Christopher Nolan tem um grave problema nas mãos. Depois de assinar o brilhante Batman Begins, deu vida a um dos mais espantosos filmes da última década: The Dark Knight (TDK). Quando se roça de tão perto a perfeição, um passo em direcção ao abismo é muito mais fácil. Mas sempre temos o “Cavaleiro das Trevas” para nos mostrar que humanos somos todos. E que todos podem falhar. Mas não é qualquer um que faz do sacrificio pessoal uma arte.
Recomeçar de novo foi um passo corajoso em frente. E bem sucedido. Mas todos sabem que o segundo passo é sempre mais perigoso que o primeiro. A audacidade e coragem que se aplaude na primeira vez, é, à segunda, olhada de soslaio muito mais facilmente. Provavelmente não existe uma sequela capaz de ofuscar tanto um primeiro episódio. Não existia, perdão. Até que chegou TDK.
Nolan pode não ser Deus, mas tem um passado para já imaculado (Memento, Batman Begins, The Prestige…)…e um talento fora do normal. Um olho capaz de ver o que os outros nem se atrevem a sonhar. E uma coragem que falta a todos os realizadores da sua geração (e a de muitas outras, passadas e presentes). Um estofo que TDK consagra em cada um dos seus minutos de acção, drama, comédia negra e psicologia humana profunda. Neste segundo filme (esqueçam os primeiros, até mesmo as duas aventuras “burtunianas” que há beira de Nolan chega a parecer um aprendiz kitsch), há uma dimensão “bigger than life”. E não só quando falamos de Batman/Bruce Wayne, esse mascarado heroico que decidiu resgatar das trevas uma cidade corrumpida até à medúla pelos patrões do crime organizado e pela burocracia governamental. Porque TDK é um triptico fascinante, uma história a tres, onde é impossível encontrar um elo fraco no vértice.

As regras do jogo estavam lançadas na última cena de Batman Begins. As cartas estavam na mesa, e o “Homem-Morcego” já sabia quem teria por diante. Um apologista da anarquia, um vilão sem Deus, sem chefe e sem limites. Joker é a máscara, uma máscara tão enigmática e apaixonante como a do cavaleiro da justiça que tem diante de si. Os dois são face da mesma moeda, não no arquétipo do Bem e Mal convencional, mas na forma como levam para as ruas a sua visão pessoal da sociedade. Ambos são párias, marginalizados e perseguidos. Partilham inimigos e métodos. O que os separa é a ténue linha que divide a loucura da razão. Qualquer louco tem razão e qualquer ser racional tem de ter um pouco de loucura. O equilibrio é a etapa mais complexa do processo. A anarquia surpreendente de Joker choca contra o jogo pelas regras (sim, mas quais regras) do Cavaleiro das Trevas. E neste embate particular, que deixa Gotham City e o Mundo praticamente suspensos, é ténue o desiquilibrar da balança. A atirar a moeda ao ar, o exemplo perfeito da evolução Humana. Harvey Dent não é um ser de duas caras até que o transformam num barril de dinamite pronto a explodir. Ele é o equilibrio da balança que Batman procura ser e sabe que nunca poderá alcançar. O equilibrio da balança que Joker teme que realmente exista e tira sentido à sua existencia. Ele é o verdadeiro objecto de disputa dos dois mascarados. Ele é Gotham City, a esperança para uns, a derradeira perdição para outros.
E é nesse confronto que ele se revela como o terceiro e decisivo vértice. Mas nem os bons são tão bons, nem os maus tão maus. Batman deseja a vitória de Harvey para retirar-se, para poder voltar a ser o Bruce Wayne que está escondido, à espera de melhores dias. E para ter Rachel. A mesma Rachel que Harvey ambiciona. Mais que o próprio papel de salvador do Mundo. Joker sabe que os seus métodos destructivos não podem destruir directamente Batman. Mas tem o poder de destruir todo aquilo que ele representa e tudo aquilo por ele luta. E é nesse confronto a tres bandas (com direito a romance e muito, muito humor negro pelo meio) que se vai desenhando um filme de cortar a respiração, num dos mais poderosos argumentos dos últimos anos. Um verdeiro tratado de como colar o espectador à cadeira até à última linha dos créditos finais.

O apartado técnico de TDK é a alavanca necessária para dar realismo à história. Do som à fotografia, dos cenários modernistas aos espectaculares efeitos especiais (e ao contrário do que se possa pensar, neste filme de “acção” os efeitos visuais contam muito menos que os efeitos “psicologicos”) tudo está desenhado a regua e esquadro para ser perfeito. E para abrir passo às verdadeiras estrelas. Nolan tem-se revelado um eximio director de orquestra, e os seus intérpretes são estrelas de primeira linha. Christian Bale é o perfeito anti-heroi do novo século, misterioso e amargado, que encarna o melhor dos “angry young men`s” e o espirito do novo milénio. O seu Batman é das mais deliciosas criacções por parte de um actor, se temos em conta de que a personagem original, apesar de já de si interessante, ser muito mais plana do que a dimensão que o actor gales consegue transmitir. Como tem vindo a mostrar sucessivamente, Bale é um dos grandes da actualidade, e a sua “explosão” definitiva è já uma realidade. No outro vértice um testamento escrito a ouro e com um sorriso mórbido. Que Heath Ledger era um dos actores com mais potencial de Hollywood, não havia muitas dúvidas. Mas que era capaz de criar do zero uma personagem tão genial e atormentada como o “seu” Joker, já é passar a outra liga. O génio de Ledger é, em muitos aspectos, a alma do filme. Atormentado, negro e fatal. A sua parábola da cara rasgada é a sumula perfeita do vilão moderno, sem estigmas nem esteriótipos. A sua interpretação é uma joia para a eternidade. O actor foi-se, mas a obra, essa, nunca perecerá. De tal forma que, com dois monstros destes, é fácil esquecer o terceiro ponto do triangulo. E tal como na narrativa, também na realidade é o desempenho de Aaron Eckhart (um desses outsiders incompreendidos) que equilibra a balança da história, que traz humanismo e desespero a um mundo de herois e vilões.
Será dificil encontrar um filme tão completo no espectro cinematográfico contemporaneo. Haverá os mais idealistas e independentes, os mais comerciais e bem sucedidos e os meninos queridos da critica. Mas dificilmente conseguirão encher tão claramente o cofre mágico, como o faz TDK. Tem os condimentos necessários de acção para criar dinamismo a uma história perfeitamente desenhada. Tem um cenário e um ambiente detalhados ao pormenor para abrir passo a interpretações de primeiro nivel. E tem um maestro que sabe coordenar, do primeiro ao último segundo, do mais humilde figurante à maior das estrelas, cada um dos elementos do seu filme. The Dark Knight é o protótipo do filme moderno. Perfeito, talvez não…mas também é preciso ter cuidado com os objectivos…afinal, sempre vai haver uma terceira parte.
Classificação - 




Realizador – Christopher Nolan
Elenco – Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, …
Productora – Warner Bros.
Classificação – m/16
. Por uma definição justa d...
. Oscarwatch - Melhor Filme...
. Oscarwatch - Melhor Argum...
. Oscarwatch - Melhor Actor...
. Oscarwatch - Melhor Actri...
. cinema
. estreias
. mitos
. noticias
. opinião
. oscares
. premios
. reviews
. rostos
. trailers