Há filmes que deviam começar dez ou quinze minutos depois. Demoram demasiado a arrancar. E há outros que deviam acabar uns minutos antes do fechar da cortina. Infelizmente tanto um caso como o outro já fizeram com que excelentes projectos perdessem a chama cativante que conseguem manter ao longo de quase todo o filme. Esse é o único problema de State of Play. Mas é suficiente para fazer do novo filme de Kevin McDonald um desses projectos que deixa no ar a ideia de que podia ter sido muito mais do que realmente é.

Inspirado numa das mais brutais e interessantes séries da BBC dos últimos anos, State of Play chegava aos Estados Unidos sob o temor de que seria complicado adaptar a realidade tipicamente british ao mundo complexo das relações politicas de Washington. Mas se fosse essa a única preocupação bem poderíamos dizer que State of Play passa com nota positiva o exame. O filme é um excelente thriller político que mistura bem o jornalismo de investigação com os bastidores da política norte-americana. A relação entre os distintos poderosos que minam o sistema norte-americano é deliciosa, não faltando a forte critica às constantes politicas de privatização e ao deflagrar da indústria de defesa nacional dentro das fronteiras americanas. Um exercício inteligente e dinâmico a relembrar bem o último grande filme do género, The Insider, um desses projectos que deixa marca. Catalizador da acção, Russell Crowe é o motor do filme desde o primeiro minuto. Centra as atenções e rouba cada uma das cenas que vai dividindo com a jovem talentosa Rachel McAdams (tem postura e sex-appeal suficientes para outro tipo de papeis), a veterana Helen Mirren (no seu estilo de cockney puro transportado para Washington num papel que é, provavelmente, o mais deslocado de todo o filme) e claro, com Ben Affleck. O actor norte-americano, que depois de descer aos infernos começa a recuperar a pouco e pouco prova, uma vez mais, que tem mais talento como argumentista e realizador do que, propriamente, à frente das câmaras. Não que seja um elo demasiado fraco, todo o contrário. Mas é provavelmente uma má escolha de casting num papel que pedia alguém mais noir, capaz de deixar a dúvida pairar. É por aí que o filme começa, suavemente, a perder o rumo.
State of Play tem o condão de suplantar o trabalho anterior de McDonald, o bem sucedido The Last King of Scotland, em ritmo. É um filme mais mexido, mais dinâmico e acima de tudo, mais contundente. Onde o primeiro divagava demasiado no coração da narrativa, este perde nos momentos finais os ganhos acumulados de hora e meia de filme. A concepção estética – os planos nocturnos muito bem fotografados, o rosto dividido de Crowe em contraste com o sorriso perdido de McAdams – dá o mote mas é o miolo da história que agarra o espectador. Apesar de não se tratar de um filme de desempenhos arrebatadores – o próprio Crowe, sempre genial, anda uns furos abaixo do seu melhor nível há algum tempo – o filme tem o tom certo. Jason Bateman é, provavelmente, o único a escapar a este ritmo com um curto, mas excelente desempenho, como o “chulo” de serviço da alta-roda politica de Washington. Um pouco de ar num filme sombrio até nos momentos mais alegres. A cor que rodeia cada cena com Robin Wright Penn – por exemplo – é imediatamente substituída pelos planos em fundo quase negro da dupla masculina deste triângulo amoroso que insinua mais do que demonstra. O enfoque na relação amorosa é um risco, um risco que McDonald quis correr mas que parece ter-se rapidamente arrependido. Muito do que não se ve passa por aí, mas no final são demasiadas as perguntas deixadas sem resposta para perceber se esta foi, ou não, a melhor escolha.
De qualquer das formas State of Play peca por ter essa incapacidade de rematar as coisas da melhor forma. Os últimos cinco minutos parecem feitos sobre o joelho, literalmente tirando todo o ambiente de suspense que tão bem tinha conseguido criar. Um final demasiado rápido e inconsequente para deixar marca, ao contrário do princípio, trepidante, capaz de conquistar o espectador sem grandes artilúgios. Um filme de que se esperava mais – pelo elenco, pelo director e, acima de tudo, pela matéria-prima em mãos – mas que no seu género de thriller politico, não deixa de ser um dos projectos mais bem sucedidos dos últimos anos.
Realizador – Kevin McDonald
Elenco – Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams
Productora – Fox
Classificação - m/12