Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A propósito de Gaza...

 Nenhuma guerra é justa. E nunca nenhum dos lados tem toda a razão. Mas há conflitos e conflitos. Basta olhar para trás e é fácil perceber que é muito complicado, para qualquer um, provido de todas as suas faculdades, elogiar o comportamento norte-americano na sua investida ao Iraque, como antes já o tinha feito com o Vietname. Mas também é preciso saber dar a mão à palmatória, e quando se fala de guerras como a do Afeganistão ou a mais antiga Guerra da Coreia, já se entende a legitimidade do conflito. Que não a sua justeza.

O cinema sempre soube explorar o conflito. Aliás, o próprio cinema é o conflito ambulante. De personagens. De cineastas. De argumentos. De produções. Mas os confrontos bélicos sempre deixaram marca, estivéssemos na era do cinema mudo ou a contemplar o cartaz em exibição de hoje. Nem é de estranhar que estejamos a ver um recuperar do ideal dos filmes pacifistas mudos do pós I Guerra Mundial. Afinal, quem vive a guerra na pele, percebe que nenhuma guerra é justa. Mas umas são mais do que outras.

 

É impossível olhar para o conflito israelo-palestiniano e não deixar de estremecer, nem que seja por um segundo. Ideologias à parte, não há, provavelmente, em toda a história, um conflito tão dramático e injusto como aquele que se vive no Oriente Médio nos últimos sessenta anos. Porque nenhuma guerra é justa. Mas há guerras para as quais se parte com base numa revindicação de justiça que não é de todo desproporcionada. Este é, tristemente, um dos casos. Mas enquanto que noutros conflitos não é tão complicado ao Ser Humano discernir entre o Bem e o Mal, esta guerra ameaça tornar-se no verdadeiro calvário de todos os conflitos. E esse drama tem-se tornado igualmente no pano de fundo de várias obras que conseguem captar, magistralmente, o sentimento de angústia que esta constante refrega nos produz.

 

O último caso é Waltz With Bashir, um filme intenso e apaixonante, baseado inteiramente em relatos de pessoas que viveram em primeira-mão um dos mais sangrentos episódios deste interminável conflito. O drama que o cineasta israelita Ari Folman consegue plasmar através dos seus desenhos, é o de um autêntico pesadelo que faz com que os seus próprios protagonistas procurem esconder a realidade dentro do recôndito mais escuro da sua mente. Um comportamento que não é de mea culpa, até porque, esta guerra, se trava dos dois lados. Mas que é inevitável, face à crueza de uma realidade que os mais cínicos catalogam de irremediável e os mais ingénuos de alterável.

Waltz With Bashir coloca a tónica por onde já tinha passado Steven Spielberg. Com Munich, o cineasta que melhor soube (a par do The Pianist de Polanski e do La Vitta E Bella de Benigni) plasmar o horror do Holocausto, foi também aquele que primeiro conseguiu demonstrar que apesar da propaganda de parte a parte, esta guerra não terá nunca um vencedor. Só vencidos. O direito assiste a ambas as partes. O histórico. O moral. O humano. O desespero no rosto de Eric Bana, à medida que se dá conta que tinha acabado de entrar num espiral de violência sem fim, é, tal como os desenhos de Folman, um pesadelo constante que rasga o coração da Humanidade.

  

Mais do que as imagens dos telejornais – que já se tornaram tão friamente banais – para perceber este conflito, é importante, acima de tudo, entender a mais antiga necessidade do Homem. O ter uma casa, mais do que o fanatismo, é a base de esta guerra sem fim. A casa que os judeus errantes buscaram durante dois mil anos – até que decidiram embarcar e resgatar a terra prometida, como já tínhamos visto em Exodus - é a mesma que os palestinianos clamam como sua, depois de terem recebido a palavra dos ingleses aquando do confronto contra os ocupadores turcos – com quem partilham religião mas não raça – como se viu em Lawrence of Arabia. E quando a questão é o lar, tudo se complica ainda mais. E se o lar, mais do que um simples tecto, é a base de duas sociedades profundamente religiosas, tanto que dependem de uma cidade para se manterem de pé, a questão agudiza-se. Já no olha retro de Scott ao conflito dos dias de hoje, Kingdom of Heaven, um sábio Saladino dizia que Jerusalém – a maçã de toda a discórdia – não valia nada…e valia tudo. Na altura a guerra era entre cristãos e muçulmanos. Hoje os protagonistas são diferentes. A ideia é a mesma.

  

O cinema tem o poder de plasmar a crueza do real. Pode entreter. Pode levar a pensar. Pode explorar mundos nunca antes imaginados. Mas também pode fazer o Ser Humano sentir vergonha de si mesmo. Ao ver filmes como Waltz With Bashir ou Munich, provavelmente as duas (que não únicas) pedras base da filmografia sobre este conflito, é estarrecedor ver que estamos diante pessoas, Seres Humanos, como qualquer um de nós, que se matam – não sem dó nem piedade…mas com dó e piedade deles próprios – por um mísero grão de areia. E o que para nós é apenas um pouco de pó, para eles…de um lado e de outro…é tudo.

E por ser uma guerra sem quartel, uma guerra sem memória…uma guerra justa mas infame, serão sempre tão trágicos dias como os que se vivem em Gaza, como inevitáveis.

Resta saber quantos anos poderá durar ainda esta mortal inevitabilidade.

Categorias:

Autor Miguel Lourenço Pereira às 15:16
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2 comentários:
De Pedro Lourenço a 13 de Janeiro de 2009 às 21:47
fantastico texto. parabens.


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Janeiro de 2009 às 19:55
Thanks ;-)


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