Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

2010 - Filmes do Ano II

 

 

 

Inception

 

Se há um cineasta com uma carreira absolutamente imaculada na passada década, esse é sem dúvida Christopher Nolan. Foram só cinco filmes, mas todos eles atingiram um grau de genialidade ao alcance de muito poucos. Nem Eastwood, nem os Coen, nem Scorsese, nem Jackson puderam roçar de forma consecutiva a perfeição. Memento, Batman Begins, The Prestige, The Dark Knight...a conclusão lógica a este ritmo frenético só podia ser Inception.

Obra-prima para a história, verdadeiro tour de force emocional, a mecânica do último filme de Nolan desafia as próprias noções humanas de acção-reacção que pautam os nossos sonhos, nosso refugio e também, inevitavelmente, a nossa perdição. Nessa aventura onírica a acção é o de menos, o som de Piaff ao ritmo da partitura titânica de Hans Zimmer pautam o ritmo de tragédia grega com traços profundamente shakesperianos onde a redenção funciona como alavanca para restaurar a normalidade. Redenção de um filho com um pai, redenção de um homem de negócios com o seu parceiro, redenção de um homem com uma mulher. Mulher intensa como Marion Cottillard capaz de reduzir a um autêntico suplicio de Tantalo o drama de Cobb, o inimitável Di Caprio, e atirar toda uma equipa de audazes vanguardistas para um mundo imprevisivel, temivel e perturbador. Até ao último frame, a essência de Inception está dentro de cada um de nós. Nolan provou que se pode chegar tão longe, depois de já ter dado vários toques de atenção. Será muito dificil igualar-se a si mesmo. Talvez nos sonhos de cada um.

 

 

 

 

The Hurt Locker

 

Não é por acaso que o filme que triunfou nos Óscares em 2010 tenha sido o menos visto da história do cinema norte-americano. The Hurt Locker é tudo menos um filme made in USA. A frontalidade da camara de Katryn Bigelow, uma mulher para a história, choca com o prosaico compadrio da mensagem patriótica que pauta quase todo o cinema bélico americano, mesmo aquele mais critico. A América dos supermercados, casas pré-fabricadas e familias funcionais e perfeitas é uma utopia que passa ao lado de um filme que vive constantemente no fio da navalha. Na trepidante emoção de um fim previsivel e inevitável para um homem, um espelho do lado selvagem do ser Humano, que sabe que está destinado à acção e não á sedentarização sócio-cultural que implica a vida, hoje em dia, na América e no mundo ocidental. Mais do que as bombas que desarmar é a mente de Jeremy Renner, imensa revelação/confirmação, que funciona como detonador de uma realidade a que muitos preferem fechar os olhos, escudando-se em hinos, bandeiras e discursos feitos. The Hurt Locker é dificilmente um filme bélico. Na essência, é uma obra profundamente filosófica e humana. E, acima de tudo, livre de preconceitos.

 

 

 

 

Shutter Island

 

Quanto Martin Scorsese quebrou a malapata de 30 anos e levou para casa os Óscares que lhe proporcionou The Departed, um dos seus filmes mais certeiros apesar da critica de alguns, a maioria pensou que o cineasta iria abrandar o ritmo e dedicar-se a projectos mais pessoais. Mas no meio de tudo isto surge Shutter Island e o velho ritmo frenético de Marty onde nada é, absolutamente, o que parece. Uma investigação de rotina transforma-se numa caça ao rato trepidante onde nenhum detalhe pode ser olhado com despreza, com pena de perder-se o fio à meada. Acreditar ou não, uma decisão pessoal que o cineasta deixa na mão do espectador, é a mecânica de Shutter Island, um filme superlativo que entra directamente para o top 10 da carreira do realizador, o último dos movie-brats a manter-se no activo, e que acenta, apesar de tudo, na imensa caracterização desse monstro interpretativo que é Leonardo Di Caprio. Tal como no anterior projecto em conjunto (e já vão quatro), também aqui o mais completo actor norte-americano da actualidade dá a profundidade necessária para que a camara de Scorsese entre em mundos inimagináveis. Um filme a que é impossível resistir.

 

 

 

 

The Road

 

É sempre dificil orquestrar uma obra onde os agentes se reduzem até chegar ao nada. O cataclismo do planeta Terra, descrito magistralmente por Tod McCarthy na obra homónima é o ponto de partida para um filme trepidante e tenso até ao momento final. Esperança, muito pouca. Mas o desespero, a morte, conceitos inevitáveis quando se versa sobre o fim, vão-se diluindo no coração de uma relação fraternal que se ampara numa pistola com as balas suficientes para evitar uma dor fisica para lá da humana. No meio dessa corrida contra o espaço, mais do que contra o tempo, John Hillcoat encontra o seu profeta, o seu mensageiro perdido no olhar destroçado de Viggo Mortensen, o homem que perdeu tudo a ponto de sentir numa simples gota de Coca-Cola todo o prazer de um passado obliviado para a eternidade. The Road é um dos filmes mais humanos da última década porque nele está todo o lado obscuro da Humanidade. E só isso é suficiente para ver e rever, ver e rever, ver e rever...

 

 

 

 

 

 

The Social Network

 

O cinema continua a resumir-se facilmente a um tridente fundamental: guião, representação, direcção.

The Social Network tem tudo isso na medida certa. Uma história real e conhecida, sobre como um jovem universitário desbravou o caminho a ponto de tornar-se no mais jovem bilionário da história, desenhada com uma precisão cirúrgica. Um elenco de jovens promessas que surpreendem (Timberlake, Mara) e confirmam (Eisenberg, Garfield) e mantêm o ritmo alto da trepidante narrativa. E a cuidada direcção de um cineasta que evolucionou bastante desde os seus primeiros dias de thrillers com tons negros, como Se7en e The Game, até ao drama orquestrado com todos os condimentos que agradam ao público mainstream, como já tinha antecipado com The Curious Case of Benjamin Button. Graças a esta receita tão velha quanto o cinema mas cada vez mais a cair em desuso, é fácil sentir que The Social Network emerge como um dos filmes mais importantes de 2010. Sem ser um fenómeno cinematográfico capaz de criar escola não deixa de apontar um caminho que muitos defendem há largos anos e que a teimosa Hollywood teima obstinadamente em esquecer.

 

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Autor Miguel Lourenço Pereira às 09:17
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2 comentários:
De Tiago Ramos a 31 de Dezembro de 2010 às 23:22
O INCEPTION é um bom filme mas, para mim, bastante volátil, pelo que na minha lista top 30 figura bem no fim. De qualquer modo, compreendo o porquê de ele surgir no topo.

Gosto de THE HURT LOCKER mas acho-o apenas bom e competente, logo não o incluiria na minha lista.

SHUTTER ISLAND, THE ROAD e THE SOCIAL NETWORK são para mim bem melhores :)


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Janeiro de 2011 às 08:38
Como dizem em Espanha Tiago, "para los gustos, colores" ;-)

São, todos eles, belissimos filmes!

um abraço e Feliz Ano


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