007. Contra todas as regras ele decide fazer justiça pelas próprias mãos e envolve-se numa corrida contra o tempo para evitar que os jogos políticos ultrapassem, uma vez mais, a sua incansável busca pela justiça.

 

Este Bond é um justiceiro sem remorsos nem piedade. Um homem com que se pode contar mesmo que não o aparente. Falta-lhe (felizmente) o trato de lorde que tinham os anteriores agentes e não é apenas porque está em principio de carreira. É difícil ver este Bond e imaginá-lo como o “Commander” Bond que pede vodkas martinis enquanto perseguia belas bond girls. E é esta lufada de ar fresco que dá um gozo especial.

 

Bond é Bond e sempre terá os seus defensores e os seus detractores. Mas enquanto o difícil é encontrar diferenças entre os anteriores homens que deram vida a 007, em Daniel Craig é impensável encontrar nele algum traço da personagem criada por Ian Fleming. Este agente foi criado do zero a pensar no Mundo de hoje e este golpe certeiro garantiu dois trunfos: imortalizou uma personagem que dificilmente alguma vez reencontraremos e deu ao mundo um novo ícone. Este Bond é outro Bond…e este filme traz bem vincada a sua marca. Sem gadgets ou loiras espampanantes. Antes de ser agente é homem. E com este homem não se brinca em serviço. Ou fora dele…

 

Classificação

 

Realizador – Marc Forster

Elenco – Daniel Craig, Olga Kurylenko, Judi Dench

Productora - MGM

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 15:28
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A Câmara Parada

Quem já viu o último filme de Jonathan Demme, Rachel Is Getting Married, surpreendeu-se com a naturalidade como o cineasta entrega o seu filme a uma série de handy-cams, como acontece com qualquer casamento que se preze. O filme está em constante movimento, saltando de uma habitação à outra sem qualquer despudor, como se de um incómodo convidado se tratasse. Para uns é hiper-realismo. Para outros é uma inevitabilidade do futuro. Demme não inventou nada. Já a escola do Dogma 95 vinha anunciando que o futuro era a pequena câmara digital em perpétuo movimento. Hollywood adaptou a ideia para trazer mais realismo aos seus grandes épicos bélicos, fazendo sentir ao espectador que está no coração da refrega, e não confortavelmente sentado num sofá forrado e bem cómodo com a sua bebida pousada ao lado.

Fosse o espírito indie de Demme, a irreverência da escola dinamarquesa dos 90, o alucinante Blair Witch Project ou a obra-prima spielberguiana Saving Private Ryan, todos os filmes alinham por uma mesma ideia. Uma ideia nuclear para definir o cinema: o movimento.

 

Cinema é movimento. É dinamismo. Desde as primeiras experiências técnicas da época de Edison, Meliés ou dos Lumiere que sempre se tentou transferir à tela uma sensação de perpetuo movimento. As sucessivas inovações tecnológicas permitiram as cavalgadas dos westerns, a pintura dos revoltosos marinheiros russos de Eisenstein ou as balas fulminantes dos filmes de gansgters da Lei Seca. A câmara mudou de forma, adaptou. Maiores, mais pequenas. Com carris, com suporte…era indiferente, o propósito era que essa ponte entre a cena e o ecrã pudesse ganhar vida, e com isso, dar dimensão a uma situação plasmada num décor, fosse este natural ou artificial.

Foi assim que Godard atirou o seu Belmondo para os Champs-Elyses…que Hitchock jogou com a câmara na frenética sequencia de perseguição final de Vertigo ou que Fellini provocou os delírios de Mastroiani de 8 ½. Tudo baseado na simples ideia do movimento perpétuo da câmara e com ele do autor, da ideia…da obra.

 

Cinema em movimento. Não apenas físico. Cinema em dinamismo mental. Cinema em busca perpétua da novidade. Cinema capaz de rasgar etapas históricas e correntes estéticas. Assim foram os últimos 100 anos da história da sétima arte. Assim serão os próximos 100. É a inevitabilidade do crescimento, do amadurecimento…e do renascimento também.

 

Tudo isto a propósito de uma data, um dia em que um país e alguns salões de chá de Paris ou cidades afins, celebraram com pompa e circunstancia um aniversário. Os 100 anos de Manoel de Oliveira, que alguns quiseram transformar quase nos 100 anos de glória do cinema luso, são a completa antítese de todo o que foi descrito nas linhas anteriores.

Oliveira é a antítese do movimento…físico e intelectual. Oliveira é a representação do cinema-teatro levada ao seu maior extremo, seja numa sequencia de meia hora num convento vazio (de gente, de alma, de vida) seja num plano larguíssimo de um genérico que desafio o bom senso de qualquer santo consagrado no altar. Fazer um exercício de comparação de Oliveira a nomes como Bergman e Buñuel, é puro aproveitamento. Nenhum dos outros dois grandes cineastas filmou como filma Oliveira. Pensou a sua obra como o cineasta portuense. E por isso é que hoje, qualquer cinéfilo dos quatro cantos do Mundo se delicia com Morangos Silvestres e não suporta Benilde. Ou sente uma profunda referencia com Belle de Jour e uma notório repulsa por Belle Toutjours.

 

O cinema-teatro de Oliveira em nada tem a ver com a magia da transformação da grande arte teatral ao meio cinematográfico. Algumas das maiores obras-primas da 7ª Arte são resultado de obras de teatro espantosas (Streetcar Named Desire, Cat on a Hot Tin Roof, Julius Caeser, …) e no entanto plasmam em cena o dinamismo próprio de uma obra cinematográfica. A antítese estética que encontramos na obra de Oliveira em relação ao cinema e ao próprio teatro, faz com que os seus filmes sejam uma produção audiovisual, mas incaracterística de qualquer definição mais concreta. Por ter actores não faz dele teatro. Por estar rodada numa película, não faz dela cinema.

 

Os admiradores de Oliveira dizem que é um eterno jovem que arrisca onde os mais ousados são conservadores. Curioso, visto que desde os seus primeiros documentários (talvez a parte mais honesta e interessante de toda a sua obra) e de um longo período sem rodar, onde foi incapaz de conseguir financiar os seus projectos, Oliveira nada de novo trouxe ao cinema. Não é um iconoclasta como os neo-realistas italianos. Não tem frescura como conseguiu a Nouvelle Vague francesa. Não é um engenheiro de cena como foi Hitchocok ou Ford ou génio da sensibilidade humana como Renoir, Ozu ou Bergman. Oliveira não trouxe ao cinema nada que já aí não estivesse, e para a posteridade ficará uma obra marcada por altos e baixos que uma ínfima minoria valorará, como sempre, a seu belo prazer, com dedo acusatório a todos os que a sujem de infâmias. Um filme já visto e revisto aliás. Um filme bem português.

 

Por ultimo, fica o dedo acusatório. Oliveira não tem culpa de como vive o cinema português. Mas é cúmplice. O sistema de financiação estatal do cinema em Portugal é uma vergonha, mas que passa incólume, no meio de tanto lixo que abunda na estrutura administrativa nacional. A inexistência de uma politica de investidores sólidos (já nem falo em estúdios economicamente saudáveis, como se vão conseguindo fazer em países de iguais dimensões e poderio financeiro) obriga a que quase todo o cinema português passe pela política de subsídios. E aí, os nomes “consagrados” do meio, conseguem sempre levar avante os seus projectos. Pergunto-me quantos filmes terão ficado congelados, filmes capazes de trazer um ar novo ao cinema português e funcionar lá fora como um digno escaparate, para que se financiassem os projectos de autores como este centenário? É triste ver o panorama dos festivais europeus e descobrir que todos os anos chegam novos olhares e novos autores dos quatro cantos do Mundo, e que Portugal se limita a aplaudir se Manoel de Oliveira ganha mais uma menção honrosa, que é como quem diz, uma palmadinha nas costas para agradecer, que por aqui, esteja tudo na mesma.  

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 12:21
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Globos confirman Benjamin Button e relançam Revolutionary Road

Foram várias (como sempre) as surpresas entre os nomeados para os prémios Globos de Ouro. A primeira foi que, num ano tao equilibrado, nao se repetiu o cenário do ano passado onde em vários categorias se ultrapassou a fasquia dos cinco nomeados.

 

Houve várias confirmaçoes (Curious Case of Benjamin Button e Slumdog Millionaire sao cada vez mais consensuais), surpresas (especialmente na categoria de Melhor Filme Comédia/Musical) e filmes que ganharam um novo folego (casos de Doubt, The Reader e especialmente Revolutionary Road).

 

Os grandes derrotados com apenas uma nomeaçao foram Milk e The Dark Knigth, enquanto que, com 5 nomeaçoes, lideram a corrida The Curious Case of Benjamin Button, Frost/Nixon e Doubt, sendo que este nao compete na categoria de Melhor Filme.

 

Na categoria de Melhor Filme Drama, faltaram os esperados The Dark Knight e Milk. Entre os nomeados, à parte dos previsiveis Curious Case of Benjamin Button e Slumdog Millionaire, estavam Frost/Nixon, Revolutionary Road e ainda The Reader.

 

Na categoria de Melhor Filme Comédia/Musical, muitas surpresas. Aos previsiveis Mamma Mia! e Happy-Go-Lucky, juntaram-se Vicky Cristina Barcelona, In Bruges e Burn After Reading.

 

Quanto ao Melhor Realizador, conseguiu-se que, pela primeira vez em muitos anos, os cinco nomeados fossem os autores dos cinco filmes escolhidos na categoria de Melhor Filme Drama. Ou seja, Ron Howard, Stephen Daldry, Sam Mendes, Danny Boyle e David Fincher.

 

Na area de interpretaçao, varias confirmaçoes e algumas surpresas.

Sean Penn, Frank Langella e Mickey Rourke sao os favoritos na categoria de Melhor Actor Drama, enquanto que Leonardo Di Caprio e Brad Pitt conseguiram superar os veteranos Richard Jenkins e Clint Eastwood na votaçao. Na categoria de Comédia/Musical, Dustin Hoffman parte como favorito, mas terá de disputar o prémio com Javier Bardem, Colin Farrell, Brendan Gleason e James Franco.

 

Quanto a actrizes, nomeaçao garantida para Kate Winslet, por Revolutionary Road, como Actriz Principal e por The Reader como secundaria. Angelina Jolie, Kristin Scott-Thomas, Meryl Streep e Anne Hathaway juntam-se à actriz norte-americana na categoria principal, enquanto que a espanhola Penelope Cruz, acompanhada de Viola Davis, Amy Adams e Marisa Tomei, disputarao o prémio de Melhor Actriz Secundaria.

 

Na categoria de Melhor Actriz de Comedia/Musical, nomeada de novo, Meryl Streep terá de defrontar Rebecca Hall, Emma Thompson, Frances McDormand e Sally Hawkins.

Quanto a Melhor Actor Secundario, o favorito é Heath Ledger que defrontara duas surpresas - Tom Cruise e Robert Downey Jr por Tropic Thunder - bem como Ralph Fiennes e Philip Seymour-Hoffman.

 

Quanto ao Melhor Filme de Lingua Nao Inglesa, aos previsiveis Gomorra, Waltz With Bashir, Everlasting Moments e Ill Ya Longtemps que Je T´Aime, juntou-se The Badder Meinnof Complex, da Alemanha. Em Filme Animado, nomeaçao esperada para Bolt e Wall-E (impedido assim de lutar pela nomeaçao na categoria principal) e surpresa para Kung Fu Panda.

 

Nas restantes categorias, em Melhor Argumento, encontramos os guioes de Doubt, The Reader, Slumdog Millionaire, Frost/Nixon e The Curious Case of Benjamin Button. Quanto ao apartado musical, nomeaçoes em Banda Sonora para Slumdog Millionaire, The Curious Case of Benjamin Button, Frost/Nixon e surpresas com Defiance e The Changeling.

Clint Eastwood (fora das categorias principais) viu o seu outro filme, Gran Torino, conseguir a unica nomeaçao na categoria de Melhor Tema Original, junto com Wall-E, Bolt, The Wrestler e Cadillac Records.

 

Aqui podem confirmar todos os nomeados, bem como os eleitos nas categorias de Televisao. A cerimónia de entrega dos Globos de Ouro terá lugar em Los Angeles no próximo dia 11 de Janeiro de 2009.

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 13:47
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New York Film Critics escolhe Milk

Melhor Filme do Ano e prémio de Melhor Actor e Melhor Actor Secundário.

 

Tripla vitória para Milk, o filme de Gus van Sant sobre Harvey Milk, o primeiro politico assumidamente homossexual eleito para um cargo público nos Estados Unidos. Milk foi elegido mayor de San Francisco e despertou uma nova consciencia social na cidade icone do movimento "gay". Acabou assassinado e tornou-se num dos icones do movimento.

 

O filme foi coroado como o Melhor do Ano e Sean Penn e Josh Brolin viram os seus desempenhos coroados como os melhores entre os Actores e Actores Secundários, confirmando que este é um dos filmes do ano.

 

O outro grande vencedor da noite foi Happy-Go-Lucky, comédia do britanico Mike Leigh que venceu na categoria de Melhor Realizador. Também premiada foi Sally Hawkins, vencedora na categoria de Melhor Actriz.

 

Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona), como Actriz Secundária, Jenny Lummet (Rachel is Getting Married) pelo seu argumento e Anthony Dod Mantle (Slumdog Millionaire) pelo trabalho de Fotografia foram outros dos vencedores do ano.

 

Wall-E como melhor Filme Animado, o romeno 4 Months, 3 Weeks and 2 Days como Melhor Filme de Lingua Nao Inglesa e Man on Fire na categoria de Melhor Documentário, foram outros dos vencedores da noite.

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:30
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100 anos de ... Oliveirismo

É o mais reputado cineasta da história do cinema portugues. O mais elogiado extra-muros e o “autor” por excelencia, cá dentro. Mas é também o espelho de uma forma de fazer cinema que se tornou, em parte, responsável pelo marasmo e atraso que Portugal apresenta, ainda hoje, face ao resto do Mundo…Cumpre hoje 100 anos de vida…100 anos de Oliveira…e de oliveirismo, ou como os “autores” asfixiaram o cinema portugues.

 

Nunca venceu um prémio em competiçao (apenas dois prémios do Juri, um em Cannes e outro em Veneza) nos muitos festivais onde esteve em competiçao mas foi sempre elogiado pela sua “forma de fazer e pensar o cinema”. De Douro, Faina Fluvial a O Estranho Caso de Angélica assinou um total de 49 filmes. Viveu periodos de longos interregnos e décadas de forte produçao. Adaptou livros essenciais da literatura portuguesa e aventurou-se em histórias dificilmente concebidas para o grande ecra. Com o passar dos anos percebeu que era o ultimo bastiao do chamado cinema-teatro, onde a camara é um ser inexpressivo, imóvel, cego e surdo ao que se passa ao seu redor. As personagens vivem constantes dilemas existenciais, mais proprios da obra de Proust. O som é melancólico. O ambiente é soturno. O resultado, é trágico.

 

Dificilmente Manoel de Oliveira poderá alguma vez ser comparado aos grandes cineastas europeus do século. Falta-lhe tanta, mas tanta coisa para poder ombrear com nomes (e a lista é infindável) como Renoir, Claire, Eisenstein, Vigo, Powell, Buñuel, Wender, Truffaut, Godard, Rossellini, De Sica, Fellini, Bergman, … e no entanto, por cá, é um nome intocável. É o santo e senha da critica intelectual, quem tem sempre uma desculpa preparada quando, nem eles, conseguem aguentar um filme de duas horas seguindo o mesmo plano. É o reverenciado nome a que nenhum jornalista ousa criticar, à boa maneira lusitana. “É” o cinema portugues. E que pobre cinema. Muito por culpa de Oliveira (e de outros da mesma escola, como o inenarrável César Monteiro), o cinema portugues vive no mesmo marasmo creativo que parecem tomar conta das suas personagens. Durante décadas acapararam o grosso do (pouco) que o ICAM disponibiliza à criaçao de cinema nacional, criando uma cultura de amiguismo e subvençoes que escandalizam qualquer um que saia da floresta negra que é o cinema portugues. Perguntem a Almodovar, Verhoven, Bertolucci ou Haneke, por exemplo.

Oliveira é, ainda hoje, o exemplo de como, em Portugal, o cinema não é feito para ninguém que não seja o próprio autor e o seu séquito. E o público? Esse, vive do risco…

 

E rapidamente o público recusou arriscar mais. Os filmes de Oliveira não vendem. Os filmes de Oliveira não se veem na sala de cinema. Nem na televisao. Nem em DVD. Tem mais adeptos entre o circuito de festivais internacional (o séquito, versao estrangeira), do que em sua própria casa. E neste caso não se pode aplicar o tipico “profeta em terra alheia”. Não é que o cinema portugues não necessite de uma figura quase paternal, uma referencia…o problema é que a que tem, não lhe serve. E não serve porque Oliveira encarna principios que pouco se adequam ao que um país deve buscar. Falta-lhe dinamica, energia, criatividade…vida.

 

Portugal definha e o seu cinema definha com ele. Não se procura aqui uma apologia a Hollywood, Bollywood ou a qualquer cinema que não o made in Portugal. Não é o tipico elogio do que vem de fora e desprezo do que se faz cá dentro.

Não! Procura-se valorizar o producto nacional. Mas para começar a haver verdadeira qualidade no cinema portugues, verdadeiras obras capazes de conquistar tanto o espectador do Porto ou Lisboa que vai ao cinema, como triunfar em Londres, Paris ou Nova Iorque (como fazem todas as outras “potencias” europeias, menos nós…está claro), é preciso uma nova fórmula de fazer cinema. É preciso parar com os subsidios a este tipo de cinema, é preciso incentivar novos nomes, novas ideias, novos rostos…uma lavagem de cara que o país precisa em todas as áreas, e a arte não é excepçao.

 

Oliveira terá sempre o seu nome no panteao. Resistir 100 anos a filmar é um logro ao alcance de muito poucos. É um homem de valor. Mas um homem desfazado do seu tempo e que acabou (por culpa propria, também), por se tornar no icone deste cinema podre que é o que temos por cá.

Portugal nao pode ter um cinema feito só de "Crimes do Padre Amaro" ou "Call Girl", para consumo rápido em formato televisivo. Mas está na hora de terminar com o "oliveirismo" que tem vindo a asfixiar nas últimas décadas o cinema nacional. Se os outros países conseguiram encontrar o equilibrio, porque nao nós?

 

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 00:24
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Estreias - O Heroi do Dia

Não é um pássaro nem o Super-Homem. É Bolt. Herói no mundo de ficção, ele agora vai ter de mostrar que também consegue sobreviver no Mundo real.

 
É esta a premissa do novo filme da Disney. Um cão, estrela de um programa televisivo, acredita que realmente possui poderes especiais. No dia em que acredita que raptam a sua companheira de série, decide resgatá-la. Apenas para perceber que lá fora o Mundo é bem mais complicado do que ele alguma vez poderia imaginar.
 
O divertido cão vai contar com um grupo de inesperados amigos que lhe vão fazer ver que não é preciso ter poderes especiais para se ser grande.
 
O filme está dirigido por Bryan Howard e Chris Williams e conta com as vozes na versão original de John Travolta e Miley Cyrus.
 
Esta semana estreiam também:
 
O remake de The Day the Earth Stood Still, que repete o nome mas não a estética do filme original. Desta vez Keannu Reeves chega à Terra para avisar o Mundo que a raça Humana corre risco de extinção. Avinha-se uma invasão de um exército alienígena e os terráqueos vão ter de decidir como irão reagir a este possível Apocalipse. O filme está dirigido por Scott Derrickson.
 
The Women volta a utilizar o habitual formato do “chick flick”, reunindo um elenco de renome e debruçando-se sobre a problemática da vida de quatro mulheres urbanas que procuram o atalho mais rápido para conquistar a felicidade definitiva. Meg Ryan, Eva Mendes e Anette Benning protagonizam esta comédia de Dianne English.
 
Caos Calmo marca o regresso de Nanni Moretti. O popular actor-realizador italiano desta vez limita-se a protagonizar, deixando a direcção para António Luigi Grimaldi, nesta história introspectiva em que um escritor de meia idade contempla a vida pelos olhos dos amigos que se vão juntando a ele, dissertando sobre a condição Humana contemporânea.
 
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Autor Miguel Lourenço Pereira às 21:19
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Globos de Ouro - Possiveis nomeados

Há décadas que os Globos de Ouro se assumiram como a ante-camara dos Óscares. Premios atribuidos pelos criticos estrangeiros a resider em Los Angeles, os prémios de cinema e televisao tornaram-se numa alternativa soft aos prémios da Academia.

 

O facto de serem atribuidos por criticos e nao por membros da Academia concede-lhe um glamour especial na Europa, mas retiram-lhe algum prestigio no meio, que prefere os prémios dos sindicatos de cada área e claro, dos prémios oficiais da Academia, a este grupo de importantes nomes da critica do entretenimento. No entanto, é impossivel deixar de ver os nomeados e vencedores nesta categoria como os que encontraremos na linha da frente para as nomeaçoes aos Oscares de este ano.

 

Na categoria de Melhor Filme de Drama os favoritos para as possiveis (nos Globos tanto podemos ter 5 como 8 filmes nomeados, dependendo do ano) nomeaçoes sao Slumdog Millionaire, Milk, The Curious Case of Benjamin Button e The Dark Knigth. O quinto posto ficara entre Rachel Is Getting Married, Frost/Nixon ou The Reader, sem esquecer Gran Torino, o filme de Clint Eastwood de que muitos faltam e poucos viram na realidade.

 

Na categoria de interpretaçoes, os favoritos parecem claros. Sean Penn, Mickey Rourke e Frank Langella sao os alvos a abater, com Clint Eastwood, Richard Jenkins, Brad Pitt e Leonardo di Caprio há procura de um lugar ao sol. Na categoria feminina, Cate Blanchet e Kristin Scott-Thomas devem juntar-se a Anne Hathaway, Meryl Streep e Angelina Jolie. No limbo está a candidatura de Kate Winslet por Revolutionary Road.

 

Já na área de Filme Comédia/Musical, o nivel é bastante mais baixo do que em outros anos. Potenciais candidatos sao Mamma Mia!, Trophic Thunder, Happy-Go-Lucky e Sex and the City, com possiveis nomeaçoes para Pink Cadillac ou Vicky Cristina Barcelona.

 

Nas áreas de interpraçao, Meryl Streep, Emma Thompson e Sally Hawkins sao as favoritas entre as senhoras enquanto que Dustin Hoffman, Ricky Gervais e Ben Stiller lideram entre os actores.

 

Nos prémios de Melhor Realizador os favoritos sao os mesmos que dirigem os filmes candidatos a Melhor Filme Drama, com a possivel surpresa de Darren Aranofsky poder ser incluido.

 

Abaixo ficam as nossas apostas para os nomeados que serao conhecidos amanha.

 

MELHOR FILME DRAMA

Milk

Slumdog Millionaire

The Dark Knigth

Rachel is Getting Married

The Curious Case of Benjamin Button

 

MELHOR FILME COMEDIA/MUSICAL

Mamma Mia!

Happy-Go-Lucky

Vicky Cristina Barcelona

Sex and the City. The Movie

Tropic Thunder

 

MELHOR REALIZADOR

Christopher Nolan (The Dark Knight)

Danny Boyle (Slumdog Millionaire)

Gus van Sant (Milk)

David Fincher (The Curious Case of Benjamin Button)

Darren Aranosfky (The Wrestler)

 

MELHOR ACTOR DRAMA

Sean Penn (Milk)

Mickey Rourke (The Wrestler)

Frank Langella (Frost/Nixon)

Richard Jenkins (The Visitor)

Brad Pitt (The Curious Case of Benjamin Button)

 

MELHOR ACTRIZ DRAMA

Kristin Scott-Thomas (Il Ya Longtemps que Je Taime)

Cate Blanchett (The Curious Case of Benjamin Button)

Anne Hathaway (Rachel Is Getting Married)

Meryl Streep (Doubt)

Angelina Jolie (The Changeling)

 

MELHOR ACTOR COMEDIA/MUSICAL

Ben Stiller (Trophic Thunder)

Dustin Hoffman (Last Chance Harvey)

Adrien Brody (Cadillac Records)

Ricky Gervais (Ghost Town)

 

MELHOR ACTRIZ COMEDIA/MUSICAL

Meryl Streep (Mamma Mia!)

Sally Hawkins (Happy-Go-Lucky)

Emma Thompson (Last Chance Harvey)

Tina Fey (Baby Mama)

Sarah Jessica Parker (Sex and the City)

 

MELHOR ACTOR SECUNDARIO

Heath Ledger (The Dark Knigth)

Josh Brolin (Milk)

Dev Patel (Slumdog Millionaire)

Robert Downey Jr (Tropic Thunder)

Philip Seymour Hoffman (Doubt)

 

MELHOR ACTRIZ SECUNDARIA

Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)

Marisa Tomei (The Wresler)

Viola Davis (Doubt)

Rosemarie De Witt (Rachel is Getting Married)

T. P. Henson (The Curious Case of Benjamin Button)

 

MELHOR ARGUMENTO

Milk

Rachel Is Getting Married

The Curious Case of Benjamin Button

Slumdog Millionaire

Vicky Cristina Barcelona

 

MELHOR FILME LINGUA NAO INGLESA

Gomorra

Le Class

Let The Right One In

Yll Ya Longtemps que Je T´Aime

Waltz With Bashir

 

MELHOR FILME ANIMADO

WALL-E

Bolt

Waltz With Bashir

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 16:30
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Wall-E vence o Los Angeles Film Critics Awards

Surpresa, surpresa...A Disney já tinha avisado que ia apostar forte na campanha a favor do novo (e genial) filme da Pixar mas mais do que a poderosa campanha de marketing, poucas coisas funcionarao tao bem para elevar Wall-E à condiçao de potencial surpresa do ano como a vitória obtida no Los Angeles Film Critics Awards (LAFCA).

 

O filme de Andrew Stanton bateu outro crowd-pleaser, The Dark Knigth, como Melhor Filme do Ano, uma verdadeira surpresa, tendo ainda em conta que nos últimos 20 anos só houve tres filmes (Leaving Las Vegas, About Schmidt e American Splendor) que venceram esta categoria e nao foram nomeados ao mais famoso prémio dourado de Hollywood.

 

Para lá da vitória do filme animado, surpresa também na categoria de Melhor Actriz com vitória para a britanica Sally Hawkins por Happy-Go-Lucky, de Mike Leigh, que foi também recompensado com o prémio de Melhor Argumento. Melissa Leo, por Frozen River e Charlie Kauffman, com Synodoch, New York, foram os respectivos segundos.

 

Danny Boyle, por Slumdog Millionaire, superou Chris Nolan como Melhor Realizador e Sean Penn venceu o round a Mickey Rourke como Melhor Actor de 2008.

 

Nas categorias de desempenhos por actores de suporte, vitórias para Heath Ledger (superou Eddie Marsh também de Happy-Go-Lucky) e de Penelope Cruz (bateu Viola Davis de Doubt).

 

Still Life (Melhor Filme Estrangeiro), Man on Wire (Melhor Documentario) e Waltz With Bashir (Melhor Filme Animado) foram os outros grandes vencedores, numa cerimónia que consagrou também Steve McQueen como o melhor rookie do ano, pelo seu filme Hunger.

 

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 13:32
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