O sonho americano ao contrário. Desfeito. Destroçado em mil estilhaços que rasgam a monótona vida numa rua dos subúrbios de uma qualquer cidade norte-americana. Uma rua onde cada sonho se desfaz paulatinamente. Onde o betão recém-colocado, os jardins cuidados ao detalhe e os sorrisos falsos e podres destroem os sonhos daqueles que um dia sonharam em viver. Uma rua onde a desgraça não é a morte. É o progressivo definhar do dia a dia. Uma rua por onde todos já passamos e onde a maioria do Mundo vive mesmo sem se dar conta.

Revolutionary Road é um caminho rumo ao abismo da existência humana. O insuportável vazio da vida dos nossos dias é retratado aqui com uma crueza impiedosa. Todos os sonhos são pisados até não restar nem vislumbre de ilusão. Todos os sorrisos rasgam os rostos e transformam-se em expressões de horror e dor. O filme é, mais do que um tratado sobre o falhanço do American Dream (e o European Dream e todos os Dreams urbanos do século XX). É uma profunda análise da impotência do Ser Humano face à implacável passagem do tempo e o consequente fim de cada uma das ilusões que foi acalentando ao longo da vida.E é nessa teia da aranha onde caem os Wheeler, um jovem casal que sonhava em devorar o Mundo, que acreditava ser diferente. Mas que termina os dias entre o vazio de um prisão grande demais para soar acolhedora e um ritual de tédio exasperante ao máximo para cumprir um sonho antigo. Frank sabe o que não quer – ser igual ao pai e tornar-se, também ele, uma formiga obreira num mundo inexpressivo e sem alma. April sabe bem o que quer, fugir desta prisão castradora que lhe destroçou cada um dos seus sonhos mais puros. Os dois conheceram-se quando ainda podiam dar-se ao luxo de pensar que iriam ser felizes. E agora vivem sob o espectro da frustração constante. E quando a April se lhe ocorre uma última oportunidade para viver, a Frank entra-lhe o pavor da incerteza e o casal dá as mãos para caminhar brutalmente para o fim de qualquer esperança.
O poder da mensagem de Revolutionary Road radica na importância que traduz na relação de um casal – para todos visto como exemplar – as marcas que vai deixando o dia a dia. Maternidades não desejadas, ilusões quebradas, amizades forçadas e trabalhos monótonos, tudo o que pauta o dia a dia de tantas famílias, tanto hoje como então naquela América dos 50, onde muitos se permitiram sonhar o que poucos acabariam por conseguir viver. Sair da norma mecânica em que se tornou a vida da sociedade ocidental é o primeiro passo rumo à loucura. E é precisamente essa loucura que entra de rompante em Revolutionary Road para deixar, por uma vez, claro, que a vida é impiedosa com aqueles que querem ser algo mais que simples peões. A sanidade torna-se em loucura, a vida perde pontos para o poder espectral da morte e a crueza do real asfixia a pureza do ilusório. Em cada momento salta-nos à cabeça a desértica rua onde vivem os Wheeler, que de ponte para uma vida melhor e livre se transforma no vazio de toda a sua existência. A rua que Frank percorre no final será o seu fim como Ser Humano. Porque viver e existir são claramente dois conceitos bem distintos.

A magia do filme radica em dois pilares fundamentais, daqueles que são capazes de fazer com que um bom filme se transforme numa obra inesquecível. Por um lado o trabalho de esteta de um homem com uma visão para lá do habitual, capaz de compreender que para dar profundidade ao conteúdo é preciso tem em atenção à forma. Sam Mendes nunca deixa nada ao acaso. Cada plano é filmado com uma naturalidade abrumadora, uma beleza desesperante. Aquele recanto do Mundo tão angustiante é traduzido de forma onirica, provando que até os sonhos podem enganar. O trabalho de acompanhamento sonoro, como sempre na sua obra, é fundamental para pautar o ritmo e é, acima de tudo, esse olhar profundamente analítico que consagra Mendes como o artesão capaz de arrancar as mais profundas dúvidas do interior mais escondido da alma humana.
Como American Beauty e principalmente, como Jarhead, em Revolutionary Road o ritmo é pausado o suficiente para que nada seja deixado ao acaso. Mas sem nunca perder o dinamismo necessário para transformar o conto de fadas de um jovem casal numa descida ao mais profundo dos Infernos. E como se sabe não são muitos aqueles que possuem a coragem e o know-how para empreender essa viagem. Mas se há algo consensual em Revolutionary Road é que temos, frente a frente, não o casalinho que encantou o público dos anos 90 em Titanic, mas dois dos mais geniais actores da actualidade. A carnalidade de Kate Winslet, no papel mais devastador até à data na sua já brilhante filmografia, é avassaladora. Winslet é mais do que uma grande actriz, em Revolutionary Road é uma alma errante à procura do rumo, uma borboleta presa num copo de vidro que contempla o Mundo lá fora mas que não consegue sair. E que entende, a cada segundo que passa, o quão fútil e limitada é a sua existência. Winslet apaixona pela sua pureza da mesma forma que Leonardo Di Caprio – cada vez mais homem, cada vez mais actor – repulsa pela sua fraqueza. Mas uma falsa fraqueza, atenção. Frank é só culpado de não conseguir ver para além das circunstâncias, de não acreditar que o sonho comanda a vida. Resignado a ser apenas, um pouco mais do que a geração que o antecedeu, Frank não consegue encontrar forças para dar o salto. E com isso cai também ele, lentamente, nesse buraco. Do lado de fora, qual espectador, há um extraordinário Michael Shannon, o espectro de razão no meio de tanta loucura, o louco irremediável no centro de um mundo exageradamente lúcido.
Complicado é olhar para Revolutionary Road e ver a crueldade que pauta cada uma das suas sequências. Apesar de se desenrolar há cinquenta anos, consegue ser mais actual que American Beauty. Num ano marcado pelo optimismo do "yes we can" de Obama, parece que poucos se lembram de que o dia a dia poucos conseguem captar a profundidade da mensagem de Mendes. Capta a essência do desespero da massa anónima de hoje. Dos que já se deram conta de que, também eles, correm o risco de nunca saltarem a vedação. E dos que ainda andam adormecidos, acreditando que Paris está ao virar da esquina. Ou, pelo menos, que há algo para lá daquela eterna viagem de comboio ou do silencio de um lar corrompido da pureza de quem sonhou um dia em ser feliz.
Classificação - 




Realizador - Sam Mendes
Elenco - Kate Winslet, Leonardo Di Caprio, Michael Shannon
Productora - DreamWorks