Não se trata de avaliar o pior filme do ano. Afinal, provavelmente, os piores nunca chegarão a estrear numa sala e estão agora numa estante alta de um qualquer clube de video. Trata-se essencialmente de eleger aqueles filmes, que por vários motivos (projecção, argumento, elenco, autor, ...), goraram as expectativas que tinham sido criadas à sua volta. Alguns dos filmes aqui destacados não são necessariamente maus filmes, mas poderiam ter sido muito mais e ter tido um papel de maior destaque neste ano.
10
Atonement
Inspirado num bem sucedido romance de um dos escritores da moda, Atonement estava anunciado como um desses grandes melodramas ao velho estilo de Hollywood. A narrativa era impressionante no papel e, desde o inicio, o projecto parecia condenado ao sucesso. Apesar disso, Atonement está muito longe de ser um grande filme. O elenco - da popular Keira Knightley a um sonso James McAvoy - está a léguas do que se exigia para um filme com esta carga dramática, e Joe Wright mostrou que há histórias que se podem adaptar facilmente e outras que necessitam algum engenho para funcionar. E esse engenho faltou-lhe desde o primeiro segundo. O filme resultou bem nas bilheteiras (sem ter tido um ano brilhante), foi nomeado a uns quantos prémios de prestigio, mas passou claramente ao lado da fama, sem no entanto baixar à mediocridade.

9
Australia
Outro filme que poderia ter sido um melodrama épico e que conseguiu repetir todos os defeitos de um filme kitsch que quer ser muito e acaba por não ser nada. Durante anos ouvimos falar deste projecto de Baz Lhurmann, que com um par de filmes dinamicos tinha conseguido elevar-se a si mesmo à condição de autor fora do mainstream. Publicitou Australia como o Gone With the Wind australiano e ao subir tanto as expectativas destruiu, já à partida, qualquer hipótese de sucesso do filme. Porque Jackman e Kidman não são actores fabulosos. Porque a sala de montagem continua a ser, como na origem do cinema, o elemento central para definir o sucesso ou fracasso de um filme. E porque simplesmente a história não era o realista e apaixonante suficiente para criar uma aura de grandeza à volta de um filme que sempre quis andar em bicos de pés.

8
Burn After Reading
Num mesmo ano dose dupla dos Coen. Depois do sucesso estelar que teve No Country For Old Men, e que supôs aliás a sua consagração no meio mainstream, os irmãos Joel e Ethan Coen voltaram a um registo onde já conseguiram bons e péssimos resultados: a comédia. Burn After Reading roda à volta de um grupo de personagens estúpidas até à medula, muito longe do sarcasmo social que estava detrás dos protagonistas de filmes como The Big Lebowski (que continua a ser a sua obra-prima). Apesar de repetirem com a sua habitual "troupe" de actores, aos Coen faltou-lhes dinamismo e energia para transformar um enredo pouco credivel num filme convincente. Não é a sua pior comédia (há muito, muito pior na sua filmografia mais recente), mas é um filme que está a milhões de anos luz do que são capazes de fazer. Como o provaram aliás, há bem pouco tempo.

7
The Incredible Hulk
Ang Lee tinha conseguido transmitir a sensibilidade caracteristica das suas produções à primeira adaptação cinematográfica séria das aventuras de Hulk, o alter-ego destruictivo de Bruce Banner. Em 112 minutos Louis Leterrier (que o melhor que tem no curriculum é Danny, The Dog..o que diz tudo) consegue destruir essa herança por completo. Edward Norton substitui a outro grande da sua geração, Eric Bana, mas o mal já vem de raiz e nem ele é capaz de salvar este barco do naufrágio. Pelo menos as expectativas já eram baixas quando se soube da mudança drástica que sofreu a produção.

6
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
Durante anos fomos bombardeados com noticias e falsas noticias do regresso de Indiana Jones. Parecia tão improvável que quando Lucas e Spielberg confirmaram que, efectivamente, o arquelogo mais famoso da história do cinema ia voltar, parecia uma brincadeira de 1 de Abril. Mas não era, infelizmente, e os amantes da trilogia original (uma das traves mestras do cinema blockbuster dos 70/80) foram forçados a ver como um decrépito e acabado Harrison Ford voltava a pegar no chapéu e no chicote para se meter numa aventura sem pés nem cabeça. No elenco também andavam por lá Cate Blanchett (uma actriz capaz do melhor e do pior, já se viu) e o novo protegido de Spielberg, Shia LeBouef. Resultado: as bilheteiras agradeceram o empurrão que o filme deu ao mercado, Spielberg volta a ter uma nódoa negra na sua complexa filmografia (alterna habitualmente obras-primas com filmes devastadoramente maus) e os apaixonados da saga original sofreram o mesmo sindrome que já tinha passado aos amantes de Star Wars. Ás vezes é melhor deixar as coisas como estão, a não ser que se chame Christopher Nolan.

5
Amália, o Filme
O cinema portugues continua a ser...o cinema portugues. É impressionante que a estas alturas do campeonato, quando qualquer país da Europa é capaz de apresentar, com regularidade, filmes interessantes capaz de projectar o nome do país no estrangeiro, que Portugal continue a ter de levar com trabalhos como Amália, o Filme. Falou-se no grande biopic nacional, num filme de elevada produção e com um dinamismo fora de vulgar comparado com a estética habitual. Mas o resultado é um tremendo vazio que continua a espelhar a falta de meios e de talento que tem o cinema made in Portugal. Se a França tinha sabido apresentar uma aceitável homenagem a uma diva como Piaff, por cá havia a obrigação de fazer um trabalho igualmente decente. E não se pediam biopics a la Hollywood. Apenas um pouco de nivel. Afinal em Amália, resulta que não há musica, que não há personagens e que não há história. Apenas uma sucessão de tristes episódios que representam, também eles, pelo seu vazio, a sina do cinema portugues que continua a afundar-se enquanto o público é forçado anualmente a decidir-se entre o hermetismo oliveiriano e os nus de Soraia Chaves. Para isso, realmente o melhor é ficar por casa.

4
W.
Oliver Stone é um dos melhores cineastas que o cinema americano deu nos últimos trinta anos. Um verdadeiro maverick que acredita no que pensa e gosta que os seus filmes transmitam os seus ideais. Essa postura já lhe valeu assinar obras fabulosas. Mas também provocou que a sua filmografia esteja cheia de altos e baixos. E já vão dois seguidos. Depois de se debruçar sobre o drama humano do 11 de Setembro, sem sucesso, em World Trade Center, o cineasta que já tem no curriculum filmes como Platoon, JFK ou Nixon, decidiu tratar outro grande drama: a presidencia de George W. Bush. A figura de Bush polarizou como nunca o mundo face aos Estados Unidos. No entanto, Stone, um critico acérrimo do presidente, longe de explorar esta crescente raiva contra uma administração marcada por sucessivos erros, patetiza a figura do homem, criando até um sentimento de pena face a um individuo que estava mais preparado para abrir um saloon do que para ser presidente dos Estados Unidos. W. podia ter sido a critica certeira num ano em que um novo vento anuncia mudanças em Washington. Mas alinha pelo mesmo diapasão dos últimos anos deste Bush na presidencia e é um filme pesado e sem chispa, incapaz de transmitir as vibrações de um "yes, we can".

3
The Darjeeling Limited
Há cerca de uma década saiu uma nova fornada de jovens cineastas apostados em procurar algo novo num cinema excessivamente marcado pela ansia do lucro. Não eram os indies undergrounds da escola de Cassavettes, Ferrara ou Cronenberg. Eram autores que queriam fazer parte do sistema, mas dar-lhe um rosto distinto. Entre esses estava Wes Anderson. Para muitos um dos mais talentosos da sua geração, a verdade é que Anderson conseguiu com The Royal Teenembaus e The Life Aquatic of Steve Zissou, alguns dos melhores momentos cinematográficos dos últimos dez anos. Mas a formula, tanta vezes repetida, perde frescura e sentido de novidade. E estagna-se num cinema hermético e incapaz de ir mais além. O que em 2001 tinha piada e era realmente um tiro no escuro agora torna-se previsivel e limitado. É isso que acontece com The Darjeeling Limited, um filme que volta a reunir a tropa habitual do cineasta (com Andrien Brody como novidade) mas que também peca por repetir todas as fórmulas já usadas até à exaustão. Para os admiradores do realizador, é mais uma obra para a galeria. Mas para quem tinha em Anderson um cineasta capaz de injectar sangue novo constantemente, soa a obra fora do prazo de validade.

2
There Will Be Blood
Há uma certa tendencia dos criticos a aplaudir de pé tudo o que é diferente. Mas nem sempre tudo o que luz é ouro, nem tudo o que jorra é petróleo. There Will Be Blood é desses filmes capaz de dividir opiniões para toda uma vida. Haverá os seus defensores indefectiveis e os seus detractores eternos e é muito pouco provavel que alguém mude a sua posição. Porque é um filme claramente provocador, que aposta no minimalismo (da banda sonora de Tom York à fotografia intensa do deserto) visual e sonoro extremo. O projecto era ambicioso (e Paul Thomas Anderson, ao contrário do que se disse de Wes Anderson, é um realizador corajoso) mas no final soa forçado. Tudo. E se o desempenho de Daniel Day-Lewis é um tour de force extraordinário, que ficaria bem em qualquer filme, já todo o resto do elenco é reduzido a um amadorismo quase bressoniano. Ao tentar evocar o Monument Valley de Ford ao mesmo tempo que reduz tudo ao minimalismo dialético de Ophuls ou Bergman, cria-se na narrativa uma confusão intensa que acaba por não desembocar em bom porto. O final surrealista e despropositado confirma que desde o primeiro plano até ao final, o espectador anda à deriva, sem nunca encontrar o seu rumo.

1
Into the Wild
Há filmes que são apenas decepcionantes. E há outros que vão muito para além disso. A critica apaixonou-se pela aventura de um jovem yuppie que deixa tudo para trás (sociedade, familia, cartões de crédito) e decide partir à aventura para viver como um selvagem no longinquo Alasca. Sean Penn é um actor extraordinário, disso não cabe dúvida nenhuma. Mas como cineasta não tem sentido de dinamismo nem da importancia em criar narrativas concisas e que se conectem bem, do primeiro ao último plano. Já tinha passado o mesmo com o lastimavel The Promise e volta a passar o mesmo este Into the Wild. O elenco, liderado por um incipiente Emile Hirsch, defrauda desde o primeiro instante, enquanto que o argumento não consegue, em nenhum momento, criar aproximação com o espectador. Resulta que o filme parece querer funcionar como um manifesto libertário num mundo onde o capitalismo vive uma crise aguda numa exaltação ecológica de regresso às origens. Mas acaba por ser uma aventura sem sentido e com pouco pulso, capaz de fazer o mais santo dos espectadores sair da sala antes para se meter a ver um qualquer filme nacional.

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